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Nada mais que uma camiseta. Por Antonio Contente

  — Como ela chegou durante enorme temporal – detalhou – entrou na minha casa como um pinto.  Pois bem, a verdade foi que tendo chegado encharcada (como um pinto), a dona, ao sair, aceitou uma camiseta unissex que o antigo marido lhe ofereceu. — Na verdade – ele lembrou – havia comprado a peça em Nova York, tinha um desenho tipo Andy Warhol no peito…

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Nós estávamos numa festinha e, lá pelo quinto uísque, sem que eu perguntasse nada, ele me contou que ainda estava ligado na ex-mulher, de quem havia separado já fazia pouco mais de ano.

Ora – respondi, sem outra frase melhor para o momento – isso acontece nas melhores famílias.

Mas o diabo – o camarada se serve de nova dose – não é você descobrir que continua gostando de uma criatura com quem viveu certo tempo. O modo como você saca isso é que pode ser dolorido…

         — E com você aconteceu assim?

         — Não poderia haver forma pior de eu sacar a ligação.

Daí contou que, dias antes, a ex-mulher fora ao apartamento dele para a assinatura de uns papéis relativos à separação.

       — Como ela chegou durante enorme temporal – detalhou – entrou na minha casa como um pinto.

Pois bem, a verdade foi que tendo chegado encharcada (como um pinto), a dona, ao sair, aceitou uma camiseta unissex que o antigo marido lhe ofereceu.

Na verdade – ele lembrou – havia comprado a peça em Nova York, tinha um desenho tipo Andy Warhol no peito.

Logo ele seguiu acentuando que, dias depois, a visita se inverteu, e quem é que precisou ir à casa da “ex”, a fim de entregar os documentos com as firmas devidamente reconhecidas, foi ele.

E aí – crispa os lábios – no que eu ia entrando no prédio, pimba!, dou de cara com um sujeito, aliás muito boa pinta, saindo.

         — Não me diga que ele…

Exatamente – sou interrompido – estava usando a camiseta unissex que eu emprestara para minha antiga mulher no dia de chuva. Então, puto da vida, chamei o camarada.

Chamou? – com sincera ânsia.

         — Chamei. E perguntei quem dera permissão para estar vestindo uma peça de roupa que não lhe pertencia.

Santo Deus! – Passo a mão na testa.

— O fulano – meu amigo segue – naturalmente ficou surpreso, e perguntou do que eu estava falando.

         — Você entrou em detalhes?

         — Tentei. Mas, também, como fizera a besteira de iniciar a questão, não poderia me colocar na situação de corno, não é mesmo?

Mas como corno? – Junto as mãos – Você não separou?

Ah, sei lá – ela balança o gelo no copo – os seres humanos costumam ter uma estranha ânsia ante essas coisas de corneação. Como o cara vinha saindo do prédio da minha ex-mulher, com uma camiseta daquelas nada comuns, só poderia ter estado numa tarde de amor, certo? Pelo menos era o que eu pensava.

         — E, afinal, pensava certo?

         — Aí é que está… O rapaz acabou dizendo que não queria criar caso, e que eu deveria procurar um analista, um psiquiatra. Sabe que isso me balançou?

         — Te balançou como?

         — É que me deixou sem ação. Permaneci de pé, duro, enquanto o sujeito saiu pra rua sem olhar para trás.

— Uma experiência e tanto – acabo admitindo.

     — Você ainda não viu nada – ele dá um novo gole.

Detalha, então, que, após o entrevero algo exótico na portaria, subiu como uma fera. Ia disposto a dar uma baita esculhambação na antiga esposa por ela ter dado de presente ao amante uma peça de roupa que lhe fora emprestada após os efeitos de um temporal. Bateu na porta com tal violência que a dona da casa atendeu espantada.

         — O que foi? – Pergunta.

— O que foi quero saber eu! – Ele entra, berrando.

— Pelo amor de Deus – a fulana baixa a voz, apontando para o interior do apartamento – eu estou com visita.

Foi neste ponto que interrompi a narrativa para acentuar que a presença de alguém até que vinha a calhar.

         — É o que você pensa. Pois a vista logo apareceu, e era um rapaz com pouco mais de vinte anos.

         — E mesmo assim não foi bom para aliviar o clima?

Seria – ele suspira – se o sujeitinho não me surgisse vestindo exatamente a tal camiseta.

— A que você vira na portaria?

         — Exatamente, meu, a da portaria. O camarada que eu descompus deve também ter estado em Nova York, na mesma camisaria onde eu fiz a compra…

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Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

 

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