Mãos limpas

por Matias Spektor

… Sem dúvida, a operação Mãos Limpas representa uma faxina inédita na história da Europa, mas sua vitória foi parcial. A Itália ocupa hoje o mesmo lugar nos rankings internacionais de corrupção que ocupava antes do início da investigação…

Artigo publicado originalmente na Folha de S. Paulo, edição de 10 de março de 2016

Tudo começou em 1992, quando um juiz da comarca de Milão desvendou um esquema de financiamento ilegal de campanhas. A operação expôs um propinoduto envolvendo a maior petrolífera do país e terminou expedindo 3.000 mandados de prisão. O escândalo derrubou o governo do dia, implodiu os dois partidos mais poderosos e pôs gente graúda na cadeia.

O juiz responsável pela operação Mãos Limpas tinha 42 anos e uma equipe de promotores jovens com quem aplicou a chamada “teoria dos jogos” a um sistema de delações, fórmula que fez caciques dos partidos e magnatas da indústria caírem como peças de dominó.

A classe política reagiu, partindo para o ataque.

A contraofensiva inicial veio de Bettino Craxi, ex-primeiro-ministro e chefe do partido socialista. Acusado de crimes de corrupção, favorecimento de familiares e de empresas amigas, Craxi adotou a tática da vitimização: acusou a investigação de ser seletiva e, ao condenar a esquerda, fazer o jogo da direita. Craxi tentou justificar a comprovada roubalheira dizendo que todos os partidos faziam o mesmo, mas foi condenado a 27 anos de prisão (livrou-se do xilindró fugindo para a Tunísia, onde tinha casa de descanso e era amigo do ditador Ben Ali).

A segunda contraofensiva da classe política foi mais eficaz. Seu líder era um empresário da mídia que estava prestes a ser condenado pela operação: Silvio Berlusconi.

Ele saiu candidato, virou primeiro-ministro e, no centro do poder, usou o pódio não apenas para se apresentar como vítima da sanha justiceira dos promotores, mas para lançar contra eles uma campanha de difamação: acusou-os de serem corruptos.

A acusação nunca deu em nada, mas atrasou o calendário da operação, dividiu o Judiciário e a opinião pública.

A pressão bastou para que o juiz responsável se demitisse e optasse por entrar para a política.
Berlusconi caiu em seguida, mas evitou a cadeia com táticas protelatórias e, seis anos depois, voltou ao ataque, empossado de novo como primeiro-ministro.

Desta vez, sua ofensiva foi brutal. Em conluio com os principais partidos, ele aprovou leis para limitar a autonomia do Judiciário, reduzir o poder dos promotores e descriminalizar o caixa dois.

As acusações contra ele foram arquivadas, abrindo-lhe o caminho para quase nove anos de mandato.
Sem dúvida, a operação Mãos Limpas representa uma faxina inédita na história da Europa, mas sua vitória foi parcial. A Itália ocupa hoje o mesmo lugar nos rankings internacionais de corrupção que ocupava antes do início da investigação.

Quem ganhou foram Berlusconi e sua turma, com apoio popular.

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matias2 MATIAS SPEKTOR – É doutor pela Universidade de Oxford e ensina relações internacionais na FGV.

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