Onde erramos? Por Aylê-Salassié Quintão*

Onde erramos?

 Aylê-Salassié F. Quintão

Assim, perdemos o rumo. Não temos clareza de mais nada. Não dá para dizer mais sequer que “In god we trust”. Por incrível que pareça, é o Vice de Dilma que se propõe a dar continuidade ao PAC de Lula…

Para onde estamos indo? Acho que as respostas são insuficientes. Mas também, apesar da riqueza da nossa história, não se tem clareza de onde viemos. Como o País foi conduzido até aqui? Oportunamente, darei minha versão sobre o tema.
O desinteresse pela leitura de livros tem crescido tanto que é melhor pular um pouco essa história… Lula renovou o seu mandado presidencial. Lançou o Programa de Aceleração do Crescimento (2007), popularizado como PAC, com a previsão de investimentos de R$ 500 bilhões, e da introdução de uma série de mudanças nos rumos do próprio governo. Sua proposta tinha semelhança, embora um pouco distante no formato, de um plano quinquenal. Procurava criar a expectativa da continuidade de mega projetos para os próximos governos petistas. Dilma, presidente, com uma segunda versão – não sei se melhorada ou piorada – levou-o ao descrédito. Na imprensa, os chargistas o retrataram com um labéu, batizado de “Pac…Pac…Pac…Pac…”.
… O novo populismo ensinou às massas os seus direitos, os métodos para reivindicá-los, mas nunca como administrar as fontes: as empresas e o trabalho gerador de riquezas. Fragilizou-se o Estado fiscal.
Onde erramos? Sem uma autocrítica profunda e ampla, passamos trinta anos insistindo na narrativa de culpar a ordem autoritária, e o País terminou por retomar no espaço da sociedade o mesmo percurso do círculo vicioso do café com leite. Introduziu formatos novos, porém sem alterar as estruturas internas, e alguns privilégios foram agregados por protagonistas até então periféricos.
O novo populismo ensinou às massas os seus direitos, os métodos para reivindicá-los, mas nunca como administrar as fontes: as empresas e o trabalho gerador de riquezas. Fragilizou-se o Estado fiscal. Só se conhecia a expropriação e as suas mamas. A tomada do Poder não mostrava as faces ocultas da governança. Como diz o presidente do Banco Central do governo do Vice Temer, Ila Goldfang: “Erramos muito nos últimos anos”.
 O modelo de desenvolvimento sob o controle da tecnocracia aprofundara o esforço para a formação, nos anos de 1970, de uma massa crítica para o País. Multiplicaram-se as universidades. Houve um momento em que somente uma empresa estatal, a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuária mantinha trezentos economistas, administradores, engenheiros agrônomos, biólogos e botânicos fazendo doutorado no exterior. O mesmo aconteceu no campo da energia, com o treinamento de centenas de engenheiros e físicos na área nuclear. Adotou-se uma reforma de ensino médio, que introduzia a opção da profissionalização no final dessa etapa, com a multiplicação de cursos tecnológicos. Gerou-se, enfim, uma massa crítica suficiente para repensar um projeto de Nação. O utilitarismo fez o País crescer, mas, ao banir a Filosofia das escolas, dificultou o entendimento sobre as direções a tomar.
No entusiasmo da elaboração da Constituição de 1988, procurou-se repartir, no curto prazo, o bolo que o economista Delfim Neto prometera nos anos de chumbo. A urbanização semeou a dissolução das conquistas no campo e os políticos dos controles das contas públicas, que, por extensão ou efeito. O multipartidarismo abortara o regime bipartidário, oferecendo infinitas possibilidades ideológicas, emergindo daí mais de trinta alternativas, a maioria de caráter fisiológico, fazendo emergir um número infinito de minorias, gerando uma ingovernabilidade imprevisível, pela impossibilidade de um único partido ter a maioria no Congresso.
Prendia-se hoje, soltava-se amanhã: e a insegurança se completava. Os políticos mostravam-se desinteressados pelas novidades fiscais. Moralmente não tinham também força para combater as usurpações.
 Abriram-se assim comportas amplas para as negociações de apoio entre o Executivo, os partidos e parlamentares individualmente por meio de um leque infindável de emendas parlamentares ao Orçamento que desembocou na compra direto de votos no Congresso Nacional. Criaram-se vícios até então desconhecidos, destruindo o sistema técnico burocrático pela desqualificação das atividades de Estado. Como resultado a máquina inchou diluindo as diferenças entre o público e o privado que, lá atrás, Getúlio, à fórceps, procurou distinguir.
A repressão dos militares voltada para garantir uma ordem, acusada de positivista, foi substituída pelo aparecimento de um corpo estranho, quase que um “grande irmão”, o Ministério Público Federal, e pelo fortalecimento do Judiciário, que, face a degeneração política, foram juntos estabelecendo vantagens, direitos e poderes, sem os correspondentes no campo produtivo.
Prendia-se hoje, soltava-se amanhã: e a insegurança se completava. Os políticos mostravam-se desinteressados pelas novidades fiscais. Moralmente não tinham também força para combater as usurpações.
Predominou então, a degeneração, com causas fisiológicas e opções ideológicas mal articuladas, estabelecendo-se o caos na política, na economia e, sobretudo, nos usos e costumes, com um impacto identitário negativo nunca visto antes. Gerou-se o que Thomas Hobbes chamou de uma “guerra de todos contra todos” (Bellum omnium contra omnes). Por outro lado, François Rabelais  acusou o Estado de o insaciável gigante Pantagruel. Assim, perdemos o rumo. Não temos clareza de mais nada. Não dá para dizer mais sequer que “In god we trust”. Por incrível que pareça, é o Vice de Dilma que se propõe a dar continuidade ao PAC de Lula.

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Aylê-Salassié F. Quintão* –  Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília.

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