A lenda da invasão norte-americana à Venezuela

A lenda da invasão norte-americana à Venezuela. Por Angelo Castello Branco

… a lenda da invasão serve mais à retórica de Caracas do que a qualquer projeto militar plausível. O futuro da Venezuela não será decidido por tropas estrangeiras…

A lenda da invasão norte-americana à Venezuela
Volta e meia, ressurge a especulação sobre uma possível invasão da Venezuela pelos Estados Unidos. A hipótese, contudo, não se sustenta. Trata-se de um exercício retórico que atende mais aos interesses do regime de Nicolás Maduro e aos seus aliados vizinhos, do que à realidade estratégica norte-americana.

Uma intervenção militar de tal natureza seria, para Washington, um equívoco de grandes proporções. Experiências anteriores demonstram o alto custo material e político de ocupações em territórios estrangeiros.

Quando uma potência assume o controle de outro país, instala-se um vácuo de poder que exige a administração direta da vida civil — segurança, saúde, abastecimento, infraestrutura. Trata-se de um fardo orçamentário e moral que poucos governos estariam dispostos a carregar.

O Vietnã e o Afeganistão permanecem como advertências históricas. Bilhões de dólares foram gastos, milhares de vidas perdidas e, ao final, o resultado foi a retirada sem estabilidade ou ganhos concretos. Não parece razoável supor que os Estados Unidos desejem repetir o mesmo erro em solo latino-americano.

O discurso da invasão, contudo, cumpre função eleitoreira política. Na América Latina, regimes autoritários recorrem frequentemente à retórica do medo para justificar sua permanência no poder. Alimentam a crença de que uma ameaça externa estaria à espreita e de que somente o governo vigente seria capaz de defender a soberania nacional. É uma narrativa útil para encobrir fracassos econômicos, violações de direitos e a erosão das instituições.

Na realidade, são esses regimes — e não o inimigo imaginário — que impõem sofrimento à população. A Venezuela é um exemplo emblemático de como o autoritarismo conduz à escassez, à repressão e ao isolamento internacional.

O que se verifica no momento é o aumento da pressão diplomática e econômica dos Estados Unidos e de países da União Europeia sobre o regime de Caracas.

A saída mais sensata e desejável seria a transição pacífica, com a deposição de Nicolás Maduro e a restauração das instituições democráticas, sem o custo humano de um confronto armado. Essa alternativa seguramente interessa tanto a Washington quanto às nações livres e democráticas.

O Brasil, aliás, deu esse exemplo na década de 80 ao se livrar do regime militar para a normalidade democrática sem derramar uma gota de sangue. Naquela oportunidade, a nação brasileira dispunha de lideranças confiáveis. Tanto do lado direito quanto do lado esquerdo.

A presença de forças navais norte-americanas no Caribe, frequentemente utilizada como argumento de propaganda pelo regime venezuelano, tem natureza distinta. Visa, segundo fontes oficiais, o combate ao narcotráfico — um problema real e de dimensão transnacional.

O general Hugo Carvajal, ex-chefe de inteligência da Venezuela, deportado da Espanha para prisão nos Estados Unidos, denunciou reiteradamente, negociando a redução da sua pena, a infiltração de redes do tráfico nos altos escalões dos governos da Venezuela e da Colômbia. É um tema de segurança regional, não um prelúdio de invasão.

Em suma, a lenda da invasão serve mais à retórica de Caracas do que a qualquer projeto militar plausível. O futuro da Venezuela não será decidido por tropas estrangeiras, mas pela capacidade de seu povo de retomar o caminho da democracia, da liberdade e do desenvolvimento.

Entre candidatos, sobra ódio e faltam projetos Por Angelo Castelo Branco - Jornal do Sertão

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Angelo Castello Branco –  Jornalista. Autor de O Artífice do Entendimento – biografia do ex-vice-presidente Marco Maciel. Recifense,  advogado formado pela Universidade Católica de Pernambuco. Membro da Academia Pernambucana de Letras. Com passagens pelo Jornal do Commercio, Jornal do Brasil, Diário de Pernambuco, Folha de S. Paulo e Gazeta Mercantil, como editor, repórter e colunista de Política.

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