humanidade

Lição de Humanidade. Por J.A. Dias Lopes

LIÇÃO DE HUMANIDADE

J.A.DIAS LOPES

(post Facebook – 14 de janeiro de 2021)

“Estava com uns 10 ou 11 anos e usava um aparelho ortopédico medieval. Eram barras de alumínio com tiras de couro e uma bota preta, todo articulado. Quando eu andava, o aparelho rangia. Uma tortura! Um misto de algum monstro com Frankenstein, mas era esse aparelho que me colocava em pé e me fazia andar. E, naquela manhã fui trabalhar com meu pai no Centro de Saúde. Minha missão foi importante….” (Johnny Savalla)

Filho único de um conceituado médico de família de São Paulo, daqueles que eram chamados de Sacerdotes da Medicina, Johnny Savalla nasceu em 1949 e aos nove meses de idade foi atacado cruelmente pelo vírus da poliomielite, doença infectocontagiosa aguda. Portanto, ainda não existia uma vacina contra ela, só inventada em 1954 pelo epidemiologista norte-americano Jonas Edward Salk. A prevenção salvadora ficou conhecida por Vacina Salk. Johnny sobreviveu, graças sobretudo à dedicação e ao acompanhamento profissional do pai.

Aprendeu a andar com enorme dificuldade, usou aparelhos ortopédicos “medievais”, como descreve, e até hoje enfrenta insuperáveis problemas de locomoção. Mas isso não lhe tirou o prazer de viver, de colecionar amigos (entre os quais afortunadamente me encontro) e de realizar o sonho de ser jornalista – agora, trabalha na TV Cultura de São Paulo. Além de escrever com talento e fluência, especialmente em sua página do Facebook, na qual vem publicando primorosas evocações de vida. Há três dias, Johnny postou ali uma história pessoal que eu chamaria de lição de humanidade.

Quando a Vacina Salk começou a ser aplicada em São Paulo – e a poliomielite ameaçava todas as crianças da cidade – ele acompanhou o pai médico envolvido na campanha de imunização da doença. Caso uma criança se negasse a receber a proteção, Johnny mostrava as próprias pernas e desafiava: “Você quer ficar como eu?”. Assim venceu resistências teimosas. Outro problema era o fato de já existirem negativistas, os inimigos do progresso da Ciência e da Medicina. Pena que ninguém consiga fazer o mesmo em 2021 com as pessoas que, desastrosamente, não querem ser imunizadas contra a maldita Covid-19.

Transcrevo a seguir o tocante, mas oportuno depoimento de Johnny, no Facebook:
…………….

VACINEM-SE

“Meu pai era o médico-chefe do Centro de Saúde do Ipiranga, em São Paulo, quando teve a campanha de vacinação contra a poliomielite, envolvendo o Exército e instituições civis. Era realmente um esforço coletivo da sociedade para que todas as crianças fossem vacinadas, e assim acabasse de vez a poliomielite no Brasil. Os caminhões do Exército, de cor verde, ficavam à disposição dos Centros de Saúde e eram encarregados de ir aos bairros distantes para trazer as crianças para serem vacinadas.

Meu pai, em dias de vacinação, vinha para casa num desses caminhões e, quando eu o via chegando em casa no caminhão do Exército, ficava encantado. Um dia, ele me disse: “Johnny, hoje você vai trabalhar comigo! E vamos no caminhão do Exército!” Dá para imaginar minha alegria indo na carroceria de lona do caminhão, igual aos soldados?

Estava com uns 10 ou 11 anos e usava um aparelho ortopédico medieval. Eram barras de alumínio com tiras de couro e uma bota preta, todo articulado. Quando eu andava, o aparelho rangia. Uma tortura! Um misto de algum monstro com Frankenstein, mas era esse aparelho que me colocava em pé e me fazia andar. E, naquela manhã fui trabalhar com meu pai no Centro de Saúde. Minha missão foi importante.

Tinha acabado de chegar quando uma das educadoras – Dona Palmira, chamou-me para ajudá-la: “Johnny, venha cá. Tem um menino que quer te conhecer”. O menino estava chorando porque não queria tomar a vacina. Cheguei perto dele e perguntei por que ele não queria tomar a vacina, se era uma gotinha tão doce? (Muitas vezes tomava junto).

Devo ter tomado uns quatro litros de vacina devido ao medo do meu pai que eu tivesse uma segunda vez). Aí perguntei para o menino se ele queria ficar como eu. “Não”, respondeu. Então, tem que tomar. “Então, eu tomo”. E assim cada vez que uma criança não queria ser vacinada, lá ia eu incentivá-lo a tomar. “Você quer ficar como eu?” Era o suficiente. Por que estou contando essa história?

Porque estou vendo, nos jornais, na televisão e nas redes sociais, os tais negacionistas – inclusive gente do governo. Mal intencionados que fazem campanha contra e que falam absurdos do tipo “você vai se transformar num jacaré!” A vacina elimina a possibilidade de você ter a doença, na forma mais grave. Eu sei o que é a falta da vacina. Sei o que é paralisia.

…Seja inteligente. Não tenha dúvida sobre vacinar-se ou não. Você tem o direito de não querer, mas eu te digo, porque sei por experiência própria. Vacinem-se, por amor à vida!

Sofri todos os tratamentos que existiam na época. Não tinha férias. Era nas férias que eu fazia as cirurgias. Foi assim até meus 18 anos! Perdi muitas coisas? Perdi. Incomoda? Incomoda. Não é legal. Preferia não ter tido, mas já que eu tive, segui minha vida, buscando as minhas alegrias. Não me atrapalhou emocionalmente. Nunca me atrapalhou para namorar. Nunca senti rejeição – se houve, não percebi.

Claro, tinham momentos que eu sentia minhas limitações. Hoje, sofro da síndrome pós poliomielite, que é uma regressão devido ao esforço feito a vida toda, pra mostrar para todo mundo que era capaz de fazer as coisas que todos faziam. Tenho dor nas articulações, ando menos, alguns espasmos, mas ainda estou trabalhando. Há 11 meses não saio do quarto – na parte superior da casa. Mas estou aqui trabalhando, escrevendo e resolvendo minha vida da melhor forma possível.

Resumindo: vacinem-se! Com a vacinação, se você vier a pegar o vírus, você terá no máximo uma gripe que alguns dias em casa, de repouso e com um chazinho, resolve. Essa doença, essa Covid 19, deixa sequelas que ainda não estão bem claras. Seja inteligente. Não tenha dúvida sobre vacinar-se ou não. Você tem o direito de não querer, mas eu te digo, porque sei por experiência própria. Vacinem-se, por amor à vida!”

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J.A. DIAS LOPES -JORNALISTA

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JOHNNY SAVALLA
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JOHNNY SAVALLA – JORNALISTA

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