Ruptura à vista? Por Edmilson Siqueira

RUPTURA À VISTA?

EDMILSON SIQUEIRA

…O comportamento errático de Bolsonaro é fruto de sua total incapacidade: ele não tem a mínima noção do que seja governar um país, mas, eleito, se agarra ao poder como um cão faminto se agarra ao osso encontrado na rua. Vai mudar de postura? Jamais. Vai se agarrar ao caos pra tentar sair por cima. Vai sair por cima? Acho que não. Espero que não…

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Os acontecimentos dos últimos dias deixam forte impressão que caminhamos para uma ruptura institucional. Pode até não ocorrer, mas, para tanto, exigiria que a postura do principal ator em cena mudasse completamente.

Só que o presidente Jair Bolsonaro continua seu périplo desafiador. Faz críticas contundentes a pessoas sensatas, não só desobedece as normas de combate à pandemia como incentiva a desobediência ao comportamento defensivo, mente descaradamente sobre quase tudo, promove fake news, provoca aglomerações e a elas comparece, se alia ao que de pior o Congresso tem em termos de corrupção para barrar um processo de impeachment que hoje parece inevitável, cria diariamente inimigos reais e imaginários e continua atacando – com uma má educação gigantesca –  a imprensa independente como se ela existisse apenas para tirá-lo do poder.

Tudo isso leva à conclusão de que se trata de um comportamento desesperado, que já não carrega a certeza de que seu governo pode um dia dar certo. Um comportamento que vê no rompimento da ordem democrática sua única chance de continuar no poder, como ditador, evidentemente. Mas esse destino tem um sério obstáculo: como um ex-capitão vai ganhar apoio suficiente de generais da ativa para acompanhá-lo, subalternamente, numa aventura cujo enlace é mais do que incerto?

O comportamento errático de Bolsonaro é fruto de sua total incapacidade: ele não tem a mínima noção do que seja governar um país, mas, eleito, se agarra ao poder como um cão faminto se agarra ao osso encontrado na rua. Vai mudar de postura? Jamais. Vai se agarrar ao caos pra tentar sair por cima. Vai sair por cima? Acho que não. Espero que não.

O país vive a maior crise na saúde, com mais de 500 mil infectados por uma doença para a qual ainda não há vacina nem remédio seguro, que se transmite facilmente e mata considerável percentual de doentes. Ao mesmo tempo, a economia se perde, com previsão de diminuição considerável do PIB (acima de 6% negativos é a previsão para este ano) com aumento gigantesco do desemprego e com o déficit público atingindo patamares nunca dantes alcançados. E o comportamento errático de Bolsonaro agrava ainda mais a crise nas duas pontas, a sanitária e a econômica.

Para que hoje o Brasil tivesse uma possibilidade de um futuro menos sombrio no curto prazo, seria necessário iniciar hoje mesmo um programa de obediência total às normas de combate à covid 19. A principal delas é o isolamento social. Depois, o total apoio – financeiro e logístico – aos estados e municípios no sentido de garantir que o sistema de proteção não entre em colapso, que os leitos existentes, tanto os normais quanto as UTIs sejam suficientes para o atendimento. E só serão suficientes se o vírus não se espalhar facilmente, se ele não infectar milhões. Para tanto, o isolamento é essencial. Mas Bolsonaro dá péssimo exemplo nesse sentido, criticando a quarentena e ele mesmo participando de aglomerações de apoio ao seu tresloucado governo.

O resultado disso tudo é que hoje apenas os Estados Unidos têm mais infectados pelo novo coronavírus que o Brasil. Talvez já tenhamos até ultrapassado os EUA, pois a baixa notificação resultante do pequeno número de testes pode estar oferecendo um quadro irreal da situação.

Mas não é mera coincidência que ambos os países tenham presidentes que resistiram (o daqui ainda resiste) a tomar atitudes recomendadas pelos médicos lá no início da pandemia.

Assim, com os ânimos se acirrando por vários motivos e atitudes, o Brasil caminha para um desenlace que tem tudo para ser trágico: milhares e milhares de mortos (hoje ultrapassamos 30 mil) e uma economia em frangalhos. O desenlace pode tanto ser um golpe militar, de consequências imprevisíveis, como a cassação da chapa eleita por vários motivos ano que vem – o que provocaria uma eleição indireta para completar o mandato. Ou a continuidade desse desgoverno, que, infelizmente, não terá a menor chance de reverter os dramáticos quadros que ora se apresentam, tanto o das mortes quanto o do desastre econômico.

Se a última hipótese vingar, teremos, até dezembro de 2022, um Bolsonaro preso ao Centrão, preso à tragédia da covid 19, preso ao debacle econômico, mas, principalmente, prisioneiro da sua formidável incapacidade de governar o Brasil.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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