DIA DO LIVRO

Se a data passou, o compromisso ficou. Reabrir uma página é retomar a conversa interrompida com a consciência. Compartilhar uma frase com quem amamos é lançar uma ponte sobre o abismo cotidiano. Numa época em que a pressa tem muitos advogados, o livro é a defesa do tempo humano.

Dia do Livro

O Dia do Livro já passou. Foi em 29 de outubro, discreto como todo gesto que sustenta uma nação. Datas passam; o sentido fica. Reunimo-nos para lembrar que livro bom não cabe em efeméride: respira conosco, corrige o passo, afina o ouvido e devolve o silêncio que a pressa nos roubou. Entre a vida que corre e o parágrafo que nos espera, há uma ponte sem pedágio – basta abrir a página — e a casa se acende por dentro.

Aprendi na clínica e na vida que existem duas fomes: a do corpo, urgente; e a da alma, silenciosa. A primeira cobra pão; a segunda pede sentido. O livro não mata a fome do estômago, mas sustenta a fome do espírito. Não pisca, não grita, não promete milagres. Abre uma porta. E, quando atravessamos, reconhecemos o chão familiar: Dom Quixote nos ensina a medir o sonho com o peso do mundo; Hamlet revela o custo de pensar quando a carne vacila; Machado nos vacina contra o autoengano com uma ironia que é bisturi fino. Clarice mostra que o íntimo também é território público; Guimarães Rosa lembra que a língua é um rio — e quem bebe dessa água reaprende a nomear a própria vida.

Ler é higiene do espírito: lavar as mãos antes de tocar a realidade. Em um mundo de respostas instantâneas, o livro devolve a pergunta certa. Ensina o intervalo — esse espaço onde a reação se transforma em reflexão. Educa a discordância, treina a escuta, tira o eu do centro. Quem lê fala mais baixo e enxerga mais fundo. A leitura é um exercício de hospitalidade: cedemos o lugar à voz do outro e, nesse gesto, a casa interna se amplia. O algoritmo exige velocidade; a literatura pede presença. E presença é cuidado: com o texto, com o outro, consigo. O leitor aprende a respirar no compasso da frase, a sustentar a dúvida sem desespero, a aceitar que há dores sem atalho e alegrias que não pedem prova.

Há também a cidade do livro, que não aparece no mapa: bibliotecas, livrarias, sebos, escolas, clubes de leitura, bibliotecários que conhecem o gosto do bairro, professores que emprestam exemplar da estante, leitores que sublinham e devolvem com bilhete. Esse tecido é a infraestrutura afetiva de um país que se leva a sério. Sem ele, sobra ruído e falta norte. Defender o livro não é capricho de esteta; é política pública de saúde mental e de cidadania.

Um país que lê honra seus mortos, vigia seus vivos e educa seus filhos para a liberdade. E liberdade, ao contrário do que vendem, não é fazer tudo — é escolher melhor. Algumas práticas simples sustentam esse pacto. Ler devagar um capítulo por dia, sem multitarefa, como quem reza. Ter um caderno de citações: copiar à mão a frase que nos atravessou para que ela nos atravesse duas vezes. Ler em voz alta para uma criança, um idoso, um amigo: a oralidade cura distrações antigas. Frequentar o sebo do bairro e aceitar o acaso: o livro que nos escolhe costuma chegar antes da pergunta que sabemos formular. Organizar um pequeno círculo de leitura mensal, com café e silêncio — tanto valor tem o que se diz quanto o que se guarda. E, por fim, sublinhar uma dúvida: a interrogação é a prova de vida da inteligência.

Se a data passou, o compromisso ficou. Reabrir uma página é retomar a conversa interrompida com a consciência. Compartilhar uma frase com quem amamos é lançar uma ponte sobre o abismo cotidiano. Numa época em que a pressa tem muitos advogados, o livro é a defesa do tempo humano. Ele não nos oferece aplauso, oferece medida; não dá likes, dá léxico; não promete vitória, promete vocabulário para perder e continuar. Livro aberto, coração aberto. Que cada um de nós, hoje, se presenteie com uma hora de leitura — como quem acende uma vela num quarto escuro. A live é só a porta entreaberta: a transmissão termina, mas o bom parágrafo acompanha até o travesseiro.

Porque, no fim, é simples: quando a alma aprende a ler, o corpo agradece; e o país, sem alarde, fica um pouco mais sábio. Entre a pressa e o vazio, que prevaleça a casa do pensamento. E que, mesmo depois do 29 de outubro, continuemos dignos do que os livros pedem de nós: atenção, coragem e ternura.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.

Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

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