copa goela abaixo

Assustador. Mascote que mais parece um gavião. Canarinho Pistola?

Não é de agora. A Copa do Mundo vem se infiltrando há alguns meses. Um verde aqui; um amarelo ali. Umas roupinhas diferentes à venda para não parecer bolsonarista. Insistentes apelos para a torcida por um desejado hexacampeonato, como se precisasse mesmo empurrarmos e muito a Seleção que ainda não está convencendo muita gente. A começar pelos uniformes pavorosos que vestem nossos jogadores e equipe, uma coisa indescritível de triste.

Copa goela abaixo
Mais bonitinho…Canarinho do Tri, do Ziraldo. (1966)

 Será que é porque esse mascote canarinho é horroroso? Mais parece um gavião mal-humorado? O tal “Canarinho Pistola” é assustador, desde 2016, já está mais do que na hora de trocar, se é que precisamos ser otimistas. Esse parece que vai chutar nossa canela a qualquer momento, ganhar cartão vermelho. Na nova pesquisa (Quaest) a insistência melhorou um pouco a situação, mas a maioria ainda acha que ainda não vai ser desta vez que os 24 anos da última conquista serão deixados para trás. 35% acredita; 9% não souberam ou não responderam. 53% cravaram que não vai dar mesmo. Um número até melhor do que a pesquisa de abril, quando 68% estavam desiludidos; só 25% acreditavam em vitória total. Menos desesperança ao menos no país que até nisso aparece cindido.

Mas com tantas campanhas e para onde se olha tentativas de buzinar com vuvuzela em nossas cabeças, algo mesmo muda. Principalmente onde se ama o futebol 365 dias do ano, torcidas fervorosas por times. Mas a Copa do Mundo, que é a Copa, a Seleção, os convocados, a campanha feita até chegar aqui deixou muitos de pé atrás. O técnico Carlo Ancelotti ainda se salva. Por enquanto, porque se começarmos a perder já nessa primeira rodada a orelha dele vai arder. Chato demais é esse papo de Neymar para lá, para cá, o que comeu, fez, se mexeu a panturrilha machucada, se vai jogar no primeiro, no segundo, ou se só foi sentar no banco com seus milhões. Tudo gira em torno dele, o que tira o brilho e até a vontade dos outros atletas.

 Os patrocinadores se mexendo. Promoções por todos os lados. Garrafas de Coca-Cola sendo desnudadas em seus rótulos com figurinhas, uma ideia meio chabu, e os preços estratosféricos do álbum enlouquecedor da maior Copa da História. Estou vendo gente trocando essa por aquela em muitos locais, mas vivi em tempos das figurinhas em papel, mais simples, que batíamos o “bafo”. Achei as atuais meio que, digamos, escorregadias. Não vi ainda ninguém batendo “bafo”, as mãos em concha, virando montes embora saiba que há na internet verdadeiras aulas sobre o assunto. Tem ainda a coleção dos “pistolinhas” feios de doer, às custas de muito consumo de delivery.

Na tevê dá agonia a profusão do tema extracampo, a competição de quem faz mais graça, o jornalismo “Influencer” que se mistura intrometido com a informação. A obrigação de repisar como a emissora é maravilhosa, e o papo do delay, que podia mais valer é uma campanha por melhoria da internet nacional para quem depende dela para tudo.

 Vide a 25 de março. Que Copa rende, vende tudo, não é surpresa. Carne, linguiça, cerveja, bandeirinhas, tinta pra pintar ruas, faixas, bonés, camisetas. Já vi até em uma loja de uma estilista dessas muito chiques uma vitrine com peças dignas de festas de Vorcaro, esbanjando dinheiro, nada custando menos de cinco mil reais. O tal Brasilcore (ou Brazilcore) do momento é outra moda instantânea suspeita, brasilidade goela abaixo, e em tempos eleitorais.

De verdade quero que nossa Seleção vá longe porque sempre precisamos de alegria e festas. Só não gostaria de sentir de novo a ressaca que acontece quando ficamos pelo caminho.

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MARLI GONÇALVES – Jornalista, cronista, assessora e consultora de comunicação, com passagem pelos principais veículos do país, editora do Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano, Coleção Cotidiano, Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). Vive em São Paulo, Capital.  marligo@uol.com.br / marli@brickmann.com.br

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2 thoughts on “A Copa goela abaixo. Por Marli Gonçalves

  1. Parece difícil que nossa alegria seja nesta copa: empate, e de um golzinho só, com o Marrocos!
    Ainda continuo torcendo para que nossa alegria esteja aí perto, em 19 de julho.
    Ainda há tempo, desde que Deus envie um clarão para o técnico, igual ao que enviou a Paulo, e se a equipe acertar o pé, nos dois sentidos.
    Senão, vamos voltar que Deus é brasileiro e nossa alegria venha em 2030.

  2. Minha cara, esse « pistol canary » é assustador exatamente pelo que ele foi planejado ser : ele representa uma torcida que admite adotar como parâmetro moral o lema do « ganhar roubado é mais gostoso ». Eu mesmo já ouvi, tantas vezes, aí, nas ruas de SP, alguém dizendo isso. Esse símbolo amarelo com cara de miliciano criminoso só existe porque, no Brasil, vige atualmente a ideia do quanto mais agressivo, melhor. Repare. O país já teve como presidente um elemento que passou a vida sendo tão agressivo nos gestos e estúpido nas palavras quanto possível, que planejou explodir uma bomba no quartel, postava fotos de campanha eleitoral simulando uma arma com a mão e frequentemente, assim como seus filhos moralmente deformados, vestia camisetas onde rifles e metralhadoras estampadas simbolizavam seu modus politicus operandi. Xingava grosseiramente quem dele discordasse, acusava de tudo e sem provas seus adversários, mentia como método de obtenção de votos, proferia insultos a esquerdistas, mulheres, lgbts, ofendia estudantes, tentava desmoralizar na base da infâmia jornalistas honestos, chamou ministro da suprema corte de « canalha »… Um exemplo de violência. Propôs pena de morte, admitiu que esquadrões da morte fariam bem ao país, deliberadamente dificultou a distribuição de vacinas durante uma pandemia mortal e convidou a população do Brasil a desconsiderá-la, sair para o trabalho e se matar. « Não sou coveiro », « todo mundo morre um dia », « frescura », « macho não tem medo disso », quantas frases violentas desse calibre o país não ouviu – e, pior, gostou ! Esse é o problema. Gostou tanto que, chegada a época da eleição, votou tão massivamente nele que por muito pouco não o reelegeu. O Brasil é um pais violento, e é preciso entender isso para compreender por que o símbolo do time de futebol do país parece ser um criminoso. Ele não está dizendo, mas é como se estivesse, assim como Gerson : « Eu quero levar vantagem em tudo ! » Esse monstrengo, para fazer sucesso, precisa simbolizar a única coisa que a torcida brasileira valoriza : a vitória, não importa como se a consiga. Ele não é símbolo de educação, respeito, afabilidade, fair play, aposta na honestidade, civilidade e a consequente aceitação da possibilidade de derrota. É o contrário de tudo isso ; uma representação alegórica de mau gosto de um povo abandonado que sente precisar ganhar no futebol para ser alguma coisa, custe o que custar. « No futebol, pelo menos, a gente ganha ! » Ainda que na marra.

    Não deixa de ser curioso, e um tanto contraditório, para um país que passou a vida tentando dizer ao resto do mundo que gente mais alegre que a sua não existe. Alegre e violenta, é o que diz o Pistola.

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