Outra semente no balcão. Por Antonio Contente
… Ela conta, com a linda letra redondinha que semanas após ler meu texto também encontrou grão jogado sobre um balcão de armazém, talvez o mesmo, da Vila Industrial. Pegou-o sabendo que se tratava de milho e levou para casa. Iria plantar.

Quando nem se sonhava com Internet, nós, colunistas de jornal, ocasionalmente recebíamos cartas dos leitores. Raras broncas, diga-se, a maioria comentando de forma até agradável o que colocávamos na folha impressa. Assim, foi com inumerável surpresa que, faz algum tempo, já na atual era cibernética, recebi de, como se dizia antigamente, simpática leitora, uma carta. Chegou pelo Correio, selada, envelopada, bonitinha. Confesso que não abri imediatamente. Olhei bem, examinei, revirei entre os dedos, quase cheirei para adivinhar algum perfume. Quem sabe a missiva poderia ser de alguém que, por recôndito motivo, poderia ter espargido sobre o papel duas ou três gotinhas do meu predileto Chanel Número 5.
Bom, finalmente abri, e era uma carta tradicional, normal, escrita com letras redondinhas, de mulher, assinada por Renata. Tratava-se de mensagem absolutamente emocionante. É que a moça recordava um texto que fiz há muitos anos, logo que comecei a colaborar com este hoje quase centenário jornal Correio Popular, de Campinas. Na crônica eu contava a história de um sujeito que, tendo entrado numa das antigas vendas de secos & molhados com balcão de pedra branca, na Vila Industrial, encostou para um aperitivo antes do almoço. De repente avistou, escondida numa fenda, uma semente. Que imediatamente identificou como sendo de feijão. Discretamente enfiou no bolso tomado ali mesmo pelo desejo de plantá-la. O que de fato fez ao chegar em casa, um mínimo apartamento de homem solteiro na Vila Teixeira. A surpresa o fulano teve dias depois quando, devidamente brotada num velho vaso, a semente começou a se transformar numa planta: não se tratava de feijão, sim de milho.
Pois bem, agora volto à carta de Renata. Ela conta, com a linda letra redondinha que semanas após ler meu texto também encontrou grão jogado sobre um balcão de armazém, talvez o mesmo, da Vila Industrial. Pegou-o sabendo que se tratava de milho e levou para casa. Iria plantar.
Na continuação a moça narra que, ao contrário do personagem da minha crônica, morava numa residência térrea na mesma Vila Teixeira, em rua com nome de passarinho; e possuía quintal. Primeiro enterrou, com extremo cuidado, a semente em adubada terra que colocou numa lata vazia de leite em pó. Esperou os dias regulamentares e, finalmente, viu o cerealzinho brotar. Experimentou, então, alegria que só cresceu à medida que a plantinha também crescia.
Dou a palavra à Renata: “No dia em que as espigas brotaram, o meu milho já estava devidamente plantado à sombra de uma jabuticabeira, no quintal. Acredite que, em certas manhãs de domingo, colocava cadeira de balanço à frente da planta para fazer minhas orações e ler a Bíblia. Lembro que certa vez meu marido chegou a reclamar afirmando que eu cuidava mais do milhozinho do que dele”…
Só lá pelo meio da carta Renata conta que possuía pequena chácara nas proximidades de Arcadas, não muito longe da bela Amparo. E foi exatamente para lá que levou as espigas que, no tempo certo, colhera no quintal da Vila Teixeira.
Agora sim a improvisada agricultora contou com a ajuda de Paulo, o marido. Fizeram juntos a semeadura de cada grão descendente do achado sobre o balcão da Vila Industrial, com a nítida certeza de que todos brotariam. O que de fato, graças ao carinho dos semeadores e a generosidade da terra bem cuidada, efetivamente aconteceu.
O mais importante, contudo, vem agora, pois Renata, em sua cartinha, finalmente narra que nos vários anos que decorreram entre o plantar da primeira semente e os dias de hoje, tornou-se dona não de um enorme, sim de um respeitável milharal.
“Já vendemos duas safrinhas pro dono da venda – narra – o que francamente atribuo à sua crônica saída no Correio Popular”.
No final é que está a melhor parte que, infelizmente, devido à minha vida relativamente nômade, ainda não pude cumprir. Renata e Paulo me convidam para ir à chacrinha curtir uma bela canjica. Confesso que está nos meus planos fazer isso brevemente. Todavia, enquanto espero o momento certo, sempre que posso vou à Vila Industrial e ao velho armazém com balcão de pedra, que resiste. Na semana passada encostei, pedi uma pinguinha e fiquei atento na tentativa de avistar algum bago de milho. Como não tive sucesso, ao sair subtraí um, apenas um, do enorme saco aberto junto a uns rolos de arame farpado. Algo me diz que, na pior das hipóteses, de tal grão vai sair, em algum momento, quem sabe uma história. Que até poderá agradar. Bom dia.
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
