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Urna… Ultimamente as campanhas eleitorais têm sido também campo fértil para uma multidão de vendedores de tecnologia digital. Dezenas de métodos infalíveis são oferecidos aos candidatos…

Urna

Fazer campanhas políticas já foi meu trabalho. Ganhei muito dinheiro nessa atividade. Fazia textos, fotos, mensagens, vendendo gente, vendendo ideias e ideais. Até há pouco tempo lucrava bastante divulgando candidatos para o eleitor/consumidor comprar. Passei 40 anos fazendo isso.

Nesse tempo eu aprendi uma coisa: ninguém é inteiramente racional na cabine de votação. O voto representa um sonho, uma crença. Como diria Cid Pacheco, um dos grandes filósofos da propaganda eleitoral, todo voto é uma declaração de amor travestida de racionalidade. Retirem-se deste cálculo os votos de cabresto, os votos sob ameaça que independem da decisão do eleitor. Para esses, o que vale é o tamanho e o alcance do trabuco. Retirem-se desse cálculo também os votos na descrença nos seres humanos, os votos de eleitores que vão às urnas somente para cumprir tabela.

Antigamente era possível demonstrar indignação votando em personagens de novelas, animais do zoológico ou figuras folclóricas. Cada voto no rinoceronte Cacareco, no Macaco Tião, era uma demonstração de desprezo. Hoje não é possível votar nestes estrupícios. Mas existem figuras humanas, candidatos reais, que da mesma forma simbolizam o fodase. São tão caricatos quanto bichos de zoológicos ou personagens lendários. Nesses casos, não há o que se faça, a não ser tentar mostrar o tempo todo que só pode haver esperança de futuro se cada eleitor tiver consciência do que está fazendo.

Mas ultimamente os adoidados estão ganhando até eleições majoritárias. Não darei exemplos. A performance de alguns candidatos no horário eleitoral até há pouco tempo era motivo de riso. Mas de uns tempos para cá, os toscos são maioria e o ridículo parece ser o normal.

Ninguém mais de espanta com as patacoadas dos Zé das Couves, das Maria da Quitanda e dos Mamãe Falei. Nem mesmo um Rafinha do Pau Torto ou Mané da Zona horrorizam as pessoas. Até porque, quando eleitos, suas porralouquices serão muito piores do que o exotismo dos seus nomes. Ler jornal, ouvir rádio ou assistir noticiário da TV é ficar sabendo das aventuras de nossos parlamentares, diante das quais o nome se transforma em mera traquinice infantil.

Ultimamente as campanhas eleitorais têm sido também campo fértil para uma multidão de vendedores de tecnologia digital. Dezenas de métodos infalíveis são oferecidos aos candidatos, anunciados como responsáveis pela vitória do Donald Trump ou de quem quer que seja.

Falar com um fornecedor de serviços de internet é falar com Deus. Todos, sem exceção ganharam eleições de barbada, graças ao seu conhecimento no uso da tecnologia. Mas, apesar de tudo, fazer campanha eleitoral é também um tremendo barato. A fofoca, o disse-me-disse, as alianças e desalianças lembram um pouco o Big Brother.

Quem não está preparado para conviver com o pior lado do ser humano, não deve aceitar o convite para trabalhar numa campanha eleitoral. Por outro lado, há uma verdadeira excitação na montagem de uma candidatura, na elaboração do discurso e no acompanhamento dos movimentos dos eleitores. Mas é necessário, de qualquer forma, ter em mente que nenhum profissional de marketing tem poderes suficientes para moldar um candidato e obrigá-lo a se comportar como um produto.  Todo candidato mais dia ou menos dia acaba se mostrando como ele verdadeiramente é. O personagem deve ser sempre muito próximo da realidade.

O que é possível fazer é ressaltar algumas características, dando identificação e coerência à pessoa pública. Mas são apenas valorizações ou destaques às características preexistentes. Não dá para passar 18 horas por dia fingindo ser o que não é. Quem não é do ramo acredita que seja possível construir-se um político como se monta um boneco. Nada mais falso.

Um candidato ao longo da campanha se desnuda o suficiente para destruir qualquer exagero de caracterização. Em resumo, fazer campanha política é um tremendo barato e um malabarismo na beira do abismo e sem redes. Há sempre o risco de acontecer um desastre.

Como João Goulart, que antes do início de um discurso num comício, perguntou a um assessor: “o que eu digo para esse povinho de merda?” O assessor respondeu: “pede desculpas que o microfone está ligado!” 


Lula VieiraLula Vieira –  Publicitário, escritor, jornalista, radialista, editor e professor brasileiro. É um dos publicitários mais conhecidos do Brasil, tendo sido escolhido como Publicitário do Ano pela Associação Brasileira de Propaganda e pelo Prêmio Colunistas como “Profissional do Ano” por 6 vezes. Recebeu mais de 300 prêmios de propaganda, entre eles Festival de Cannes e Profissionais do Ano da Rede Globo.

 

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