Pegue uma tarde d’outono. Por Antonio Contente
…Há, nas tardes d’outono, sempre, um plátano. Olhe em volta e passe a ter certeza de, caso não o encontre no real, ele logo, fatalmente, surgirá no imaginário. É, para mim, a árvore símbolo da estação por ser aquela que, aos primeiros ventos que podem ainda nem ser frios, deixa que as folhas caiam…

Pegue uma tarde desta solene estação na qual entramos, amigo, e faça, dela, invólucro; não para a resolução dos seus sonhos, sim para o amaciar dos prolongamentos. Pegue uma tarde para que, no navegar das horas, você possa ir sim; porém para que, sobretudo, possa, em alguns cruciais instantes, voltar. Não à recordação simples, que corre o risco de desandar em lamento; sim à que aperfeiçoa o presente, e amacia possibilidades pro futuro.
É nas tardes, afinal, que cabem todas as possibilidades. Pois nelas você pode construir inumeráveis aconchegos, ou derramar necessárias separações. Deixe que a claridade, normalmente tão meiga nesta época, te tome. Perceba, assim, como as luzes que passam sobre folhas e galhos exalam certas nuances de apaziguamentos.
Se quiser, amigo, escolha, dentro de você, um tema para o seu navegar. Lembre, quem sabe?, da menina de curtos cabelos e olhos de intenso castanho de quase crepúsculo com quem, de mãos dadas, passeou em outras tardes de distantes outonos. Ouça, novamente, então, as canções doadas. Pelo aroma de talco que vinha do colo alvo, ou pelo sorriso que é o que esculpe a sinceridade do rosto. E do afeto.
Há, nas tardes d’outono, sempre, um plátano. Olhe em volta e passe a ter certeza de, caso não o encontre no real, ele logo, fatalmente, surgirá no imaginário. É, para mim, a árvore símbolo da estação por ser aquela que, aos primeiros ventos que podem ainda nem ser frios, deixa que as folhas caiam. Para, nas curvas que fazem no espaço aberto, libertar a alma do tempo que se revela, a fim de que possa tocar e conter a nossa. Lembro que havia, faz anos, num quintal além de uma das muitas janelas que já tive (esta no Cambuí), um plátano. Que foi, ao longo de cerca de dez anos, o infalível arauto; primeiro para os meus olhos, depois para o meu sentimento, de que o outono, finalmente, chegara. De cara, para amenizar os excessos de luz do verão. Depois, para dizer que as canções que estavam em afinação começavam a ser tocadas. Ora, amigos, vamos falar a verdade, nada como uma linda, uma suave canção nesta época. A fim de, para o espanto dos que acham que a estação do amor é a primavera, revelar que é nas tardes de céu nublado e ventos ainda úmidos das chuvas da véspera, que o amor flui melhor na intimidade do si bemol maior de um regaço.
Pegue, amigo, uma tarde d’outono que aí está, e chame. Para o conforto dos seus pés, um chão relvado pelo qual possa andar; e, para o seu coração, tudo aquilo que seus olhos sentem conforto em ver. Aquele muro ao lado de casa muito antiga, coberto de heras, por exemplo, é nesta época que vê o brotar do seu significado. E as casas em si, de telhados amplos, abrirão suas portas como a ratificar que assim deveria andar o mundo, com espaços sempre disponíveis ao resguardo dos sentimentos e à paz entre os seres humanos.
Nas tardes d’outono, afinal, é que se esculpe o nosso sentido de espera. Faz tempo, um velho amigo aqui da Chácara da Barra me contou que todos os anos, nesta estação, esperava ansiosamente pintar a primeira tarde com céu fechado ao sol. Exatamente para aguardar linda criatura, que muito tinha amado, num certo lugar. Por nada, ele me acrescentou, que não seja apenas vê-la, numa tarde de outono. E ela nunca, jamais apareceu.
— E gostaria – perguntei – de vê-la surgir pra ficar pra sempre?
— Não – respondeu – pois desta forma eu consumiria todo o meigo alimento das minhas ilusões…
E é por ter dado com ele, há dias, de pé na entrada de certo bar que fora seu ponto de encontro, que tive o mote para escrever esta crônica. Pois ele me disse logo, sem que eu perguntasse, que estava ali se entregando à solenidade do instante, opaco, úmido pela chuvarada que acabara de cair.
— Desta vez ela virá? – Perguntei.
— Acho que sim.
— E se não vier?
— Não tem importância. Se vivo estiver, no ano que vem, por esta época, estarei aqui…
Pegue, amigo, uma das tardes que se prolongarão até junho e também se entregue. À beleza que existe nas certezas que gostamos de ter; ou nas ilusões que amamos acalentar… Feliz estação.
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ANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

Lindíssima crônica sobre as belas tardes de outono que nos trazem tantas lembranças, a nos convidar a ficar com os pés na grama, e os olhos a fitar o céu… Muita sensibilidade e inspiração, estimado amigo. Ana Maria Negrão.