Os homens são movidos pelo testosterona. Por Aylê-Salassié F. Quintão
Desaparecimento de países
É surpreendente ver como esses organismos, criados consensualmente entre nações, não conseguiram interromper o espírito belicista ativo de alguns dirigentes mundiais que, em fóruns internacionais, sempre aprovavam as regras para a tal paz duradoura kantiana. Mas, internamente, ao retomar o poder em seus países, acendiam novos pavios…

Acabo de ter acesso a uma bela pesquisa produzido pelo arquiteto norueguês Bjorn Berge, intitulada “LUGAR NENHUM – um atlas de países que deixaram de existir” (2021). A inspiração para a leitura veio do encontro em Anchorage, no Alaska – que já pertenceu à Rússia – dos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Vladimir Putin, da Rússia. O propósito era encontrar uma maneira de terminar a guerra com a Ucrânia, invadida pela Rússia para, explicitamente, anexar 20% do seu território ucraniano.
Essa reunião seria seguida de outra entre Trump com Volodymyr Zelenski, Presidente da Ucrânia, que desembarcaria nos EUA como um perdedor. Os europeus foram convidados para testemunhar a derrota da Ucrânia. Dificilmente isso vai acontecer assim.
Embora, no final do encontro Trump x Putin, se tenha dito que “não haverá acordo, enquanto não houver um acordo”, informações vazadas dão conta de que a conclusão da reunião é a de que os ucranianos, deveriam entregar aos invasores toda a região oriental de Donestsk, na divisa com a Rússia, representada pelo território de quatro grandes províncias que, supostamente deveria deixar de existir como tal. Quer dizer que, pelo menos 20 milhões de cidadãos ucranianos passariam a ter cidadania russa.
A leitura do pesquisador norueguês sobre o desaparecimento de países e regiões geopolíticas atenua um pouco qualquer surpresa. De 1840 a 1975, informa Berge, apareceram e desapareceram no mundo 50 países. Todos eles foram submetidos a invasões territoriais, acordos sinistros ou enigmáticos como os que deram fim a Rússia do Sul, Trieste, Manchuko, Biafra, Bopal e outros até na América Latina: Boiacá, Iquique, Terra do Fogo, Corrientes, Zona do Canal, e inclusive o Acre, no Brasil. Teve país que durou um mês. Berge documentou a existência desses países, a partir, sobretudo, de selos de correio, cunhagem de moedas, carimbos, papeis impressos com os nomes oficiais, reconhecidos ou não, porque foram apagados do mapa e da história.
O desaparecimento desses Estados não seria grande novidade, porque o colonialismo europeu, que se espalhou pelo mundo, começou a sofrer sucessivos retrocessos, desde a metade do século passado, diante das lutas de independências regionais. As duas guerras mundiais – 1914 e 1940 – moveram também fronteiras, extinguiram e criaram novos países no próprio território europeu. O pós-guerra gerou, em contrapartida, organismos internacionais tipo Organização das Nações Unidas, Tribunais Internacionais de Justiça, Organização Mundial do Comércio, Mercados comuns na Europa, na Ásia, na América; enfim, desencadeou uma estratégia para alcançar a paz e manter a boa vizinhança entre países e nações no mundo.
É surpreendente ver como esses organismos, criados consensualmente entre nações, não conseguiram interromper o espírito belicista ativo de alguns dirigentes mundiais que, em fóruns internacionais, sempre aprovavam as regras para a tal paz duradoura kantiana. Mas, internamente, ao retomar o poder em seus países, acendiam novos pavios, detonando conflitos com países irmãos, como a Ucrânia e a Rússia, que chegou a ameaças nucleares. Esse cenário, conduzido monocraticamente, tem contribuído para o enfraquecimento da legitimidade daquelas organizações, de acordos e tratados mediadores das diferenças e das desigualdades políticas ou econômicas.
Os protagonistas monocráticos desse cenário defendem descaradamente uma reorganização geopolítica no Planeta, seguidos ludicamente pela intelectualidade que ampara essas decisões de intempestivos de governantes argumentando com a ação das ideologias radicais antagônicas fomentadoras dos ódios, os interesses econômicos competitivos e ainda à ganância por recursos naturais estratégicos em territórios contíguos. As competições entre países acompanhadas de ameaças autolegitimadas ganharam tal escala que o presidente dos EUA optou por induzir os países europeus, seus aliados, a elevarem os gastos militares.
O encontro de chefes de Estado em conflito para acabar com as guerras ou os horrores delas decorrentes parecem, entretanto, não avançar por uma razão única: a Rússia – um país que vive de guerras há séculos – entende que a Ucrânia não tem direito de existir como país, assim como o Irã prega abertamente a extinção dos Estado de Israel. Um entende que o ucraniano é russo; o outro acha que os judeus são apátridas. Ou seja, são habitantes de “lugar nenhum”, o que compreende não serem reconhecidos como povo, não ter leis, não ter língua comum, em que pese juntos reunirem juntos quase 80 milhões de cidadãos. E assim os agressores contam e recontam sua versão da História desses povos.
Claramente, Putin dá mostras de pretender estender seu poder, por meio de títeres, por todo o território da Ucrânia, não poupando também os demais vizinhos. Essa ameaça não confessa paira, entretanto, até mesmo sobre a Europa. Depois das ações russas contra vizinhos, os países fronteiriços passaram a investir mais no apoio aos seus exércitos e a estocar tecnologias armamentistas e altamente destrutivas, colocando o mundo em perigo.
Ora, uma Nação é um estado de espírito solidário e comum entre indivíduos que se reconhecem naquele cenário identitariamente com direitos e obrigações iguais. Montesquieu sempre lembrava que “Se soubesse de algo que fosse útil a minha família e não fosse à minha pátria, procurava esquecer. Se soubesse de alguma coisa que fosse útil à minha nação e danosa a outra não proporia, porque sou humano antes de ser patriota“.
O espírito de uma Nação está assentado na comunhão de interesses, nas mesmas crenças, em geral uma língua, obediência às mesmas leis, usos e costumes similares, mesma terra de origem. Reunindo esses três sujeitos – sociedade, Estado e Nação – está aí o corpo da Pátria. Representando a Nação, o Estado age em nome da sociedade. Seria verdade, se os governos, erigindo sonhos, não blefassem: “Make América great Again“, “Nós Podemos“, “Vamos acabar com os marajás”, “Luta em defesa da democracia“, “Combate o Imperialismo, ao ….Comunismo“, “Vamos acabar com a pobreza“. São blefes que tratam de questões estruturais, que não se resolvem no grito, nem com acordos secretos.
Depois de estudar esses países criados e desaparecidos, Berge conclui que, no fundo, os homens são “escravos do testosterona”. Procuram satisfazer seus caprichos pessoais, e assim promovem conquistas de povos e guerras de expansão. Não importa quão bárbaros sejam seus métodos, os milhares de lares destruídos, os filhos que ficam sem pais ou mães, populações inteiras expulsas das terras onde têm fincadas suas raízes humanas.
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