Transas adúlteras. Por Aylê-Salassié F. Quintão*

Transas adúlteras

Aylê-Salassié F. Quintão*

Os petrodólares inundavam o mercado. Dissecou a economia e a política no Brasil,  descrevendo o perfil e o comportamento de  líderes e autoridades, projetando um futuro incerto. Admitiu explicitamente que o ‘liberalismo no Brasil não dá cadeia, mas gera o incômodo patrulhamento ideológico”.  Para ele, muitos não percebiam que “o comunismo é bom para sair da miséria, mas incompetente para criar riqueza “, dizia.

“Esperamos ser um Brasil daqui a 30 anos”. Repórteres de setor, estávamos ali no gabinete do ministro das Minas e Energia, assistindo, de pé,  a conversa  das autoridades brasileiras com uma delegação da Coreia do Sul. A estabilidade política e econômica atraía o interesse dos investidores internacionais, entre eles aquele grupo de empresários coreanos. Procuravam recuperar seu País dos danos causados pela guerra dos anos de 1950, que deixara a nação dividida e devastada.

O PIB per capita da Coreia do Sul  era de US$ 158; o do Brasil, US$ 210.  Trinta anos depois, a Coreia registrava um PIB per capita de US$ 29.742, e o Brasil US$ 9.821. O crescimento da Coreia do Sul teria se inspirado em Roberto Campos, segundo explicação do economista Ernesto Lozardo, da Fundação Getúlio Vargas, ex-presidente do Ipea – Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas.

         Estudioso das políticas de desenvolvimento asiáticas, Lozardo escreveu um livro, pela Topbooks, intitulado   “OK, Roberto. Você venceu!”. Ouvira de autoridades e empresários coreanos elogios aos planos estratégicos do Brasil, elaborados  pelo o ministro Roberto Campos e sua equipe do IPEA, entre 1964 e 1967: o PAEG – Programa de Ação Econômica do Governo   e o PDDES – Plano Decenal de Desenvolvimento Econômico e Social.

            Fui cruzar com o ex-ministro do Planejamento na Inglaterra, entre 1980-81. Quando desembarquei em Londres, a serviço do Correio Braziliense e da Agência Anda, ele era o embaixador do Brasil. Egresso de movimentos anti-imperialistas e contrários à ditadura, formara a convicção de que Campos era um “entreguista”, estigma que se explicitou, no imaginário, quando o apelidaram de Bob Fields, por analogia a supostos favorecimentos aos Estados Unidos,  em negócios com o Brasil.

            Circulava pela embaixada, na Green Street, mas não o via . Minhas fontes diplomáticas eram os adidos e alguns técnicos. Ele falava eventual e monosilabicamente com os jornalistas nos eventos da embaixada ou das organizações de commodities, das quais o Brasil era membro. Outras, encontrava-o em solenidades de  assinatura daqueles “empréstimos Jumbo” – acima de US$ 500 milhões – na City (centro financeiro de Londres). Não opinava. Deixava o espaço para os chefes das delegações, geralmente ministros, presidentes de bancos e grandes empresários brasileiros.

              A sisudez dele era meia “aborrecente”. Não falava,  mas lia todas as matérias  dos correspondentes, que o Itamaraty se encarregava de enviar, sob a forma de clipping. Saíra de Brasília meio escorraçado, já que o PAEG tinha um caráter liberal. Engolia os planos populistas de Getúlio, de Juscelino e de Jango, contribuindo para agravar a imagem dos militares junto à população, e para incitar o pensamento nacionalista das casernas.

         Certo dia, fui surpreendido por um convite dele para um chá. Era individual. Passou duas horas conversando comigo, sem, entretanto, permitir que gravasse ou fizesse alguma anotação (fiz depois, de memória). Nem  me autorizou a publicar nada. Pedagogicamente, queria desanuviar para mim o cenário dos sucessivos empréstimos brasileiros. Os petrodólares inundavam o mercado. Dissecou a economia e a política no Brasil,  descrevendo o perfil e o comportamento de  líderes e autoridades, projetando um futuro incerto. Admitiu explicitamente que o ‘liberalismo no Brasil não dá cadeia, mas gera o incômodo patrulhamento ideológico”.  Para ele, muitos não percebiam que “o comunismo é bom para sair da miséria, mas incompetente para criar riqueza “, dizia.

…Irônico, dizia que  “a ignorância no Brasil tinha um passado glorioso e um futuro promissor”.

Enfatizava a “burrice ideológica sem fronteiras” no Brasil, e argumentava  que “o mundo só será salvo pelo eficientes, e não pelos caridosos”.  “No meu dicionário – dizia –  “socialista” é o cara que alardeia intenções, e dispensa resultados. Adora ser generoso com o dinheiro alheio, pregando igualdade social, embora se considere mais igual que os outros…”. Ponderava:  “Tributar, pesadamente, tirando do mais capaz e do mais motivado, para dar ao menos capaz ou menos disposto, redunda em punir aqueles, sem corrigir estes.“

Eram os primeiros ensaios do Lanterna de Proa , livro editado pela Topbooks, uma obra sobre 50 anos da economia brasileira, que apareceria dez anos depois, em plena gestão populista, ou seja, já dentro daquele ambiente ideológico cético, que o enterrou prematuramente. Irônico, dizia que  “a ignorância no Brasil tinha um passado glorioso e um futuro promissor”.

Explicava a diferença entre a empresa privada e a empresa pública  no Brasil: “aquela é controlada pelo governo, e esta por ninguém”.  Argumentava que o subdesenvolvido procura sempre soluções mágicas. “Esquece as razões profundas da corrupção, e ignora a falência múltipla do Estado…” Afirmava que, no Brasil “A rés publica se transformou em cosa nostra.“ E aconselhava  a quem, com sinceridade,  se preocupasse com os pobres, buscar elevar a demanda de mão-de-obra, que ele acreditava viria de um “choque liberal”.

“Não perdoava a “opção pelos pobres”. Para ele,  no fundo, fazia-se uma “opção pela pobreza”, ao estimular a proliferação inconsequente dos pobres.  Criticava a defesa do direito sagrado à vida, pois, ao fazê-lo, “ignorava-se os direitos das vítimas”.  Chamava de “esquizofrênicos” os artistas e intelectuais brasileiros de esquerda que “ admiravam o socialismo, mas adoravam coisas que só o capitalismo sabe dar : bons cachês em moeda forte; ausência de censura e consumismo burguês”.  E arrematava:  “Tratam-se dos filhos de Marx, numa transa adúltera com a Coca-Cola…“ .

Foi depois deputado e senador pelo Mato Grosso, onde nasceu. Do Congresso dizia que, “pessoas sérias raramente têm tempo e estômago para as futricas e brigas na política”. Lembrava que  coreanos e japoneses “nunca  se ocupavam com conversa fiada “. Trinta anos depois daquele  encontro com as autoridades brasileiras, o trabalhador o sul-coreano médio,  produzia três vezes mais em valor. A Coreia do Sul investira pesadamente em energia eólica e solar por aqui. Hoje, está  entre os cinco primeiros parceiros comerciais do Brasil. Lozardo provoca: “Isso você precisa contar para os seus alunos”.


Aylê-Salassié F. Quintão* – Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília.

 

 

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