Quem torce contra o Brasil? Por Antônio Melo

QUEM TORCE CONTRA O BRASIL?

ANTÔNIO MELO

… reza a nossa constituição que somos um país laico. Pelo menos escreveram assim os nossos constituintes, protegidos por um crucifixo católico a amparar o grande salão do Congresso, igualmente na Câmara, nas paredes dos plenários dos tribunais e dos demais prédios públicos de todos os estados.

O senhor Jair Messias Bolsonaro precisa se convencer de que é presidente de todos nós: dos que votaram nele e dos que não votaram. Mais que isso, a campanha política acabou desde o final de setembro do ano passado, há onze meses portanto. O Brasil é um país miscigenado onde convivem brancos, negros, mulatos. Embora muitos ainda discordem, vivemos uma diversidade de gênero (desculpa aí ministra Damares) que só agride mentes pouco tolerantes. As religiões se multiplicam -e como- variando das mais ortodoxas crenças à beleza dos cultos que vieram com nossos irmãos africanos e ainda hoje se celebram por todo o nosso Brasil.

Diante de tudo isso, reza a nossa constituição que somos um país laico. Pelo menos escreveram assim os nossos constituintes, protegidos por um crucifixo católico a amparar o grande salão do Congresso, igualmente na Câmara, nas paredes dos plenários dos tribunais e dos demais prédios públicos de todos os estados.

Defeitos à parte, somos um exemplo de democracia, assustada vez ou outra pelas desventuras de algum golpe fardado ou não. Em 1889 abolimos a escravidão. O pessoal da terra do Pateta só pôs no papel que a segregação racial era crime em 1964, durante o governo Johnson, para logo depois assassinar o pastor Martin Luther King, um negro e queimar muitos outros em investidas da Ku-Klux-Klan. Esta semana mesmo, um negro, doente mental, foi conduzido por dois policiais brancos algemado e exibido pelas ruas de uma cidade americana, prova de que a segregação por lá acabou, mas não ACABOU.

Por isso mesmo, acredito que em muitos aspectos, nossa democracia é bem melhor que a deles. Lá, o cidadão – fazendo a vontade do chamado “clube do rifle”-tem direito a andar armado- como querem e insistem fazer por aqui. Bem. Nas terras do senhor Trump -e até antes dele- a diversão é entrar em escolas, estacionamentos, shoppings, boates e mandar bala nas pessoas. De preferência gays, latinos e negros -não necessariamente nessa ordem. Ou em colegas da escola ou universidade. Só esta semana atiraram em mais de cinquenta, 30 deles de origem mexicana. 29 morreram. Coincidência ou não, o presidente de lá -pelo qual o nosso diz ser apaixonado- quer porque quer erguer um muro para proibir a entrada dos imigrantes na terra do Donald, o pato. Principalmente mexicanos, que na visão do homem dos cassinos, estão desgraçando os Estados Unidos. No Brasil, infelizmente, essa prática também começou. Mas os episódios sangrentos ainda não são tão frequentes quanto lá. Aqui pratica-se mais o “tiro ao auxiliar”. São petardos desfechados por filho do presidente dotado de magistral pontaria e que já derrubou vários ministros, presidentes e diretores de empresas e até de bancos federais vítimas das balas envenenadas pelas intrigas familiares e palacianas.

Mas, deixa para lá, são assuntos domésticos, pelo menos é que parece entender Sua Excelência.

O que importa é que a reforma da previdência anda. Espera-se que os frutos dela não apodreçam antes de ficarem maduros, como os da trabalhista que geraria centenas de milhares de empregos, traria bilhões em investimentos estrangeiros, modernizaria nossa indústria, lançaria o Brasil no futuro da bonança dos países ricos. Dois anos depois de aprovada, veio a frustração da colheita. Continuamos com 13 milhões de desempregados (ou 25 milhões de subempregados), com os especuladores financeiros comemorando os recordes da Bolsa que não geram nenhum emprego, com os juros do cartão de crédito acima dos 300% ao ano, com o governo pedindo a cada hora uma nova autorização para contingenciar (cortar) verbas do orçamento, com o número de malabaristas e desocupados nos cruzamentos pedindo para lavar o para-brisa do seu carro aumentando a cada dia e os otimistas -ou fanáticos- dizendo que a economia vai bem, obrigado.

…Nenhum brasileiro torce contra o Brasil. Fique certo, presidente.

Agora, voltando ao princípio: para que o nosso presidente atiçar tanto as brasas das nossas divisões? Será que não percebe que isso é ruim para o país? Que quem anda falando mal do Brasil é ele e alguns dos seus ministros ao desacreditarem instituições serias e respeitadas internacionalmente como IBGE e o INPE? Que ao falar mal da chanceler alemã Ângela Merckel e do presidente francês François Hollande põe em risco o acordo que ele próprio ajudou a costurar entre o Mercosul e a União Europeia? Que não vai acabar com o desmatamento na Amazônia desacreditando os satélites que monitoram o avanço da devastação? Será que não se apercebe que até mesmo os seus mais entusiastas seguidores estão constrangidos com todos esses desacertos muitos desiludidos começam a se afastar dele e do governo?

Estão aí os exemplos do deputado Alexandre Frota na Veja acusando o clã Bolsonaro pelos desajustes do governo; o MBL que quer distância do planalto; a deputada Janaína Paschoal lembrando que “o presidente foi eleito para governar nas regras democráticas, nos termos da Constituição Federal. Propositalmente, ele está confundindo discussões democráticas com toma-lá-dá-cá”; Gustavo Bebiano, coordenador da campanha, advogado e ex-ministro se dizendo arrependido de ter ajudado na eleição e que “Bolsonaro é um perigo para o país”. Esses são apenas alguns dos mais expressivos dentre tantos os que já não mais suportam o estilo do presidente.

 Jair Bolsonaro tem um mandato conquistado nas urnas, sagrado portanto. Para o país é muito importante e necessário que vá até o final. O golpe dado contra Dilma é um exemplo que não deve se repetir. Mas o presidente precisa aprender a liturgia que envolve o cargo do qual ele é ocupante, não proprietário. Está ali por delegação expressa do povo. E, acima dele, há um livrinho sagrado a ser cumprido: a constituição brasileira a que ele jurou respeitar e cumprir.

Nenhum brasileiro torce contra o Brasil. Fique certo, presidente.

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Antônio Melo – Jornalista. Publicou recentemente o excelente “A Vingança”, pela Z Editora

 

 

 

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