O diabo e o financiamento da eleição 2016

Por Leão Serva

…Dizer que, no auge do desemprego, da inflação e da queda do PIB, o povo começará a apoiar com dinheiro seus políticos prediletos, só pode ser papo de Lobo para enganar Chapeuzinho…
Artigo publicado originalmente na coluna do autor na Folha de S. Paulo, edição de 15 de fevereiro de 2016


Estamos a ponto de constatar que “o diabo às vezes aparece como homem de bem”, conforme o verso de Bob Dylan. No ano passado, uma aliança de uns tantos ingênuos, como Chapeuzinho Vermelho, e outros muitos espertos, como Lobo Mau, conseguiu proibir doações de empresas a campanhas eleitorais no Brasil, país sem tradição de contribuições individuais.
Está chegando a hora de ver o resultado, tão óbvio como tenebroso: as contribuições criminosas serão estrelas do financiamento eleitoral em 2016. A profunda crise econômica só agrava a dificuldade de inverter a cultura enraizada na cidadania. Dizer que, no auge do desemprego, da inflação e da queda do PIB, o povo começará a apoiar com dinheiro seus políticos prediletos, só pode ser papo de Lobo para enganar Chapeuzinho.

O crime organizado mais antigo, influente e persistente do Brasil é o jogo ilegal, “a contravenção”, como se diz no Rio. Você notou as notícias recentes sobre projetos legislativos para legalizar o jogo? Bingo! Alguém já pôs a rodar a roleta da contribuição eleitoral.

Lobo Mau também sabia que políticos com mandato têm sempre mais recursos para campanha, gastos ligados ao gabinete e exposição na mídia por quatro anos. Com poucos recursos, é quase impossível batê-los em uma campanha de 45 dias. Resultado, Lobos com mandato tendem a se perpetuar no poder…

Contrabandistas, traficantes e banqueiros de bicho e bingo sempre trabalharam à margem da legalidade, seu único caixa é o 2. Para eles, não é preciso inventar nada. Suas doações serão como sempre foram. Vão reinar. As outras terão redução.

Quando defendeu o fim das contribuições de empresas, Lobo Mau sabia que uma importante forma de crime eleitoral permaneceria intocada, agora até mais forte: sindicatos (patronais e de empregados) e movimentos sociais são proibidos de fazer política eleitoral por serem beneficiados com dinheiro público, como o imposto sindical. Mas fazem, intensamente. Assim, cometem crime ao fazer campanha. Chapeuzinho crê que a partir de agora vão se conter.

Lobo Mau também sabia que políticos com mandato têm sempre mais recursos para campanha, gastos ligados ao gabinete e exposição na mídia por quatro anos. Com poucos recursos, é quase impossível batê-los em uma campanha de 45 dias. Resultado, Lobos com mandato tendem a se perpetuar no poder.

Por fim, o resultado mais preocupante das novas regras é a possibilidade de que cresça vertiginosamente a participação do banditismo no financiamento de campanhas. Simplesmente porque sua contabilidade sempre foi “não oficial”, basta fazer como sempre.

Um sintoma do tamanho desse risco são as constantes investigações sobre a participação de organizações criminosas em empresas de transportes públicos e a crescente representação parlamentar desses interesses. Se aconteceu antes, é provável que cresça a partir de agora.

As doações de empresas, devidamente registradas, são permitidas nas mais antigas democracias sobre a Terra, como EUA e outros países de tradição legalista. Em vez de influenciar insidiosamente a política, a transparência torna explícita a relação entre apoiadores e as teses defendidas pelos eleitos. Exemplo: a relação da indústria do petróleo com o presidente George W. Bush explica suas posições contra a redução de gases de efeito estufa. Não há nada escondido, nada a investigar.

Num regime de transparência, se alguém doa dinheiro por caixa 2, podendo fazê-lo legalmente, é por ter razões espúrias. Já com as novas disposições adotadas pelo Brasil, na prática, as doações ilegais vão se tornar norma.

E aí, quanto mais Mau, melhor se dá o Lobo.

* Leão Serva – Ex-secretário de Redação da Folha . É jornalista, escritor e coautor de ‘Como Viver em SP sem Carro’. Escreve às segundas, quinzenalmente, no Caderno Cotidiano. Ex- Jornal da Tarde, ex-Lance, ex-iG , chefiou a assessoria de comunicação de Gilberto Kassab (na prefeitura, desde a gestão José Serra), e foi diretor de redação do Diário de S. Paulo. Vários livros publicados na área de interesse de Cidades, Mobilidade Urbana. Fundador da Santa Clara Ideias.

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