Sem esperanças. Por Edmilson Siqueira

SEM ESPERANÇAS

EDMILSON  SIQUEIRA

…Um ano e três meses depois da posse do capitão da reserva e ex-deputado do baixo clero, Jair Messias Bolsonaro, vemos um presidente fraco, perdido em muitos assuntos, dando péssimos exemplos ao povo, comprando brigas com inimigos imaginários, querendo calar a imprensa independente, chutando velhos amigos para fora do seu círculo de poder, criando complicações diplomáticas onde não havia qualquer necessidade e tentando passar ao povo brasileiro que nunca houve um governo tão bom quanto o dele…

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Quando comecei a perceber que havia presidentes no Brasil, Juscelino Kubitschek de Oliveira estava construindo Brasília e endividando o país Brasil por conta do sonho de ter seu nome eternamente ligado à Novacap, apelido da cidade planejada no meio do nada para ser a capital. As notícias da construção me chegavam pelas revistas Cruzeiro e Manchete que meu pai trazia. Eram revistas que os passageiros do carro-dormitório da Companhia Paulista de Estradas de Ferro deixavam nas cabines quando chegavam ao destino. Cada carro tinha um “guarda”, meu pai era um deles. Ele trazia mais gibis, hoje chamados HQs, que eu gostava mais do que as revistas.

Juscelino inaugurou uma inacabada Brasília, pegou a parte que lhe cabia, e entregou o poder a um maluco que adorava tomar uísque. E o dia inteiro. Jânio Quadros, um furacão eleitoral, fazia o tipo indignado. Começou proibindo brigas de galo e querendo moralizar o Brasil por onde não devia. Claro que o Congresso entortou o nariz, emparedou o maluco e ele, aludindo “forças ocultas” (não tinha Rede Globo na época), renunciou com sete meses de governo. Dizem que ele pensou que voltaria ao poder nos braços do povo (o que a bebida não faz…). Foi tão mau presidente quanto irresponsável: entregou o governo a um esquerdista simpático ao que ocorria em Moscou, que era nada mesmo que uma terrível ditadura de esquerda.  João Belchior Marques Goulartt, ou João Goulart, ou Jango, se aliou a sindicalistas de esquerda, a partidos de esquerda (clandestinos ou não) e se enveredou por um caminho que poderia desembocar naquele modelo soviético. Os milicos entortaram o nariz, tomaram o poder e instalaram uma ditadura de direita.

Era 1964 e foram cinco generais na presidência nos 21 anos seguintes, apesar de o primeiro deles, Humberto de Alencar Castelo Branco, jurar que, em dois anos, consertaria a casa e devolveria o poder aos políticos. Artur da Costa e Silva, que o substituiu, tascou o AI-5 em 1968 e assumiu poderes de vida ou morte sobre todos os brasileiros. E exerceu o poder de morte em vários deles. A tortura e o assassinato de opositores – principalmente de esquerda – nos porões da ditadura foram corriqueiras durante um tempo. Morreram pouco mais de 300, muitos em combate, mas muitos também ao não resistirem às porradas todas que levavam ´pra confessar seus “crimes”.

Emílio Garrastazu Médici, pegou período melhor, já que o ditador anterior tomou medidas que fizeram o PIB chegar em até 11% num ano e 1º% no outro.  A repressão ainda era forte, mas o país crescia o suficiente para que o povo não apoiasse qualquer tentativa de derrubar a ditadura. Médici gostava de jogar pôquer e de futebol. Mas nunca conseguiu ser popular, por motivos óbvios. Em 1973, com a crise do petróleo e a falta de base do desenvolvimento brasileiro, o “milagre” acabou.

Costa e Silva deu lugar a Ernesto Beckmann Geisel, o mais técnico dos ditadores, ajudou a afundar mais o país criando inúmeras estatais e cravando no meio político as mamatas todas advindas do dinheiro farto e fácil que essas estatais controlavam.

Saiu para dar lugar a João Batista de Oliveira Figueiredo, que, coitado, tentava ser o popular, mas tinha a sutileza de um coice de mula ao conversar com jornalistas. Viu a inflação crescer, viu a dívida externa crescer e, quando viu a oposição crescer, jurou que entregaria o poder a um civil depois dos seus 5 anos de poder. E esse civil quase foi Paulo Salim Maluf, que ganhou as prévias de Mário David Andreazza. Maluf deu azar de pegar pela frente a velha raposa Tancredo de Almeida Neves, que se aliou a um aliadíssimo de todos os ditadores anteriores, José Sarney, e conquistou a maioria do colégio eleitoral (sim, as eleições presidenciais eram indiretas) e venceu.

Só que morreu antes da posse e o inesperado Sarney foi guindado à presidência, como primeiro civil depois dos anos de chumbo da ditadura. A diferença de Sarney para os militares é que o maranhense não torturava ninguém fisicamente e roubava, roubava muito dos cofres públicos.

Sarney era pra ficar quatro anos, mas comprou mais um e quando saiu, o primeiro presidente eleito pelo voto direito tomou posse: Fernando Collor de Mello, um aventureiro das Alagoas que cresceu prometendo combater a gigantesca corrupção do governo Sarney. Durou dois anos: foi cassado sob a acusação de corrupto. Só fez uma coisa de bom: abriu o mercado de veículos para as empresas estrangeiras, tirando o imposto de importação (que beirava 400%). Com isso, as montadoras locais, todas estrangeiras, por sinal, tiveram de aprimorar seus produtos e, de maneira geral, os carros brasileiros melhoraram bastante.

No seu lugar, entrou um atônito Itamar Augusto Cautiero Franco, ex-senador mineiro, mais interessado em namorar do que presidir o país. Mas montou uma equipe razoável e, depois, pediu um plano econômico ao seu chanceler, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, nomeando-o ministro da Fazenda.

Inteligente, culto e bem informado, FHC montou uma equipe de economistas modernos que escreveram uma receita para criar uma moeda forte e dominar de vez a inflação que beirava os mil por cento.

Apesar da oposição de um partido que surgira no ABC e começava a ganhar força, FHC foi eleito na esteira do sucesso do Plano Real, que realmente acabou com a inflação e deu poder de compra à moeda. Mas custou milhões de desempregados, afinal ninguém sai de um abismo econômico sem se arranhar.

FHC foi o melhor presidente entre os que aqui estou listando, mas se perdeu, não sei se por covardia ou por sua índole meio socialista ter falado mais alto. Poderia ter avançado nas reformas já nos primeiros quatro anos de governo e acabado com as estatais nos outros quatro, ele que foi reeleito para um segundo mandato. Entregaria um país pronto – talvez para José Serra – para dar um salto de tigre asiático. Mas acabou entregando para um aventureiro que se cercava de toda a esquerda brasileira e que tinha pouquíssima instrução, embora fosse esperto politicamente.

Lula ficou oito anos no poder. Deu esmola aos pobres do país que passaram a endeusá-lo enquanto criava a maior rede de corrupção que a humanidade já viu que, não só poderia perpetuar seu partido no poder como enriquecer seus membros todos. Deu sorte por estar no poder em uma fase muito boa da economia mundial que teve grandes reflexos por aqui. Saiu por cima, embora acusado de muitos roubos (e já condenado à prisão por dois deles), elegendo sua sucessora, uma coisa chamada Dilma Rousseff que talvez até hoje ainda não tenha entendido porque foi cassada no segundo ano de seu segundo mandato. Talvez não saiba porque tem sérios problemas de entendimento da realidade, problemas esses que ficam expostos em seus surrealistas discursos completamente disléxicos.

Dilma caiu, assumiu uma velha raposa, aliada de FHC desde que ele chegou ao poder e de Lula desde que ele chegou ao poder: Michel Miguel Elias Temer Lulia, ou Michel Temer. Diante do descalabro do governo anterior, Temer até que começou bem. E ia aprovar a reforma da Previdência, não fosse aceitar conversar com um velho amigo, tratar na conversa de assuntos não republicanos e esse “muy amigo” gravar a conversa e entregá-la ao Ministério Público. O governo de Temer acabou ali.

A última eleição presidencial que vivi, foi entre a direita radical e a esquerda radical. As duas juntas representam cerca de 20% dos eleitores, se tanto. Mas o medo da turma da corrupção descarada voltar ao poder e o medo de um bronco capitão-deputado se eleger e acabar com a esquerda devem ter feito eleitores de ambos os lados aumentarem e os dois radicais foram para o segundo turno. Venceu, não por muito, o radical da direita, que ninguém conhecia direito, mas que era a possibilidade de o Brasil voltar a ser capitalista e não ter mais tanta corrupção.

Um ano e três meses depois da posse do capitão da reserva e ex-deputado do baixo clero, Jair Messias Bolsonaro, vemos um presidente fraco, perdido em muitos assuntos, dando péssimos exemplos ao povo, comprando brigas com inimigos imaginários, querendo calar a imprensa independente, chutando velhos amigos para fora do seu círculo de poder, criando complicações diplomáticas onde não havia qualquer necessidade e tentando passar ao povo brasileiro que nunca houve um governo tão bom quanto o dele. Mas seria pior, creiam. Ele já tentou barrar seus dois melhore ministro, Paulo Guedes e Sérgio Moro. Sem contar que a boa atuação do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na crise do corona vírus andou causando ciúmes ao capitão.

Desde JK, acompanhei dezesseis presidentes do Brasil, alguns com mais atenção que outros. Tirando FHC, que deixou, embora com sérias restrições, um legado na economia, os outros quinze foram mais que desastrosos para o país. Estou com 68 anos e acho que ainda conhecerei mais alguns presidentes, não imagino quantos, pois depende de quanto tempo cada um ficará no poder. Sou jornalista há 43 anos e, como tal, cético. Pelo passado que vivi, não guardo esperança alguma de chegar a ver meu país caminhando para o rumo certo.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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