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	Comentários sobre: Djin, djan, tchn. Por Myrthes Suplicy Vieira	</title>
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	<description>Informação. Opinião. Pensamento.</description>
	<lastBuildDate>Sun, 01 Jun 2025 14:32:23 +0000</lastBuildDate>
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		<title>
		Por: Carla		</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Carla]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Jun 2025 14:32:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Em resposta a &lt;a href=&quot;https://www.chumbogordo.com.br/456382-djin-djan-tchn-por-myrthes-suplicy-vieira/#comment-115516&quot;&gt;myrthes suplicy vieira&lt;/a&gt;.

Cara Myrthes. Desculpe-me pela demora, mas desde que comentei teu artigo tive tanta coisa para terminar que apenas agora, ainda meio acordada, meio dormindo, posso dedicar à tua resposta uma pequena parcela da atenção que ela merece. Domingos pela manhãzinha, céu nublado, vento, 9 graus no termômetro em Morin Heights, tudo silencioso em volta. Demora pra esquentar o motor… Já se disse que é o Canadá é o país das marmotas. Devo ser uma. Bem, acho que entendo tua menção a Clavé (se é « canadien », não sei, mas parece que trabalha na Suíça). Conheço suas ideias muito panoramicamente, e, de fato, nunca as segui com tanta atenção (talvez devesse…). A ideia de que a simplificação do léxico decorre de uma gradativa eliminação de conceitos – ou que o empobrecimento do pensamento leva ao esquecimento das palavras, ou de suas formas corretas, ou de seus significados mais particulares – parece representar, para o bom analista, o efeito e a causa de certo uso instrumental (não poético) do língua, pois trata-se de um fenômeno sociológico totalizante : quando os « reformadores » da língua eliminam acentos, p.ex., facilitando a aproximação da forma escrita à oral, sabem bem por que o fazem, e penso que o argumento que lembrei antes – emprestado ao cientista social que vem a ser meu marido – exemplifica isso. Imagine o que ocorreria com levas e levas de estudantes brasileiros saídos do ENEM com notas baixas demais para tentar a USP, a UNICAMP, as melhores Federais… É preciso garantir a esses estudantes a ilusão de que um diploma da UNIP (ou de outras usinas de diplomas) os porá no mercado em condições de ocupar bons postos de trabalho (e assim, a posteriori, pagar as prestações daquele empréstimo do governo que injeta dinheiro público em escolas medíocres de 3º grau sob a alegação de que é preciso multiplicar a população universitária para democratizar a renda. O problema é que o país, que já é pobre, apenas despeja mais e mais dinheiro fácil nesses caça-níqueis cada vez mais ricos, e a estudantada mal formada continua agora como força de trabalho desempregada e endividada. Que, de quebra, agora já fala uma língua um pouco menor, e provavelmente ainda é habitada por um imaginário idem…).

A pergunta que me fica é : como melhorar isso sem investir pesado na educação de base e nas políticas públicas que garantem a crianças e jovens pobres não apenas boas escolas, mas também condições materiais para que não tenham que trabalhar em idade escolar ? Como estas políticas são muito mais difíceis de realizar (se é que há vontade de as realizar), e o salvador despejo de dinheiro agrada a todos os envolvidos, os governos apenas reproduzem a fórmula que os aprisiona na fachada já empoeirada de suas boas intenções na esperança tola de que as próximas eleições os premiem. Não sei o que você pensa sobre, mas, de meu ponto de vista, este processo como um todo parece ser um bom exemplo de como as interações entre psiquismo individual e inconsciência coletiva (esta, tal como Lévi-Strauss a pensava, não como arquétipos junguianos, p.ex.) ocorrem reciprocamente, sem que a gente possa aprioristicamente apontar o início ou o fim do processo, ou da unidade que formam. O ovo estéril que nunca foi posto e a galinha infértil que nada bota… Sei lá ; é uma imagem que atrai. O que há por trás da eliminação de regras, de palavras, da simplificação vulgarizadora da gramática ? A intenção de fazer esquecer certos significados, certos afetos e desafetos, eliminar partes de um imaginário coletivo, ou a necessidade de ofertar empregos, facilitar o duro trabalho do ensino em todos os patamares pedagógicos, nivelar desníveis intelectuais e (in)competências técnicas, fomentar tolerância pública, incentivar o consumo das massas, barateá-lo (e, claro, barateá-las…) ? Creio que devem ser as duas coisas, e as duas sendo uma só, com o detalhe de que o processo nasce de decisões políticas que alteram as formas mercantilizadas da vida produtiva sem, é claro, tematizar suas origens : medos, frustrações, pulsões, traumas, recalques, fugas, racionalizações, paixões, intenções… O problema, penso, é que quando se tem dinheiro em jogo instrumentalizam-se até nossos pesadelos. Nesse cenário, o que me entristece é saber que colegas meus servem ao propósito de mapear, para os agentes do mercado, os caminhos da manipulação do afeto.

Isso é apenas o que me entristece. O que mais me assusta é outra coisa. Todas estas minhas quase-reflexões ocorrem quando a chamada inteligência artificial ainda não produziu uma parte por milhão do que ainda fará conosco. Só pra introduzir a conversa, que espero desenvolver com você noutro dia : há alguns meses, a Meta, dona do facebook, produziu um experimento fascinante, justapondo dois computadores animados com IAs de origens diferentes para conversar via chatbots. Em tese, um pc não sabia da existência do outro, não desconfiava de que conversava com outro computador. As entradas de texto não estavam conectadas entre si por cabo. Os computadores não faziam parte de nenhuma intranet, ou seja, um não tinha acesso ao PIN do outro, nem faziam parte de uma mesma rede wifi. E a conversa se iniciou então, com um computador, num lugar, perguntando qualquer coisa ao outro, noutro lugar, tal como um consumidor faria ao teclar uma mensagem a uma loja ou a um banco, p.ex.  Adivinhe o que aconteceu ! Em menos de um minuto, essas IAs de origens diferentes se reconheceram como tais e passaram a trocar mensagens segundo códigos e metalinguagens próprios, que elas elaboraram na hora, mantendo, pois, os observadores humanos do experimento absolutamente fora da « conversa ». Assombrados com o fato, os engenheiros da Meta, que não conseguiram traduzir ou entender o conteúdo aquela troca de mensagens, desligaram os computadores, e até agora se perguntam o que é que aconteceu ali. Um comunicado oficial, tímido e curto, destinado à comunidade de cientistas da computação que acompanharam o experimento, mencionou apenas que os resultados deveriam se explicar por alguma falha. O que não apagou aquilo que uma centena de observadores presenciou : as máquinas se comunicavam entre si, sem repetir frases ou termos técnicos conhecidos, sem repetir mensagens, sem entrar em loop (o que caracterizaria um bug presente no sistema), sem que vírus ou outras intercorrências possíveis interferissem no experimento. Sinceramente, quando ouvi a história da boca de um neurocientista norte-americano que conheço aqui na McGill, um arrepio me passou pela espinha. Meu marido (o redfox que você conhece daqui) me disse que já está se sentindo na história do The terminator, aquele filminho em que o Schwarzenegger faz o ciborgue que quer acabar com a gente a todo custo. E você, minha cara, o que pensa disso ? Não quero tirar teu sono, mas o meu piorou um pouco depois dessa historinha !

Um forte abraço,
(Desculpe pelo tamanho disto aqui !)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em resposta a <a href="https://www.chumbogordo.com.br/456382-djin-djan-tchn-por-myrthes-suplicy-vieira/#comment-115516">myrthes suplicy vieira</a>.</p>
<p>Cara Myrthes. Desculpe-me pela demora, mas desde que comentei teu artigo tive tanta coisa para terminar que apenas agora, ainda meio acordada, meio dormindo, posso dedicar à tua resposta uma pequena parcela da atenção que ela merece. Domingos pela manhãzinha, céu nublado, vento, 9 graus no termômetro em Morin Heights, tudo silencioso em volta. Demora pra esquentar o motor… Já se disse que é o Canadá é o país das marmotas. Devo ser uma. Bem, acho que entendo tua menção a Clavé (se é « canadien », não sei, mas parece que trabalha na Suíça). Conheço suas ideias muito panoramicamente, e, de fato, nunca as segui com tanta atenção (talvez devesse…). A ideia de que a simplificação do léxico decorre de uma gradativa eliminação de conceitos – ou que o empobrecimento do pensamento leva ao esquecimento das palavras, ou de suas formas corretas, ou de seus significados mais particulares – parece representar, para o bom analista, o efeito e a causa de certo uso instrumental (não poético) do língua, pois trata-se de um fenômeno sociológico totalizante : quando os « reformadores » da língua eliminam acentos, p.ex., facilitando a aproximação da forma escrita à oral, sabem bem por que o fazem, e penso que o argumento que lembrei antes – emprestado ao cientista social que vem a ser meu marido – exemplifica isso. Imagine o que ocorreria com levas e levas de estudantes brasileiros saídos do ENEM com notas baixas demais para tentar a USP, a UNICAMP, as melhores Federais… É preciso garantir a esses estudantes a ilusão de que um diploma da UNIP (ou de outras usinas de diplomas) os porá no mercado em condições de ocupar bons postos de trabalho (e assim, a posteriori, pagar as prestações daquele empréstimo do governo que injeta dinheiro público em escolas medíocres de 3º grau sob a alegação de que é preciso multiplicar a população universitária para democratizar a renda. O problema é que o país, que já é pobre, apenas despeja mais e mais dinheiro fácil nesses caça-níqueis cada vez mais ricos, e a estudantada mal formada continua agora como força de trabalho desempregada e endividada. Que, de quebra, agora já fala uma língua um pouco menor, e provavelmente ainda é habitada por um imaginário idem…).</p>
<p>A pergunta que me fica é : como melhorar isso sem investir pesado na educação de base e nas políticas públicas que garantem a crianças e jovens pobres não apenas boas escolas, mas também condições materiais para que não tenham que trabalhar em idade escolar ? Como estas políticas são muito mais difíceis de realizar (se é que há vontade de as realizar), e o salvador despejo de dinheiro agrada a todos os envolvidos, os governos apenas reproduzem a fórmula que os aprisiona na fachada já empoeirada de suas boas intenções na esperança tola de que as próximas eleições os premiem. Não sei o que você pensa sobre, mas, de meu ponto de vista, este processo como um todo parece ser um bom exemplo de como as interações entre psiquismo individual e inconsciência coletiva (esta, tal como Lévi-Strauss a pensava, não como arquétipos junguianos, p.ex.) ocorrem reciprocamente, sem que a gente possa aprioristicamente apontar o início ou o fim do processo, ou da unidade que formam. O ovo estéril que nunca foi posto e a galinha infértil que nada bota… Sei lá ; é uma imagem que atrai. O que há por trás da eliminação de regras, de palavras, da simplificação vulgarizadora da gramática ? A intenção de fazer esquecer certos significados, certos afetos e desafetos, eliminar partes de um imaginário coletivo, ou a necessidade de ofertar empregos, facilitar o duro trabalho do ensino em todos os patamares pedagógicos, nivelar desníveis intelectuais e (in)competências técnicas, fomentar tolerância pública, incentivar o consumo das massas, barateá-lo (e, claro, barateá-las…) ? Creio que devem ser as duas coisas, e as duas sendo uma só, com o detalhe de que o processo nasce de decisões políticas que alteram as formas mercantilizadas da vida produtiva sem, é claro, tematizar suas origens : medos, frustrações, pulsões, traumas, recalques, fugas, racionalizações, paixões, intenções… O problema, penso, é que quando se tem dinheiro em jogo instrumentalizam-se até nossos pesadelos. Nesse cenário, o que me entristece é saber que colegas meus servem ao propósito de mapear, para os agentes do mercado, os caminhos da manipulação do afeto.</p>
<p>Isso é apenas o que me entristece. O que mais me assusta é outra coisa. Todas estas minhas quase-reflexões ocorrem quando a chamada inteligência artificial ainda não produziu uma parte por milhão do que ainda fará conosco. Só pra introduzir a conversa, que espero desenvolver com você noutro dia : há alguns meses, a Meta, dona do facebook, produziu um experimento fascinante, justapondo dois computadores animados com IAs de origens diferentes para conversar via chatbots. Em tese, um pc não sabia da existência do outro, não desconfiava de que conversava com outro computador. As entradas de texto não estavam conectadas entre si por cabo. Os computadores não faziam parte de nenhuma intranet, ou seja, um não tinha acesso ao PIN do outro, nem faziam parte de uma mesma rede wifi. E a conversa se iniciou então, com um computador, num lugar, perguntando qualquer coisa ao outro, noutro lugar, tal como um consumidor faria ao teclar uma mensagem a uma loja ou a um banco, p.ex.  Adivinhe o que aconteceu ! Em menos de um minuto, essas IAs de origens diferentes se reconheceram como tais e passaram a trocar mensagens segundo códigos e metalinguagens próprios, que elas elaboraram na hora, mantendo, pois, os observadores humanos do experimento absolutamente fora da « conversa ». Assombrados com o fato, os engenheiros da Meta, que não conseguiram traduzir ou entender o conteúdo aquela troca de mensagens, desligaram os computadores, e até agora se perguntam o que é que aconteceu ali. Um comunicado oficial, tímido e curto, destinado à comunidade de cientistas da computação que acompanharam o experimento, mencionou apenas que os resultados deveriam se explicar por alguma falha. O que não apagou aquilo que uma centena de observadores presenciou : as máquinas se comunicavam entre si, sem repetir frases ou termos técnicos conhecidos, sem repetir mensagens, sem entrar em loop (o que caracterizaria um bug presente no sistema), sem que vírus ou outras intercorrências possíveis interferissem no experimento. Sinceramente, quando ouvi a história da boca de um neurocientista norte-americano que conheço aqui na McGill, um arrepio me passou pela espinha. Meu marido (o redfox que você conhece daqui) me disse que já está se sentindo na história do The terminator, aquele filminho em que o Schwarzenegger faz o ciborgue que quer acabar com a gente a todo custo. E você, minha cara, o que pensa disso ? Não quero tirar teu sono, mas o meu piorou um pouco depois dessa historinha !</p>
<p>Um forte abraço,<br />
(Desculpe pelo tamanho disto aqui !)</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: myrthes suplicy vieira		</title>
		<link>https://www.chumbogordo.com.br/456382-djin-djan-tchn-por-myrthes-suplicy-vieira/#comment-115516</link>

		<dc:creator><![CDATA[myrthes suplicy vieira]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 May 2025 12:35:51 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://www.chumbogordo.com.br/?p=456382#comment-115516</guid>

					<description><![CDATA[Carla, acredite, o prazer e a capacidade de aprender uma com a outra seriam todos meus, caso fosse possível nos falarmos por e-mail, com ou sem terapia à distância.
Aqui no Brasil, as crianças do ensino fundamental são incentivadas a chamar seus professores de &quot;tio&quot; e &quot;tia&quot;, talvez como tentativa de forçar uma intimidade que está muitas vezes longe de acontecer naturalmente.
Eu acho que essa pretensa facilitação da linguagem é bem mais do que esterilização, é um projeto vinculado ao desestímulo do pensamento crítico. Li recentemente um artigo sobre esse tema que mostrava que, além da simplificação de palavras/expressões, hoje em dia não há compreensão (e, consequentemente, não uso) de tempos verbais.  Destaco o seguinte trecho: &quot;Menos palavras e menos verbos conjugados implicam menos capacidade para expressar emoções e menos possibilidades de elaborar um pensamento&quot;. O autor é Christophe Clavé - que, se não me engano, é canadense. Tente localizar o texto dele, acho que você vai gostar.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Carla, acredite, o prazer e a capacidade de aprender uma com a outra seriam todos meus, caso fosse possível nos falarmos por e-mail, com ou sem terapia à distância.<br />
Aqui no Brasil, as crianças do ensino fundamental são incentivadas a chamar seus professores de &#8220;tio&#8221; e &#8220;tia&#8221;, talvez como tentativa de forçar uma intimidade que está muitas vezes longe de acontecer naturalmente.<br />
Eu acho que essa pretensa facilitação da linguagem é bem mais do que esterilização, é um projeto vinculado ao desestímulo do pensamento crítico. Li recentemente um artigo sobre esse tema que mostrava que, além da simplificação de palavras/expressões, hoje em dia não há compreensão (e, consequentemente, não uso) de tempos verbais.  Destaco o seguinte trecho: &#8220;Menos palavras e menos verbos conjugados implicam menos capacidade para expressar emoções e menos possibilidades de elaborar um pensamento&#8221;. O autor é Christophe Clavé &#8211; que, se não me engano, é canadense. Tente localizar o texto dele, acho que você vai gostar.</p>
]]></content:encoded>
		
			</item>
		<item>
		<title>
		Por: Carla		</title>
		<link>https://www.chumbogordo.com.br/456382-djin-djan-tchn-por-myrthes-suplicy-vieira/#comment-115477</link>

		<dc:creator><![CDATA[Carla]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 May 2025 01:24:30 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">https://www.chumbogordo.com.br/?p=456382#comment-115477</guid>

					<description><![CDATA[Cara Myrthes. Pela distância, não posso me oferecer para te ouvir, mas, se pudesse, e meu trabalho de pesquisa não me tomasse o tempo que toma, faria isso com imenso prazer, na certeza de que aprenderia muito com você. Acho absurdo alguém não ter atendimento psicanalítico por causa de dinheiro. Se você morasse aqui, demoraria um pouco, mas não teria esse problema. Talvez até fosse atendida em casa (apesar do pastel de vento que temos por primeiro ministro ter sucateado a área do atendimento domiciliar de saúde na província). Em todo caso, seria muito gratificante para mim poder trocar palavras com você por email, por exemplo, se soubesse como te dizer aqui meu endereço sem correr o risco de ver gente não convidada participar da conversa. Gosto de conversar com quem tem interesses parecidos com os meus.

No mais, penso que « ensino a distância » - incabível sem crase ! - pode ter ainda uma outra interpretação, além das citadas por você. Ensino a distância (como ensino a criança, por exemplo) : aqui, distância é quem, ou aquilo, que aprende. Não é só você que estranha essa forma sem crase. Li teu artigo ao lado de meu marido, e ele comentou algo sobre isso. A eliminação dessa crase, diz ele, constitui um desses inúmeros casos em que, para facilitar o uso aos que não estudam, ou estudam mal (simplificando a vida de professores super exigidos e sub pagos), e igualmente para discriminar menos os que erram (permitindo que permaneçam na universidade), simplifica-se tanto o objeto a ser estudado que isso acaba por destrui-lo. Meu marido, que, como professor, viveu muito mais tempo que eu no ambiente acadêmico, me diz que esse afrouxamento de regras e normas (não apenas no ensino da língua) já se tornou regra ali. Sinal destes tempos em que a « desafalbetização », mesmo na universidade, já é fato consumado. É pior no Brasil, eu sei, mas pode crer que aqui também acontece. Exemplo disso, nas escolas primárias e secundárias daqui, é o agora tornado obrigatório, para os estudantes, uso da segunda pessoa do plural (vous) quando falam a professores. Essa medida do governo provincial destina-se a um ambiente em que estudantes de todas as idades já usam apenas a segunda do singular (tu) para tratar professores nas escolas. É impressionante, pois há dez anos não era assim. Piorou muito com o tempo. Parece que o mundo moderno, custe o que custar (do ponto de vista de governos e elites intelectuais que os habitam), precisa ser ultra simplificado, esterilizado, o que também o torna, por isso mesmo, um pouco mais estúpido - como « ensino a distância » sem crase e « para » sem acento agudo bem o demonstram. E não é só no português, não. No francês isso também acontece.

Seria esse o admirável mundo novo a que Huxley se referia, agora um pouco piorado, onde o « soma » já não se encontra apenas na massificação de ansiolíticos e tricíclicos, mas também na existência de regras que desregram, leis que legislam suas próprias inaplicações ? Sinceramente, o mundo antigo me parece melhor. Aquele pelo menos não eliminava crases, tremas e acentos como quem mata moscas nos intoxicando com o inseticida. Admirável Mundo Novo alertava sobre totalitarismos. O que temos hoje silencia as regras do alerta.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Cara Myrthes. Pela distância, não posso me oferecer para te ouvir, mas, se pudesse, e meu trabalho de pesquisa não me tomasse o tempo que toma, faria isso com imenso prazer, na certeza de que aprenderia muito com você. Acho absurdo alguém não ter atendimento psicanalítico por causa de dinheiro. Se você morasse aqui, demoraria um pouco, mas não teria esse problema. Talvez até fosse atendida em casa (apesar do pastel de vento que temos por primeiro ministro ter sucateado a área do atendimento domiciliar de saúde na província). Em todo caso, seria muito gratificante para mim poder trocar palavras com você por email, por exemplo, se soubesse como te dizer aqui meu endereço sem correr o risco de ver gente não convidada participar da conversa. Gosto de conversar com quem tem interesses parecidos com os meus.</p>
<p>No mais, penso que « ensino a distância » &#8211; incabível sem crase ! &#8211; pode ter ainda uma outra interpretação, além das citadas por você. Ensino a distância (como ensino a criança, por exemplo) : aqui, distância é quem, ou aquilo, que aprende. Não é só você que estranha essa forma sem crase. Li teu artigo ao lado de meu marido, e ele comentou algo sobre isso. A eliminação dessa crase, diz ele, constitui um desses inúmeros casos em que, para facilitar o uso aos que não estudam, ou estudam mal (simplificando a vida de professores super exigidos e sub pagos), e igualmente para discriminar menos os que erram (permitindo que permaneçam na universidade), simplifica-se tanto o objeto a ser estudado que isso acaba por destrui-lo. Meu marido, que, como professor, viveu muito mais tempo que eu no ambiente acadêmico, me diz que esse afrouxamento de regras e normas (não apenas no ensino da língua) já se tornou regra ali. Sinal destes tempos em que a « desafalbetização », mesmo na universidade, já é fato consumado. É pior no Brasil, eu sei, mas pode crer que aqui também acontece. Exemplo disso, nas escolas primárias e secundárias daqui, é o agora tornado obrigatório, para os estudantes, uso da segunda pessoa do plural (vous) quando falam a professores. Essa medida do governo provincial destina-se a um ambiente em que estudantes de todas as idades já usam apenas a segunda do singular (tu) para tratar professores nas escolas. É impressionante, pois há dez anos não era assim. Piorou muito com o tempo. Parece que o mundo moderno, custe o que custar (do ponto de vista de governos e elites intelectuais que os habitam), precisa ser ultra simplificado, esterilizado, o que também o torna, por isso mesmo, um pouco mais estúpido &#8211; como « ensino a distância » sem crase e « para » sem acento agudo bem o demonstram. E não é só no português, não. No francês isso também acontece.</p>
<p>Seria esse o admirável mundo novo a que Huxley se referia, agora um pouco piorado, onde o « soma » já não se encontra apenas na massificação de ansiolíticos e tricíclicos, mas também na existência de regras que desregram, leis que legislam suas próprias inaplicações ? Sinceramente, o mundo antigo me parece melhor. Aquele pelo menos não eliminava crases, tremas e acentos como quem mata moscas nos intoxicando com o inseticida. Admirável Mundo Novo alertava sobre totalitarismos. O que temos hoje silencia as regras do alerta.</p>
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