boto cor de rosa homem

Um boto ao luar. Por Antonio Contente

… Já à noite, ao perceber que se abrira no céu lua imensa, tornei ao deque. Pronto, bastou que sentasse e o boto se colocou a bufar diante de mim. O que, evidentemente, me levou a concluir que ali estava um dos exemplares da espécie que costumam se transformar em moços bonitões que buscam, entre os habitantes ribeirinhos, donzelas para namorar…

boto ao luar

Acreditar apenas no que se vê certamente não é o melhor estímulo para a imaginação. Foi disso que me convenci quando vi aquele boto subir à superfície para respirar, bem à minha frente. Eu estava a gozar as luzes do crepúsculo sobre a baía, devidamente sentado no deque de madeira em frente à choupana onde, de vez em quando, me escondo no imenso Delta do Rio Amazonas. Súbito, escutei o bufar. Que se repetiu outras vezes até o instante em que me recolhi com o passar, ao longe, de silencioso bando de guarás que vão diariamente dormir nos banhados do Marajó. Ilha maior do que a Bélgica ou Holanda, e que se avista no horizonte, a leste; onde também se quebra, em ondas, o Oceano Atlântico.

Já à noite, ao perceber que se abrira no céu lua imensa, tornei ao deque. Pronto, bastou que sentasse e o boto se colocou a bufar diante de mim. O que, evidentemente, me levou a concluir que ali estava um dos exemplares da espécie que costumam se transformar em moços bonitões que buscam, entre os habitantes ribeirinhos, donzelas para namorar.

Várias vezes, envolvido pelas magias que me cercam, já os vira, de longe. Sob as luzes de outros luares apareceram jovens a vagar pela prainha ao lado do meu franciscano casebre; todos, tenho certeza, cetáceos em forma de gente. Isso do mesmo jeito que também acompanhei, sem medos, com estes olhos que a terra não há de comer, a evolução de Cobras Grandes disfarçadas em navios iluminados; constantemente em busca de pescadores incautos.

E assim ocorreu que, como gosto de aguçar minha imaginação, passei a ter certeza que logo teria, na pequena praia iluminada pela luz do céu, o boto humanizado. Desta vez, contudo, concluí que não poderia perder a oportunidade de ir conversar com o mítico personagem. Como pela vivência de nativo da Amazônia sei que tal mamífero aquático ao se tornar bípede só se apresenta com chapéu na cabeça, fiquei atento. Isso porque é no cocuruto da moleira que se encontra o buraco pelo qual respira. Orifício esse que, se detectado, denunciaria estar ali um habitante das profundezas tornado, sabe-se lá por quais sortilégios, em “homo sapiens”.

Agora preciso confessar que, para me aproximar do exótico ser, precisei ingerir algumas doses do precioso líquido das Terras Altas da Escócia que, suponho, permanece com ares ingleses. Isso feito, resoluto, á fui eu para a escadinha de madeira que leva para a porção de areia bege. Em nenhum momento imaginei que, ao me ver, o personagem se atiraria de volta às águas da baía a soltar, antes do mergulho, sibilante assobio; que, normalmente, provoca arrepios em quem o escuta, subitamente tomado por calafrios sibéricos. Segui, portanto, em direção ao rapaz que  trajava vistoso terno branco, com o inevitável chapéu na cabeça. Chegando perto levantei a mão, num “boa noite”.

         — Este é o meu domínio – ele respondeu.

         — Sim, eu sei… – Suspirei, depois de dar mais um gole na garrafinha com scotch que levei.

Diante do silêncio que agora se fez entre nós, cresceu em minha cabeça a real dimensão de quem a dominava. Tinha certeza de que um ser oriundo de universo desconhecido, muito além das percepções terrenas, talvez pudesse me responder certas perguntas que andam a assaltar inúmeros pensamentos. Por exemplo, me ocorreu inquirir quem ganhará a eleição presidencial do ano que vem. Porém, antes mesmo que lançasse a pergunta, o ser voltou a lembrar:

         — Este é o meu domínio.

E em seguida, levantando o indicador:

         — Você certamente não sabe, mas eu leio pensamentos.

         — Não, não sabia – cocei a ponta do nariz.

         — Então fique sabendo que essa sua preocupação sobre o pleito de 2026 é pura bobagem.

         —É? Por que?

         — Simplesmente porque tanto o candidato que busca se eternizar no poder como o outro que procura se livrar da cadeia para concorrer, são água da mesma pipa; valem muito menos do que o gato enterra.

Eu ia dizer algo, todavia, o ser das profundezas me interrompe:

         — Estamos em junho de 2025. Você sabia que logo mais em novembro vai se realizar em Belém uma tal de COP30 que se propõe a resolver a arapuca climática em que os próprios seres humanos colocaram a terra?

         — Sim, sei meio vagamente a respeito.

         — Pois é, eu também estarei lá.

         — Pra discutir a poluição nos mares e outros cursos d’água?

         — Não, apenas para papar algumas gringas. Pois essas cabôcas ribeirinhas daqui não estão mais aplacando meu interminável apetite sexual.

Em seguida, soltando o costumeiro sibilante assobio, se atira às águas, onde some. Deixando, pra mim, a impressão de que sabia realmente de muitas coisas. Mas que sua especialidade, mesmo, é mulher.

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

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