Viajar, no luxo e na emoção. Por Antonio Contente
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O drama começou quando, altas horas, com todo mundo dormindo, acordei com vontade de fazer xixi. Tentei, claro, sair, mas sem chances, por motivos óbvios. Como, naturalmente, o problema se agravava e eu não poderia, como se dizia antigamente, “verter água” no chão do meu exíguo aposento, avistei, no lusco-fusco propiciado por lanterna de pilhas fracas, um copo vazio…
Minha especial amiga Sônia Junqueira, depois que se aposentou da UniUnicampcamp, fez uma viagem de sonhos pelo Canadá, onde mora uma de suas filhas. Tudo que viu a marcou profundamente, mas nada como certo cruzeiro que fez, num iate de luxo, pelas águas de um dos lagos belíssimos que por lá existem. E eu pensava exatamente nisso, faz uns meses, a comparar os confortos que nossa viajante experimentou num flutuante do Primeiro Mundo, com o álgido sufoco que então vivi. É que, na ocasião, encontrava-me à bordo de uma navio a subir o rio Tocantins, na Amazônia Profunda. Experiência nada comparável, mas nem por isso menos enriquecedora, do que a que encantou nossa doce Soninha.
O gaiola no qual eu estava chamava-se “Pedro Verde”, e eu ocupava um exíguo camarote. Só que, à noite, nas embarcações que cruzam os rios da Amazônia, os passageiros armam redes por todo lado. Bem diante da minha porta, por exemplo, várias tolhiam as possibilidades de meus movimentos para o lado de fora. E no passadiço inteiro redes se espalhavam. O drama começou quando, altas horas, com todo mundo dormindo, acordei com vontade de fazer xixi. Tentei, claro, sair, mas sem chances, por motivos óbvios. Como, naturalmente, o problema se agravava e eu não poderia, como se dizia antigamente, “verter água” no chão do meu exíguo aposento, avistei, no lusco-fusco propiciado por lanterna de pilhas fracas, um copo vazio de água mineral. Foi minha salvação, pois, à prestações, ia enchendo a coisa e, sob a rede que me tolhia, jogava o líquido por baixo da amurada. Se alguma satisfação espiritual experimentei, foi verificar, na nesga de céu, que ele estava absurdamente crivado de estrelas. E que a silhueta da floresta, no meio da escuridão, parece que chamava a embarcação a entrar nas suas entranhas encantadas.
Bom, mais tarde redescubro que não há desconforto que resista ao estranho fascínio de amanhecer navegando no Tocantins. Pois, com a mesma força nada mágica com que se formara, o problema do xixi noturno sumira. Ali está você completamente livre para fazer isso quando bem entender, ganhando, como crédito, a paisagem deslumbrante que é constante em todos os rios da Amazônia.
Agora, dia feito, você redescobre que nestas excursões certamente encontrará todos os tipos humanos que sua fértil imaginação seria capaz de criar. Desde bêbados históricos a jogadores profissionais de cartas, padres e pastores ou missionários em busca d’almas para salvar, caçadores de fortunas, enfim, há de tudo. Isso sem falar de prostitutas em plena ação, viajantes de firmas, pescadores, marreteiros, músicos e até passageiros simplesmente, como eu, criaturas que exercitam o sagrado direito constitucional de ir e vir.
Em anos e anos de viagens por esta região, torno a verificar a facilidade com que as criaturas chegam perto de você em busca de um dedo de prosa. Na maioria são pessoas de outros Estados que hoje migram em abundância para o extremo Norte.
— Vai para Tucuruí? — Me fuzila um senhor de seus 50 anos, com sotaque gaúcho.
— Não, desembarco bem antes…
— Baião? – Ele arrisca.
— Um pouco pra cá – faço suspense de propósito.
— Cametá?
— Daí já passamos, é um pouco pra lá.
— Vila do Carmo! – O rosto do camarada chega a se iluminar.
Percebendo que não conseguiria escapar, entreguei os pontos:
— Mocajuba.
— Ora, ora – ele se ajeita sobre um saco de arroz que lhe servia de assento – o senhor deve ser plantador.
— Eu plantador? De que?
— De pimenta-do-reino. É abundante lá.
Respondi que nunca sequer vira um pé da planta, e o cara se volta para minha barba. Por isso acha que eu poderia ser médico; como nego, arrisca a advocacia. Depois, até padre avaliou que eu poderia ser. Nesse instante, é que resolvo fazer contra-ataque perguntando ao gaúcho se ele viajava sempre rio acima. Responde que pelo menos duas vezes por mês. Daí junto as mãos e murmuro:
— Ótimo. Se você me responder um troço te digo o que sou e o que estou fazendo aqui.
O fulano me olha meio desconfiado, mas por fim capitula:
— Muito bem, o que o amigo quer saber?
— Algo bastante simples – modulo a voz – nessas viagens, com o monte de redes atadas à noite por todo lado a ponto de não se poder sair dos camarotes, como é que você se vira para fazer xixi?
O sujeito coçou a cabeça e me pareceu cair em sincera perplexidade. Ao final, sopra:
— Santo Deus, rapaz, estou na Amazônia desde antes do começo das obras da hidrelétrica de Tucuruí. Mas você sabe que nunca antes pensei nisso?
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
