A difusão do ódio pós-eleições. Por Aylê-Salassié F.Quintão
Ser, e não ser: a difusão do ódio pós-eleições

Artigo publicado no caderno "Divirta-se mais", do jornal Correio Braziliense, em 21 de agosto de 2026
O mandato presidencial, que termina em 31 de dezembro, caracterizou-se pelo esforço de atravessar uma espécie de “pinguela” conectando uma “polarização ideológica” para conseguir a sobrevivência de alguma governabilidade. A expressão foi desenterrada pelo marketing, sugerindo uma luta hipotética do “bem contra o mal”. Emergiu, quase que religiosamente, dos escombros das grandes revoluções populares: a francesa (1789) – girondinos(direita), jacobinos (esquerda); ou a russa (1917) – mencheviques (conservadores) x bolcheviques (revolucionários). Quem pretendesse uma postura mais moderada era descartado de alguma forma. Sem chegar à virulência daquelas conflagrações, operou simbolicamente nas últimas eleições presidenciais no Brasil (2022) e sobreviveu para a de 2026.
Há uma sinalização de que a estratégia tende a se repetir como combustível na campanha deste ano, embora ofereça outras opções. Contudo, se após o pleito de outubro, conhecidos os resultados, tiver continuidade essa cruzada do ódio, mesmo alegórico, os brasileiros correm o risco de ter de conviver com essa inquietante herança nos campos da política e da economia ao longo os outros quatro anos de um novo governo. Nesses últimos anos, as políticas públicas foram negligenciadas pelas disputas hegemônicas na política. Prejudicou a governança, desestabilizou o diálogo entre Poderes e vacilou diante das metas econômicas, onerando a população.
Pela omissão, gerou em consequência uma insegurança em todos os segmentos da sociedade. Esse quadro desestimulou novos investimentos de múltiplas origens. Como agravante, o Brasil deixou de ser visto como um país neutro nos conflitos externos. Por isso, se repetida postura belicosa e omissa após o pleito de outubro problemas imprevisíveis podem surgir para o novo governo e, particularmente, para o Brasil.
Este viés simbólico de violência e ódio teve, por aqui, muitas origens, mas disputas familiares hegemônicas narcisistas rústicas e místicas são as que tem mais cara de Brasil. Ainda hoje, há políticos que se referenciam no cangaço – “Banditismo no Brasil” (Hobsbawm,1969), como se fosse uma grande virtude cívica e pedagógica, e embora tenha sido, junto com a fome e o desemprego, um dos fatores responsáveis por uma forte migração interna. Coube ao jornalista Cláudio Ferreira perceber antes que a extensão dessa agressão retórica gratuita pode ter efeitos negativos sobre a “saúde mental” do brasileiro, ao naturalizar ofensas políticas, relações conflituosas entre amigos, introduzindo brigas familiares, sem desdenho para alguma violência física, como aconteceu recentemente no Ceará. A nova mídia digital, as redes sociais, parecem desejosas de desencadear uma canibalização recíproca entre candidatos, e a propaganda eleitoral, fiscalizada de longe, com base em denúncias mútuas, querer desconstruir o Brasil dos sonhos dos brasileiros. Passamos perto de nos envolvermos com as invasões na Ucrânia, no Irã e na Venezuela.
De maneira oportuna, o jornalista chamou a atenção para consequências desse tipo de comportamento, e propôs o que ele batizou como a necessidade de um “Pacto de Civilidade” pós-eleitoral. Já tivemos experiências dessas, em que o vencedor das eleições declarava, ao tomar posse, que governaria para todos. Começou entusiasmado, mas não aconteceu. A distinção política ou ideológica nas campanhas acirradas incorporou-se ao DNA partidário, afetando até as relações sociais. Pessoas de boa-fé chegaram a propor a criação de uma disciplina nas escolas que trabalhasse com a ideia da “gentileza”, já que os costumes no Brasil estavam se tornado cada vez mais rudes e descorteses.
Trabalhei como jornalista correspondente no Reino Unido, e observei, numa campanha eleitoral, que por mais antipatia que se poderia ter por alguém, ao se dirigir a essa pessoa, sempre se usam expressões como : Sir = Senhor ; Madam ou Ma’am= Senhora; Please, por favor; Excuse me – dá licença; Pardon = desculpe; Thank you = obrigado; Thanks a lot= muito obrigado. Por aqui, a história da linguagem cotidiana não nos ajuda. Além de falarmos alto, como se estivéssemos pronunciando recitativos num teatro de ópera, referimo-nos até aos amigos como um vagabundo, moleque, sacana, prostituto (a), ladrão, corrupto, vigarista, mau caráter, gozador, golpista, aproveitador, bandido, quadrilheiro. Ninguém pede licença, se desculpa ou agradece.
Que horror!!! Para onde vai o caráter nacional?! O tratamento dado ao outro torna-se ainda mais grosseiro, quando transferimos isso para o campo da política ou para os debates públicos. Vocábulos cordiais e gentis são usados para xingamentos, como: “Meu querido!”, “Meu amor! “Meu amigo!” Meu caro!“, “Meu nobre!“, “Companheiro!“. Só falta completar; “Vai para aquele lugar!!!” E alguns o fazem. Pedem até prisão. No lugar de armas, metralhadoras, a polícia inglesa usava cassetete de borracha – aqui é madeira de pau ferro – e um microfone. Dois anos por lá não assisti ninguém ser agredido nas ruas.
Precisamos, sim, de “Pactos civilizatórios” e “Pactos de civilidade”. Lembrei-me de um projeto de lei que apresentamos na Câmara Legislativa do DF: “Proibição de filas no atendimento público…”. Foi saudado pelos parlamentares e pela sociedade, copiado no Brasil todo, mas o tempo e as práticas sociais viciadas e discriminatórias se encarregaram de restaurar essa punição ao paciente, ao cliente, ao consumidor e ao trabalhador. Este pela redução do número de empregos. A “civilidade” precisa ter mesmo uma “disciplina” no sistema educacional. E um “pacto civilizatório” deveria ser cobrado antes das campanhas, e não somente declaração de bens, que, em uma eleição tem oscilações inexplicáveis.
Como a Lei Maria da Penha, a ideia de Ferreira, não deveria ser das mãos de um político dessa geração, todos comprometidos com a tal de “polaridade”, dentro da qual cabe tudo; mas de uma ONG que tenha o respeito e a credibilidade pública. Na cobertura de Jogos Indígenas de Recife (2008) com estudantes de jornalismo da Universidade Católica de Brasília, desenvolvemos uma proposta de “celebração” dos limites extremos alcançados pelas etnias originárias, e não por um atleta ou por um grupo indígena específico, para ser comemorada por todos, inclusive os “perdedores”, expressão que deixou de existir entre eles. O conceito de “competição” olímpica gerou a ideia – alimentada pelo jornalismo pela publicidade – dos “super humanos”, muita corrupção e até violência.
Nessa altura da governança, os brasileiros parecem esgotados com a disputa, quase pessoal, irracional e narcisista, pelo Poder do Estado, que vem alimentando uma imagem pública de violência, corrupção e ódio, com reflexos cívicos, culturais e individuais negativos para a cidadania e para a Nação.
Pensemos para depois das eleições na mobilização por um projeto de origem popular, capaz de interromper esse perfil demagógico no campo da política. Precisamos retomar o processo civilizatório.
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