Um médico na quarentena. Por Meraldo Zisman

UM MÉDICO NA QUARENTENA

MERALDO ZISMAN

… Jamais esperei testemunhar uma COVID-19 que viesse a ser como uma prima-dona num palco particularmente grande, representando para a economia, a bolsa de valores e de vez em quando, neste momento de crise mundial, para a permanência idiota da polarização entre meus irmãos brasileiros. Polarização aqui entendida como divergência de atitudes ideológicas extremas, mais destrutiva do que qualquer epidemia…

Mesmo na dúvida, na indecisão, na incerteza, continuo com a pertença da minha profissão que exerci da melhor maneira que pude. Do meu jeito, como indivíduo. Nela tive o privilégio de ver o melhor e o pior da humanidade. De princípio, leitor, elas (as minhas lembranças) permanecem, apesar do longo tempo vivido. Os meus ressentimentos, que aumentam no meu cotidiano existencial pela falta de equipamentos médicos e sobretudo pela pobreza, a fome/miséria/desgraça ancestral da maioria da população no seio da qual pratiquei minha profissão, são hoje partes do meu romance existencial e infelizmente pouco mudaram. Procuro não espalhar minha animosidade para os demais lugares deste mundo, vasto Mundo, pois o que importa é o lugar aonde trabalhei e aonde continuo vivendo.

Busco, agora, não julgar os outros pela maneira como escolheram responder ou não responder às mais diferentes injustiças. Não condenar ou agraciar aqueles que optaram por se distanciar e têm vergonha de serem egoístas e aqueles que se revoltam pretendendo serem reconhecidos como ‘mártires’, palavra que designa também heróis ou vítimas.

Não há nada mais doloroso do que conhecer o mau prognóstico de um paciente e não poder oferecer nada. No entanto, fomos ensinados a internalizar esse sentimento de culpa, porque não podemos nos dar ao luxo de nos perder no fracasso. E quando ocorre essa situação, reagimos como pessoas frias ou calculistas e ocultamos todos os sentimentos de fracasso e inadequação que nos ensinaram a guardarmos para nós mesmos.

Jamais esperei testemunhar uma COVID-19 que viesse a ser como uma prima-dona num palco particularmente grande, representando para a economia, a bolsa de valores e de vez em quando, neste momento de crise mundial, para a permanência idiota da polarização entre meus irmãos brasileiros. Polarização aqui entendida como divergência de atitudes ideológicas extremas, mais destrutiva do que qualquer epidemia.

Estamos em um estado bizarro de limbo da crise. Sentimo-nos irremediavelmente atrasados, mas ainda fazemos corajosos esforços para sermos preventivos e com isso postergar o apocalipse, palavra derivada do grego apokálypsis que significa “revelação” ou “ação de descobrir”.  Na Bíblia, a palavra apocalipse é usada como sinônimo do Armagedom, um evento Bíblico caracterizado pela luta final entre Deus, os pecadores terrestres e o diabo.

…O único remédio, ou ação que pode retardar o colapso do atendimento médico, é ficarmos todos de quarentena. Vamos ficar em casa, aqueles que têm casa.

Sabe-se que no século XIV, ao lado da pobreza e da fome que atingiram a Europa, a desgraça apareceu através da Peste Negra ou peste bubônica (doença transmitida por piolhos dos ratos), que ceifou a vida de mais de vinte milhões de pessoas. A peste provavelmente atingiu primeiro a Ásia em 1331 e se espalhou para o Ocidente através da Rússia. O emprego da pólvora vindo da China derrubou os muros e os castelos, por mais fortalecidos que fossem, causando o fim da Idade Média. Neste período surgiu a Renascença, será bom lembrar.

Como trato de pessoas vivas, a minha responsabilidade e interesse é no período que vai do nascimento à morte do ser humano.

Não me venham a politizar estes momentos, nem muito menos tirar proveito desta epidemia que, pelo pânico que mostra a mídia, parece indicar que estamos numa batalha de patentes, para saber que país produzirá primeiro a vacina contra esse microrganismo (COVID-19). Enquanto isto aconselho enfaticamente à população que siga as orientações do nosso Ministério da Saúde.

Por que guerra das patentes? Porque quem chegar primeiro à vacina para a Covid-19 poderá patenteá-la e ter sua exploração exclusiva, em todos os países. O único remédio, ou ação que pode retardar o colapso do atendimento médico, é ficarmos todos de quarentena. Vamos ficar em casa, aqueles que têm casa.

Para terminar acho oportunas as palavras de Antoine de Saint-Exupéry: “A perfeição é alcançada não quando não há mais nada a acrescentar, mas quando não há mais nada a ser retirado”. A minha esperança é que o nosso país termine com essa praga de polarização.  Essa seria a nossa mais importante vacina no momento.

O antes ou depois da vida não é minha praia e por falar em praia relembro a frase do Albert Camus, autor do livro A Peste: “E no meio de um inverno eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível”.

                           ACABEM COM ESSA POLARIZAÇÃO DESTRUTIVA!

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Álvaro Ferraz.

 

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