O Abstêmio. Por Lula Vieira
… Minha mulher teve, naquele minuto, a certeza absoluta que eu – finalmente – tinha ficado louco. Entendo a reação da moça. Ela achou que a tensão me tinha levado à ruptura definitiva: eu finalmente saíra do ar. Só um doido (ou um bufão assumido) declararia com toda pompa que tinha tomado a decisão de parar de beber e comemorava a atitude abrindo uma garrafa de vinho…
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Parei de beber. Esta foi a notícia que dei para minha mulher no nosso apartamento em Cannes, quando voltei do meu primeiro dia como jurado do Festival. Não bebo mais.
A reação de Silvana transitou entre a euforia e a estranheza. O que teria feito este cara, no seu primeiro dia como jurado, num ambiente tenso como o de um júri internacional, tomar uma decisão tão radical? O que aconteceu naquele palácio, guardado por seguranças armados, afastado do mundo, que pudesse ter alterado completamente a visão de vida desse indivíduo? Qual o trauma tão profundo que causou esta decisão tão radical?
Neste ambiente de estupor e dúvida, consciente da profundeza de minha declaração, atravessei a sala de nossa suíte, no ritmo do drama causado pela entrada melodramática, abri a geladeira e me servi de uma taça de um Pomerol que desde a manhã me esperava.
Minha mulher teve, naquele minuto, a certeza absoluta que eu – finalmente – tinha ficado louco. Entendo a reação da moça. Ela achou que a tensão me tinha levado à ruptura definitiva: eu finalmente saíra do ar. Só um doido (ou um bufão assumido) declararia com toda pompa que tinha tomado a decisão de parar de beber e comemorava a atitude abrindo uma garrafa de vinho. “Ele agora foi”, deve ter pensado Silvana, já imaginando que minha próxima providência seria sair voando pela janela, em busca do horizonte dourado do Mediterrâneo. Mulher sensata nessa hora não cria polêmica. Ganha tempo, na espera de que um mínimo de bom senso acabe florescendo.
“Lula – disse ela – como foi seu primeiro dia de júri?” Nessa altura, percebi, a pergunta era uma manobra diversionista, uma retórica, destinada apenas a ganhar tempo. O ponto crucial era a afirmação categórica da mudança de um hábito, num momento aparentemente inoportuno. Não é em Cannes que se resolve deixar de beber.
Mas me deixe contar então o meu primeiro dia como jurado. Daí vai ser possível entender tudo. Foi o seguinte: chegamos todos no Palais du Festival e fomos conduzidos a uma sala onde receberíamos o briefing de nosso trabalho, explicado pelo próprio presidente do Festival, algo assim meio deslumbrativo. Éramos uns vinte, de muitos países, de primeiro, segundo e terceiro mundo, falando inglês nos mais diversos matizes e acentos, quase todos com uma qualidade que faria Oscar Wilde morrer outra vez.
Tudo em Cannes tem a aparência de uma convenção de multinacional. Nada dá errado, todo mundo de alguma forma cumpre seu papel. Festivais e eventos se realizam todos os dias, há um know how de Ilha da Fantasia digno de respeito. No caso do Festival de Publicidade, os profissionais do Festival de Cannes são irretocáveis, desde a simpatia pessoal até o funcionamento milimétrico. Não há espaços para improvisos: as coisas acontecem na hora certa, do jeito certo.
Neste ambiente, o Presidente parece navegar em águas absolutamente conhecidas. Ele é o próprio festival, um anúncio. Simpático, profissional, carismático. No speach de abertura ele explicou o funcionamento dos trabalhos, as facilidades, os recursos tecnológicos, os horários, inclusive das refeições já que que ninguém é de ferro e, afinal, a gente estava na França. Teríamos comida como num transatlântico: o dia inteiro, com intervalos para refeições mais sérias. E o menu atenderia a qualquer gosto, hábito ou desvio de conduta. Teríamos à disposição preparações macrobióticas, vegetarianas, indianas, kosher, internacionais. Acho que havia até acarajé e pato ao tucupi. Cobras e lagartos.
Como detalhe, o chefão avisou que “evidentemente não servimos bebidas alcoólicas”, sem causar nenhuma surpresa, pois até segunda ordem a gente estava lá para julgar, não para encher a cara. Pelo menos durante o horário de trabalho. Pois foi no primeiro intervalo, no bufê, que descobrimos que poderíamos nos servir à vontade de uma sensacional seleção de vinhos. Tintos, brancos, rosê. Ué, mudaram o regulamento? Na hora do almoço, os garçons borboleteavam pelas mesas enchendo com generosidade todas as taças no mesmo tempo em que eram esvaziadas. O duro era encontrar Coca-Cola. Tinha também uns suquinhos e água Perrier para os radicais. Mas o forte mesmo era o vinho, consumido com toda alegria.
Não foi preciso muito tempo para concluirmos: para os franceses, vinho não é bebida alcoólica. Foi neste instante que eu tomei a minha decisão. Iria parar de beber. E brindei a mim mesmo com uma dose de um espetacular Borgonha.
Até que um dia fui convencido pelo meu médico que o ideal é não beber mais nada. Nem vinho. Foi no dia que nasceu minha neta e eu desejei acompanhar sua vida até a juventude. Ele falou seriamente sobre os riscos do álcool. Decidi parar de verdade, sem relativizar. Fiz as contas e descobri que, mesmo que não tomasse uma única gota até os 90 anos, nessa idade eu estaria ainda com uma média altíssima de ingestão alcoólica durante minha vida. E daí parei de vez.
Saudade? Não, ou quase nenhuma. Consigo passar a noite jogando conversa fora cantando, contando piada, reclamando da vida, como sempre fiz. Mas agora sóbrio. Me sinto um herói? Longe disso. A impressão de ser um babaca continua a mesma. Se existe uma única vantagem evidente nessa decisão abstêmia é a ausência de ressaca. E a tranquilidade de lembrar o que fiz na noite anterior. Se é que essa seja uma vantagem.
Lula Vieira – Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.
