do golpismo ao banditismo

Do golpismo ao banditismo. Por Myrthes Suplicy Vieira

…O que há de novo no pedaço é um presidente que escala do golpismo de ocasião para o banditismo mais deslavado e explícito. Questão de caráter, não de contingências políticas ou ideológicas…

do golpismo ao banditismo

Os mais jovens podem não saber, mas presidente golpista não é novidade por estas bandas. Basta folhear um livro de história para descobrir uma penca deles. Aliás, ao fazê-lo, a mais ingênua das criaturas vai entender que nossa república começou precisamente com um golpe.

O que há de novo no pedaço é um presidente que escala do golpismo de ocasião para o banditismo mais deslavado e explícito. Questão de caráter, não de contingências políticas ou ideológicas. Quem não o conhecia em 2018 e o comprou por medo de que o Brasil avançasse para um patamar um pouco menos desigual que o diga. Quem já o conhecia e, mesmo assim, apostou que ele se corrigiria e respeitaria ao menos as instituições republicanas e o decoro do cargo agora está de pires na mão, implorando pela clemência de seus pares para retomar algum grau mínimo de cidadania.

Em 5 de fevereiro de 2019, poucos dias após Bolsonaro completar um mês de governo, escrevi um texto alertando para os tempos sombrios que nos aguardavam sob sua batuta. Nele estavam registrados, além dos óbvios defeitos de caráter do recém-eleito, os projetos macabros que alimentaram a escolha de ministros, assessores, líderes do governo e presidentes de estatais. Prevendo que a explosiva mistura de religiosos fundamentalistas e militares subservientes ocupando cargos técnicos nunca poderia dar certo. Num dos trechos fiz questão de escrever que “por medo dos bandidos, a maioria concordou em pagar a milicianos para cuidar de sua proteção pessoal”. Vidência, visionarismo, mediunidade? Não, simples experiência de vida, atrelada a algum conhecimento de psicologia clínica – ainda que a psicologia, como ciência, não lide com questões de caráter.

… ainda vale a pergunta: Como acreditar que um indivíduo incapaz de separar o que é público do que é privado poderia da noite para o dia se transformar em estadista respeitável internacionalmente? Ingenuidade tem limites, ora bolas…

Como dizia um espírita famoso e colega de profissão (Gasparetto), só se desilude quem se ilude. Quem passou a vida tentando mudar as crenças e comportamentos de seus pais, companheiros, filhos, amigos ou chefes – e se frustrou redondamente – sabe bem do que estou falando. As pessoas apaixonadas costumam acreditar que o outro possa mudar “por amor” a elas. Ledo engano. Se isso já não vale para as relações pessoais, imagine então o que pode ser esperado nesse ninho de serpentes peçonhentas que é a política brasileira.

O desrespeito às leis e às instituições é marco simbólico de toda a carreira pública de Jair Bolsonaro. Inútil elencar os escabrosos atos tresloucados do ex-capitão, cada um pode localizar algum malfeito mais a seu gosto. Mas ainda vale a pergunta: Como acreditar que um indivíduo incapaz de separar o que é público do que é privado poderia da noite para o dia se transformar em estadista respeitável internacionalmente? Ingenuidade tem limites, ora bolas.

Mais além da obsessão por transgredir, no entanto, está o cinismo covarde, a hipocrisia, a insensibilidade e a desfaçatez premeditada dessa criatura. Essa talvez seja a verdadeira e única novidade na presidência em todos os tempos. Antigamente, os políticos pegos com a boca na botija ainda se davam ao trabalho de fazer pronunciamentos indignados, repletos de linguagem empolada e termos incomuns da norma culta, destinados a convencer os mais crédulos de que eram seres impolutos, exemplos de probidade administrativa e simples vítimas de “perseguição política”. Hoje em dia, se já não bastasse a linguagem chula típica de botequim de beira de estrada e de prostíbulo com que o atual mandatário se dirige à nação, temos de lidar com o contínuo arremesso de responsabilidades à distância e de nos haver com bravatas inconsequentes, mentiras e desmentidos, seguidas por novas mentiras e novos desmentidos.

Não bastasse o golpismo explicitado nas manifestações do 7 de setembro passado e rapidamente minimizado como infeliz resultado do “calor do momento”, o Anticristo tupiniquim agora anuncia destemido a repetição da façanha para este ano. Quer mostrar de forma cabal “de que lado o povo está”. Fiquei pensativa: lembrei do apelo do “não me deixem sozinho” de Fernando Collor, que deu no que deu. Mas, ainda perplexa, me indago: e se as ruas e praças das capitais se encherem com multidões de devotos violentos repetindo a plenos pulmões “eu autorizo”, como reagirão as oposições e o Judiciário? Haverá guerra civil, cancelamento das eleições ou a pressão interna e internacional se encarregará de botar freio no ânimo demolidor do déspota?

Não fosse suficiente a sustentação indisfarçada de alguns militares de alto coturno para a aventura golpista, ele agora decide fechar com chave de ouro sua carreira de banditismo profissional com um inédito crime de lesa-pátria: ir buscar o apoio do presidente dos Estados Unidos para tentar impedir a ascensão de seu adversário. Aparentemente, continua apostando no cansaço e no esgarçamento das forças democráticas. Resta saber se vamos ser capazes de ressuscitar os caras-pintadas, pegar em armas mais uma vez para defender a pátria dos seus algozes ou se Deus, brasileiramente, vai dar um jeitinho de demonstrar que ele não é nem imorrível nem imbrochável.

É, pois, em nome de Marielle, de Bruno Silveira e Dom Phillips, de tantos jornalistas atacados grosseiramente, das crianças e jovens pretos da periferia mortos por violência policial, dos mortos pela pandemia e dos que estão perto de morrer pela fome que eu pergunto: como você vai justificar – não só para terceiros, mas principalmente, para sua própria consciência – sua intenção de votar nele outra vez?

Ou vai continuar achando que o tal bicho-papão do “comunismo” é um mal maior a ser enfrentado?

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 Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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5 thoughts on “Do golpismo ao banditismo. Por Myrthes Suplicy Vieira

  1. O problema é que estamos num mato sem cachorro, entre correr e ficar.
    Sua frase “como acreditar que um indivíduo incapaz de separar o que é público do que é privado poderia da noite para o dia se transformar em estadista respeitável internacionalmente?” vale também para o outro candidato que divide com o citado as pesquisas eleitorais – apesar de todo forrobodó que os progressistas orquestrados pelo mundo afora fazem em torno de seu nome.
    Nem um, nem outro: ambos se equivalem no arrivismo, na desfaçatez, na esperteza rasteira, na grosseria e no desprezo pelo seu semelhante.

    1. É verdade, Varlice. Não nego os defeitos de caráter do outro candidato. O problema é que um dos lados – aquele que abordo – já saiu há muito tempo da escala civilizacional e precisa ser interditado urgentemente. É uma questão de sobrevivência dos valores democráticos e iluministas pelos quais nos pautamos como humanidade e como sociedade.

  2. Prezada Myrthes. Embora eu tenha cada vez menos tempo para dedicar ao que se passa na imprensa brasileira, tento, sempre que o ritmo de trabalho me permite, dar atenção ao que me parece importante ler – e este Chumbo, com sua vocação democrática multifacetada, encontra-se entre minhas escolhas. Sempre que leio, a experiência de encontrar um artigo teu não me trai: não apenas teu texto, mas especialmente tuas ideias, recompensam-me e me satisfazem. Enquanto houver, dentre os que aí escrevem, alguém capaz de compreender a gravidade do momento por que o Brasil passa, haverá esperanças para o país. No mínimo, a esperança de conscientizar aquela parcela da população que, mesmo instruída, prefere a ausência leviana, que enganosamente isenta de responsabilidades, ao ato quase sacrificial de um voto, talvez indesejado em princípio, mas ao menos compromissado com o bem comum que a manutenção da democracia representa. Isso não é pouco. Poucos, infelizmente, são aqueles que compreendem isso em sua inteireza. Do outro lado, muitos são os ‘democratas’ que, por preconceito, desinformação ou apenas rancor, preferem ver o país mergulhar num pântano ditatorial fascistoide, tocado por milicos do pior tipo, a conceder um voto, emergencial e excepcional que seja, a um partido de centro-esquerda. E não se iluda com o que vem daí: a aversão a Lula é apenas uma desculpa que Sergio Moro, quando ainda tinha alguma credibilidade, tornou mais fácil. Qualquer candidato de centro-esquerda seria objeto da mesma aversão moralista por parte desses ‘fake-democratas’ que, para não se assumirem reacionários completos, dizem-se liberais (e mesmo isso neles é falso, pois que, de Liberalismo, nada têm. Pergunte-lhes quantos leram Tocqueville ou, pra não ir tão longe assim, seguem as ideias de John Rawls, por exemplo.). Enfim, prezada Myrthes, congratulo-te pela clareza com que você deixa teu argumento e teu posicionamento à disposição da reflexão alheia. Um exemplo como o teu por certo haverá de incentivar reflexão em todos aqueles que prezam a inteligência, o bom-senso, o compromisso com um mundo melhor, ainda que apenas o mundo possível. A realidade, sabemos, pode ser dura, mas é nela que se vive. É nela que nossos compromissos e sonhos terão, ou não, a oportunidade de existir.
    Meu abraço.

    1. Mesmo certa de não merecer, agradeço de coração os comentários elogiosos. De qualquer maneira, é sempre bom lembrar: “It takes two to dance the tango”. Grande abraço.

  3. Myrthes, o problema é que é dado ao eleitor – até agora, sem vislumbre de mudar tal quadro – praticamente uma única opção de interditar urgentemente um dos lados e, socorro!, com outro que se equivale a ele em gênero, número e grau.
    Não se engane, trocaremos seis por meia dúzia, com os cacoetes já conhecidos.
    Nem um, nem outro.
    Nem o esterco, nem o estrume.

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