Chumbo Gordo

Moro errou, e pode não ter tempo para errar de novo. Por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão

MORO ERROU, E PODE NÃO TER TEMPO PARA ERRAR DE NOVO

AYLÊ-SALASSIÉ  QUINTÃO

… Sergio Moro e aqueles que o admiram pela coragem única de tentar desmontar a engrenagem mafiosa e imoral que tomou conta do Estado Brasileiro, deveriam se preocupar, agora, com a sua integridade física. 

Desempregado, como suas decisões como juiz sendo desqualificadas por interesses diversos,  até entre os ex-pares do Judiciário, com desafetos à direita e à esquerda,  chamado de traidor  (Um Judas!…), Sergio Moro e aqueles que o admiram pela coragem única de tentar desmontar a engrenagem mafiosa e imoral que tomou conta do Estado Brasileiro, deveriam se preocupar, agora, com a sua integridade física.

Sua história ainda incompleta,  lembra a do juiz italiano Giovanni Falcone e de um episódio também dramático, pouco conhecido, envolvendo o pacifista  Martin Erzberger, negociador, pela Alemanha,  do armistício com os Aliados – França, Rússia e Reino Unido – que deu fim à Primeira Guerra -Mundial (1914-1918), na qual morreram mais de 20 milhões de civis

-“Finie la Guerre!!!

 E os inimigos se abraçavam nas trincheiras enquanto, em Berlim, os generais se escondiam em casas de campo. Era o anseio de milhões de europeus que os políticos e os militares ignoravam. Surgiu a figura de um jurista, Matthias Erzberger, deputado no Reichstag por um partido de centro, católico, e um contestador da direita alemã.  Humilhada e angustiada, a população o via como o “anjo da guarda dos alemães” nas negociações de paz.

Apesar de ter aceito participar de uma comissão de negociação de paz, suas diferenças com os defensores da guerra, ficou evidente quando, em julho de 1917, num veemente discurso, rejeitou, no Parlamento, um pedido de crédito especial para financiar a máquina de guerra. A dívida nacional passaria de 5 para 153 bilhões de reichsmark.  Seria mais barato construir hospícios para os “loucos da direita alemã”, do que continuar alimentando a guerra, justificou.

            Iniciou-se, contra ele, uma campanha de desmoralização, em que era acusado de praticar perjúrio e sonegação de impostos. Não resultou em nada, mas provocara um grande desgaste em sua imagem pública. O último teste foi a escolha de seu nome para negociar o fim da guerra, juntamente com o vice-chanceler Karl Helfferich, que repudiava a maioria das suas posições. Mas também não tinha outras.

“De anjo protetor dos alemães”, Matthias Erzberger saiu do armistício transformado em um dos maiores traidores da Alemanha. As condições limites do Tratado de Versalhes, negociadas por ele e Helfferich, privou a Alemanha de 13,5% do território, de sete milhões de cidadãos e de todos os territórios ultramarinos. A Alemanha foi obrigada a entregar ao Reino Unido 150 navios de guerra e  100 submarinos. A maioria foi afundada no percurso, por seus comandantes. Foi obrigada a entregar e destruir seis milhões de rifles, 15 mil aviões e 130 mil metralhadoras e tanques. Tinha de pagar indenização que chegavam a quase 200 bilhões.

…Os corruptos, os mafiosos, os ladrões e os enganadores estão todos soltos por aí, prontos a fazer novas trapalhadas, em nome do povo e da democracia; os honrados e outros politicamente assemelhados, estes… estão no cemitério. Moro, caia fora enquanto é tempo.

O tratado de paz estabelecia 140 mega obrigações. Delas surgiam novos países e novas nacionalidades. A Alemanha questionava, mas não era mais ouvida. O justiçamento de Versalhes iria gerar o nazismo, uma revanche do nacionalismo alemão. Uma lição para ser digerida.

O surpreendente foi que, mesmo assim, Matthias Erzberger se reelegeu deputado federal, em 1920. Pouco antes de assumir foi, entretanto, assassinado, pela direita, quando caminhava tranquilo em um parque na pequena vila de Bad Griesbach, Floresta Negra. Seus assassinos foram condenados a 12 e 15 anos de prisão, mas inocentados, pelo regime nazista que viria depois, por entender que eles agiram em defesa da nação alemã.

É de assustar! Na sociedade, as coisas acontecem de tal forma que os instrumentos usados para combater a moralidade e a imoralidade confundem os cidadãos. Por acreditar na Justiça, Sérgio Moro é hoje uma vítima em potencial de grandes inimigos tanto na esquerda quanto na direita.  É uma história semelhante à do corajoso juiz italiano Giovanni Falcone, morto pelos ressentidos mafiosos num atentado com mais de 400 quilos de trinitrotolueno (TNT), escondidos sob a estrada que liga Trapani a Palermo.

Espera-se que Moro não cometa o mesmo descuido que vitimou Erzberger e Falcone. Mas, reconhece-se que já cometeu três erros: abandonar vinte anos de uma admirável carreira jurídica; acreditar que a lei feita por aqui está acima da política, da politicagem e das patologias; e sair do ministério atirando.

Os corruptos, os mafiosos, os ladrões e os enganadores estão todos soltos por aí, prontos a fazer novas trapalhadas, em nome do povo e da democracia; os honrados e outros politicamente assemelhados, estes… estão no cemitério. Moro, caia fora enquanto é tempo.

E não erre mais!…

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Aylê-Salassié F. Quintão*Jornalista, professor, doutor em História Cultural. Vive em Brasília

 

 

 

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