A GENTE NUNCA SABE

A gente nunca sabe. Por Antonio Contente

A gente nunca sabe … Parando de contar sua exótica saga na minha sala, o amigo aponta para o maço que eu pretendia rasgar, algo que comprara há tempos para depois jogar numa pasta que ficou sem uso…

GENTE

         Ele apareceu em minha casa num sábado. Exatamente quando, com gavetas fora dos móveis e caixas ao redor de mim, mexia em alfarrábios d’antanho. É que resolvera descartar coisas antigas, papéis, anotações, cartas, fotos, enfim, os guardados que sempre se imagina que podem servir para alguma coisa mas que, na verdade, em geral não servem para nada; a não ser entulhar escaninhos, prateleiras, desvãos etc. O meu amigo entrou, sentou, se serviu dum uisquinho enquanto eu ia rasgando, rasgando. De repente, quando peguei aquilo, dando detalhes ao visitante do que se tratava, ele observou, baixando o copo:

         — Olha, mesmo assim, se eu fosse você, não rasgava…

         Ante minha cara de paisagem após o comentário, tornou a pegar o copo. Após novo gole, suspirou:

         — Só rasga depois de ouvir a história que vou te contar…

         Narrou então que, há tempos, costumava frequentar famoso boteco — que nem existe mais — na Praça Bento Quirino, aberto diariamente até alta madrugada. Conhecia muitas das garotas, de programa ou não, que costumavam aboletar-se no local. Sheila (nome de guerra), uma delas, mulata até vistosa, era o seu papo predileto. Falavam, falavam, derrubavam drinques e, depois, cada um tomava seu rumo. Um dia, porém…

         Vai ver deve ter sido pelo excesso de vodcas. O fato é que meu amigo, solteiro então e já se aprumando como o esplêndido advogado de hoje em dia, acordou em seu apartamentinho nas imediações da Barreto Leme com Sheila dormindo ao seu lado. Como tinha que ir trabalhar, levantou com cuidado, se aprontou e redigiu um bilhete: “Aí está algum pro seu táxi. Deixe a chave com o porteiro”.

         Voltou ao cair da tarde, porém a chave não estava onde pedira que a moça deixasse. O funcionário argumentou que houvera troca de turno, quem sabe a pessoa largara a gazua com o outro. Mesmo assim nosso herói subiu e, por via das dúvidas, bateu na porta. E nem demorou para ser atendido pela guria.

         — – perguntou – o que foi que houve?

         Balançando no ar a nota do que seria hoje algo como 100 reais, ela indaga, com cada palavra encharcada de ironia:

         — Então você acha que eu faço programa por essa mixaria?

         Bom, foi o começo. Meu amigo a duras penas conseguiu arrancar da carteira mais algumas notas, porém a outrora simpática guria das horas noturnas partiu para os gritos. Subitamente apavorado, ele pediu:

         — Espera aí, espera aí, vou ver o que consigo arranjar por aqui.

         A fulana sentou, batendo o pé na espera. Foi quando o rapaz ergueu os braços, rosto iluminado:

         — Já sei, já sei, me desculpa, vou te dar algo de valor que tenho ali.

         Isso feito abriu o guarda roupa, enfiou a mão num escaninho sob as tábuas, retirou algo e entregou para mulher. Que sorriu, ao ver a maçaroca:

         — Ah, isso sim, agora estamos falando a mesma língua…

         Parando de contar sua exótica saga na minha sala, o amigo aponta para o maço que eu pretendia rasgar, algo que comprara há tempos para depois jogar numa pasta que ficou sem uso a dormir na parte de cima do armário embutido.

         — Pois é, o que me salvou naquela tarde da mulher furiosa foi um punhado de dólares falsos que também comprei naqueles anos. Quanto tem aí?

         —- Quase dois mil.

         — Guarda. Mesmo não havendo o menor risco de você ainda sair para aventuras noturnas, a gente, afinal de contas, nunca sabe, não é?

         Peguei o maço, olhei, enfiei no lugar de onde o tirara. E até pensei que, se fossem euros, mesmo fajutos, a possibilidade de eventual serventia poderia ser ainda maior…

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

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