BELEZAS

Um esconderijo de belezas. Por Antonio Contente

        Belezas… O fascínio nas distâncias amazônicas é que elas, na maioria das vezes, se alongam sobre intermináveis cursos d’água. O que torna certas buscas de destinos o deslizar não só sobre rios com margens à vista, mas também sobre correntezas de baías que oferecem horizontes lisos, como os que se tem em alto mar.

BELEZAS

         Há, impregnado no olhar de cada pessoa, algo do que ela gostaria de ver embutido naquilo que, realmente, está diante dos seus olhos. Daí podem nascer eventuais decepções; mas, na maioria das vezes, o esperado complementa o inesperado tornando-o, eventualmente, mais fascinante. Isso ocorreu comigo certa vez quando, finalmente, fui conhecer certa ilha não muito perto daquela aonde de vez em quando me abrigo, no Delta do Rio Amazonas. O que me diziam era que, vista de longe, a pequena porção de terra cercada de água por todos os lados seria rigorosamente igual às outras que flutuam na área. O inédito estaria em certos recantos incrustados no geral como se fossem efeitos especiais colocados pelos deuses.

         O fascínio nas distâncias amazônicas é que elas, na maioria das vezes, se alongam sobre intermináveis cursos d’água. O que torna certas buscas de destinos o deslizar não só sobre rios com margens à vista, mas também sobre correntezas de baías que oferecem horizontes lisos, como os que se tem em alto mar.

         Quando escutei as primeiras histórias sobre a ilha desconhecida para mim foi absolutamente natural que perguntasse seu nome. O que me fez mais uma vez descobrir que a melhor maneira de acidentes geográficos nesta região terem nome nenhum é o fato de possuírem vários. Ilha do Velho, esta foi a primeira denominação que me deram sobre o lugar. A razão é que lá teria morado, por muitos anos, um ermitão chegado nunca se soube de onde; para, após, desaparecer sem deixar rastros. Segundo alguns teria sido encantado por uma Cobra Grande. Para outros teria se agarrado às garras de imenso pássaro que passou sobre sua cabana; sendo, então, levado por ele para os espaços infinitos.

         Ilha do Tesouro. Bom, ao me afirmarem ser esse o nome do sítio simplesmente sorri; pois na saída do imenso rio Amazonas para o Atlântico faltar algo com essa denominação certamente abalaria os fundamentos de uma região onde o mítico se confunde com a realidade. Nunca, evidentemente, alguém lá achou baú a guardar pedras e metais preciosos; porém, até hoje há quem acredite que corsários d’antanho, após saques em navios no Caribe buscaram refúgio em tal lugar para enterrar tesouros pilhados. Com, claro, a intenção de voltar depois. Regressos frustrados por eventuais naufrágios dos barcos do bucaneiros acossados por tufões, daqueles que não deixam sobreviventes. O que teria acabado por levar para as profundezas marinhas o segredo do chão no qual as moedas e barras de ouro estariam enterradas.

         Para não me alongar, aí vão outros nomes que cataloguei como sendo da porção de terra: Ilha do Lago Azul; do Jacaré Verde; da Curva do Vento; e, “last but not least”, da Praia Encantada.

         Assim foi que numa das minhas estadas por aquelas plagas arrumei pequena embarcação no jeito e, com exígua tripulação, fui, afinal, ver a ilha com desembarque. Para isso atravessamos longo trecho da Baía do Marajó e depois, através de furos, paranás e igarapés, chegamos, finalmente, ao algo misterioso local. Que, de longe, parecia ser igual aos outros. Todavia, na verdade, era, mesmo, diferente de todos.

         Desembarcamos numa pequena praia de areia bege com pedaço da floresta debruçado sobre ela. A primeira surpresa foi que logo atrás do que seria uma barreira vegetal abria-se uma espécie de bosque com imensos troncos espaçados a exibir simetria de pomar diligentemente cultivado. Súbito, o marulho. Mais alguns passos e se abriu ante nossos olhos um lago alimentado pelas águas de pelo menos dois riachos, com leitos e entorno tomado por areias brancas. Muito brancas, mais alvas do que as hemingueianas neves do Kilimanjaro. Parte cobertas por flores sobrevoadas por borboletas coloridas. Pedacinho do paraíso, como nos desenhos de Walt Disney.

         Caminhando mais para o interior vimos conjunto de blocos de pedras entre as quais corriam filetes de águas transparente, com a cor de chá mate bem fraco. Outra surpresa: vários mamoeiros carregados de frutos grandes, com os maduros bicados por pássaros. Adiante mangueiras de copas largas, floridas para a próxima safra a não ser colhida por ninguém. A conclusão lógica acabou por ser considerada: local com tantos evidentes encantos permanece inabitado apenas por estar fora de qualquer roteiro facilmente navegável do Delta; absolutamente longe de tudo.

         Por fim, depois de ter visto aquilo que poucos olhos costumam ver, sentamos na foz de um igarapé que se derramava sobre a areia da praia onde nosso barquinho estava fundeado. Foi quando, de repente, pensei nos tais tesouros enterrados pelos piratas do Caribe. E então com a luz forte da manhã batendo nas raízes salientes de secular sumaumeira, percebi, no solo, algo brilhante a refletir a claridade. Tive certeza de que se tratava de algum dobrão de ouro certamente desenterrado pela erosão de vários séculos de chuvas. Pensei em chamar a atenção das pessoas que me acompanhavam, mas calei. Afinal, caso voltasse a se espalhara história dos tesouros a ilha correria evidentes perigos. Pedi que fossemos embora, mas, antes de alcançar a embarcação, alguma coisa me induziu a ir pegar o imaginado dobrão. Corri sozinho de volta, e logo o reflexo do objeto no chão voltou a me bater nos olhos. Vou em cima, rápido, para apanhá-lo. Mas era apenas água de chuva acumulada no côncavo de uma folha seca a refletir o sol forte da manhã. Decepcionado não fiquei. Até porque foi maravilhoso imaginar que piratas como os dos filmes com Errol Flynn, Olívia de Havillad, Maureen O’Hara, Adele Mara, Patricia Medina ou Virgina Mayo andaram por ali.

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

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