PERTO

Tão perto, tão longe. Por Antonio Contente

…Detalhou então que a personagem sumira da praça e essa fora a grande transformação que ocorrera no local. Daí passou para o lado de dentro do balcão e trouxe um álbum com fotos, algumas amarelecidas. Mostrou…

PERTO

Há lugares que a gente pensa que não existem mais apenas porque deixamos de procurá-los. Isso pode ser feito por muitos motivos, inclusive, paradoxalmente, porque tais sítios permanecem onde sempre estiveram, silenciosamente. Quem sabe, até, à nossa espera. Pensei nisso porque, na semana passada, estive numa pequena cidade do Sul de Minas por onde passei apenas uma vez, faz tempo. Encravada entre os elevados vales iniciais na Serra da Mantiqueira, não fica distante de Campinas mais do que hora e pouco de carro. E exatamente lá existe, espero que para sempre, um desses símbolos do belo e do bom encapsulados entre as bordas do quadrilátero que formam uma praça. E pode, amigos, existir, neste mundo, tantas coisas melhores do que pracinhas de cidadezinhas do interior?  Em que as manhãs repetem a suavidade da vida que recomeça, enquanto as tardes e noites são o aconchegante intermezzo para a volta do pulsar suave da luz que se forma a partir das sombras?

Ao redor desses locais, há pontos indispensáveis. Ali, a  igrejinha com o poupado campanário e o crucifixo. Do lado de lá, a farmácia. Em dois ou três outros ângulos, os armazenzinhos, lugares de proseio e alguma fofoca em que o aroma dos cereais nos sacos se mistura ao da carne seca nas mantas.

Mas falei em farmácia e foi seu Queiroz, o farmacêutico de um único contato na breve visita do passado, que me fez a grande revelação neste reencontro com lugar tão especial. O seu pequeno estabelecimento pertenceu ao bisavô, ao avô, ao pai, e, agora, já se encaminha para ser entregue ao filho. Comentando com o atual proprietário como era bom estar ali, um lugar pertinho de Campinas, não pude evitar de perguntar se algo mudou naquela praça nos últimos anos.

Mudou sim – Queiroz me disse com ar grave – e foi recentemente, em meados do ano passado.

Naturalmente curioso, eu quis saber detalhes. O bom homem apontou para o lado de fora:

— Está vendo aquele banco?

Sim, claro – respondi – e nem seria possível deixar de notá-lo, pois o ipê amarelo que o cobre está maravilhosamente florido.

— Pois é; naquele banco, por muitos anos, todos os dias, em certos momentos das manhãs, excluindo as chuvosas, sentava uma linda moça.

Daí seguiu contando que, em tempos passados, alguns rapazes até tentaram se aproximar dela, por ser muito linda. Porém, sempre que se acercavam algo diluía a possibilidade de um simples papo. Daí que todos acabaram por se acostumar com a jovenzinha. Que invariavelmente vinha, e, do mesmo jeito que chegava, desaparecia tomando o rumo de uma das ruas além da igreja. Rotina que se prolongou durante mais de 60 anos.

Bom – interrompi – está claro que ela envelheceu no banco…

— Aí é que você se engana – Queiroz voltou a coçar a ponta do nariz – seu aspecto sempre foi o de alguém com, no máximo, 18 anos.

Nessa altura do papo, como eu mandara apanhar no bar da esquina algumas cachacinhas, passei a ter certeza que estava diante de apenas mais uma das recorrentes lendas que pairam em certas cidades do interior. Após um gole apontei:

— Agora são 10 da manhã e a linda moça não está lá.

E nunca mais estará — o farmacêutico garantiu.

Contrariando hábitos, seu Queiroz também tomou uma talagada, antes de prosseguir. Detalhou então que a personagem sumira da praça e essa fora a grande transformação que ocorrera no local. Daí passou para o lado de dentro do balcão e trouxe um álbum com fotos, algumas amarelecidas. Mostrou:

— Está vendo esta mansão?

Sim – respondi – estou diante do que restou dela, pois o que percebo na foto são ruínas.

Queiroz seguiu contando que um dia, não poderia precisar quando, alguém seguiu a moça que se dirigiu para a casa detonada e nela entrou. Como a edificação se encontrava imprestável, sem portas, janelas e teto desabado, o curioso voltou correndo e, ofegante, contou o que vira. A narrativa, porém, morreu ali, e todos continuaram a ver a moça eternamente jovem que sentava no banco. Tornou-se uma espécie de símbolo.

— E agora ela deixou de aparecer por que?

— Um raio. Durante temporal, no ano passado, um raio caiu sobre as ruínas e ocorreu forte incêndio que reduziu a cinzas o que restara.

Como Queiroz não estava muito certo de que eu acreditara na história, quis me levar ao cemitério. Onde, num mausoléu de fins do século XIX estaria, junto à cruz, a foto da moça do banco. Filha do fazendeiro fundador da cidade, ela vítima, ainda jovenzinha, de sarampo, pouco depois de 1900.  Apesar das cachacinhas, ou, talvez, por causa delas, preferi não ir.

   __________

Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

1 thought on “Tão perto, tão longe. Por Antonio Contente

  1. Velhote.
    Li sua crônica-conto. Apreciei o conteúdo e naveguei sem balanços por essa sua forma serena.
    Você continua um amante dos lugares miúdos, onde a vida expõe a natureza ,como única forma de estar vivo.
    Conheço bem isso.
    Bem… um abraço cheio de saudade, velho reprodutor das profundezas da floresta .
    Beijos na Ceci. Essa musa estupenda, que carrega você com dignidade.

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