Das impropriedades linguísticas. Por Myrthes Suplicy Vieira
… Alguns exemplos de impropriedades linguísticas que me ocorrem:…um candidato especialmente pernóstico, pedi que ele se apresentasse e falasse sobre sua experiência anterior. Sem qualquer sinal de constrangimento, ele lançou de súbito a seguinte bomba linguística: “Permita-me fazer um prêmbulo…”.

Todo mundo vem comentando nos jornais e nas redes sociais a redação empolada e intencionalmente rococó de um jovem que prestava vestibular para a área de Direito e que levou zero na avaliação. Não quero jogar mais gasolina nessa fogueira e constranger ainda mais o infeliz moçoilo – que, a esta altura do campeonato, deve estar trancado no quarto, com a luz apagada e com a cabeça escondida debaixo das cobertas. Quero apenas mostrar como até a boa intenção de impressionar ouvintes/leitores com a própria suposta erudição pode conduzir o incauto direto para o inferno do vexame e da humilhação pública.
Os exemplos são tantos e os contextos tão diversos que só posso aconselhar aos que sonham impressionar os circunstantes com um discurso intencionalmente hermético que meditem sobre a seguinte frase de Nietzsche: “Aquele que se sabe profundo esforça-se por ser claro. Aquele que gostaria de parecer profundo à multidão esforça-se por ser obscuro, uma vez que a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não pode ver o fundo”.
Ou que se inspire na encantadora sabedoria do linguajar caipira: “Sapo não pula por boniteza, pula por precisão…”
Alguns exemplos de impropriedades linguísticas que me ocorrem:
Situação real que vivi no início da minha carreira, quando trabalhava no setor de Recrutamento e Seleção de Pessoal. Durante uma entrevista com um candidato especialmente pernóstico, pedi que ele se apresentasse e falasse sobre sua experiência anterior. Sem qualquer sinal de constrangimento, ele lançou de súbito a seguinte bomba linguística: “Permita-me fazer um prêmbulo…”.
Contendo o riso, só pude responder ironicamente: “Faça quantos prêmbulos achar necessários”.
Ao que ele acrescentou: “É que eu sou uma pessoa muito detalhista. Adoro bolinar ideias”.
Dessa vez, não pude conter a risada. Apesar do susto com a inusitada confusão de palavras, começou a me parecer que o verbo substituto empregado estava, num determinado sentido, correto. Não pude deixar de considerar que, para burilar algo – seja um objeto ou uma ideia – é preciso mesmo manipular de forma libidinosa a coisa em questão, mudar sua posição no contexto repetidas vezes, examiná-la de diversos ângulos racionais e emocionais, atribuir a ela novos significados – até que se obtenha total satisfação. Prazer orgástico, sem dúvida.
Durante o governo Bolsonaro, o então Ministro da Educação, Abraham Weintraub, nos presenteou com um verdadeiro festival de gafes, erros gramaticais e ortográficos. Além da infortunada troca do nome do escritor Kafka por kafta, tivemos a chance de nos divertir com a substituição do conceito de “asseclas” pelo de “acepipes” e com dezenas de incorreções ortográficas como redigir “insitar” em vez de “incitar”, “antessessores” em vez de “antecessores”, e por aí vai. O então presidente do Inep não ficou atrás em termos de besteirol. Deu-se ao luxo de nos brindar com uma inusitada saudação aos “cidadões” brasileiros. Isso tudo, pasmem, como lídimos representantes da área da Educação.
Encontrar a palavra mais precisa para definir um estado emocional é um desafio quase insuperável, mas que tem grande importância. Uma das piadas de que mais gosto nesse sentido conta a história de um linguista que se apaixona por uma mulher casada. Contada originalmente na língua inglesa, ela faz sentido também em português: A mulher convida o amante linguista para sua casa numa tarde em que o marido estava fora, em viagem. Quando estão profundamente entretidos fazendo amor na cama do casal, a porta se abre abruptamente e o marido chocado entra e diz com voz trêmula: “Estou verdadeiramente surpreso…”
O linguista interrompe o que estava fazendo, senta-se na cama, coloca os óculos e alerta: “Desculpe-me, senhor, mas surpresos estamos nós. O senhor deve estar atônito, estupefato, perplexo…”
O jornalismo televisivo é outra fonte de incontáveis impropriedades linguísticas. Todos os dias somos expostos a frases como “fulano entrou dentro do carro” ou “saiu pra fora de casa”, “as informações de que dispomos é…”. Nesse quesito, o campeão disparado foi, sem dúvida, o apresentador Luiz Bacci que, com uma cara compungida, anunciou ao final de uma reportagem: “Infelizmente, a vítima do assassinato morreu”.
Myrthes Suplicy Vieira – psicóloga, escritora e tradutora.

Cara amiga Myrthes. Que bom te reler aqui tão bem humorada ! Tuas histórias e anedotas alegraram uma semana bem trabalhosa para mim ! Ao lê-las, lembrei-me de uma piadinha, também linguística, que recentemente me fez rir muito (deve ser narrada em inglês, mas tentarei fazê-la compreensível em português). Vamos a ela :
Um sujeito um tanto embriagado está passando pela rua, e vê diante de uma casa o seguinte anúncio : « Pago 100 dólares a quem pintar minha varanda de branco. Forneço tinta e pincel. Toque esta campainha para acertar os detalhes. » Vendo o anúncio, o bêbado, que então se já esforça para parecer sóbrio, toca aquela campainha, conversa então com uma mulher, e esta lhe explica o que deseja. Aceitando o trato, o ébrio promete entregar o serviço rapidamente. Recebe a lata de tinta e o pincel, diz à dona da casa que vai começar e, na mesma hora, põe suas mãos à obra. Não demora nem uma hora e, completamente emporcalhado de tinta, o sujeito novamente toca a campainha e diz à mulher que já terminou o serviço. Convida-a para ver o produto do trabalho, e é nesse momento que aquela infeliz se dá conta de que a varanda de sua casa está como sempre estivera, ou seja, precisando de pintura… Estranhando a cena, ela se volta ao sujeito e lhe diz : « Mas você não pintou nada ! A varanda está igualzinha ! E eu já te adiantei 50 dólares ! » O bêbado, com cara de quem não entende a bronca, diz então a ela, ainda surpreso, porém sincero : « Madame, a senhora me pediu para pintar teu Porshe de branco, e olha aí o teu Porshe quase todo branquinho… É verdade que pintei pela metade, afinal faltou tinta, mas que eu pintei um bom pedaço do teu carro, bem, isso eu fiz ! Olha só ! », diz o bebum, apontando o dedo para o porshe da mulher, bem em frente da casa…
Cara Myrthes, ouvir essa piada em inglês é delicioso. A depender da interpretação do narrador, a gente ri até a barriga doer. My porch, my porshe, deve ser tudo a mesma coisa para um bêbado que precisa de um dinheirinho. Contei essa para o meu marido já faz uma semana. Está rindo até agora.
Forte abraço. Espero que esta piadinha também te agrade. Rir faz bem pra gente !