Vão-se os anéis olímpicos, fica o legado civilizatório. Por Aylê-Salassié F. Quintão*

Vão-se os anéis olímpicos, fica o legado civilizatório

Por Aylê-Salassié F. Quintão*

…O público foi também muito criticado por não saber a hora de calar- se. Mas, os próprios atletas pediam manifestações das plateias antes das provas. Cultuado pela mídia, Usain Bolt, que sempre era atendido no pedido de silêncio, declarou-se cidadão do Rio de Janeiro…

Terminou a agonia catastrofista. Com os Jogos Olímpicos, aprendemos que não estamos sozinhos neste mundo, que não somos os maiores, não somos os melhores, os recordes brasileiros são escassos,  que não existem vitórias fáceis. As Olimpíadas são um grande legado  civilizatório. Sua dimensão humana está longe de ser configurada por meio de índices , estatísticas, pela informática ou por discursos ufanistas.  O espírito olímpico supera diferenças, solidarizando-se com os fracassos e com as virtudes, independente de quem seja o protagonista. Participar de uma Olimpíada, como atleta ou como público, é muito diferente da paixão por  um clube nacional.

A Rio 2016 deixa de fato alguns problemas materiais, mas conduzem propósitos que não serão esquecidos. Desprovincializa, civiliza e humaniza: ajuda a distinguir lealdades, comportamentos éticos e a compartilhar. As lições  emergem em meio às contradições. São virtudes que surgem de maneira informal, no contrapeso de gestos de grandeza, como o da neozelandesa Nikki Hamblin, ajudando a adversária norte-americana Abbey D’Agostino a levantar-se  de um tropeço nas eliminatórias dos 5000m, ou  do polonês Piotr Malachowsk, do arremesso de disco, que leiloa sua medalha de prata para ajudar um menino com câncer no olho.

Existem também momentos  de pequenez, como o  nadadora francesa Aurilie Muller, saltando sobre Rachele Bruni, para impedir que a italiana chegasse ao ouro  .

Gestos emocionantes, a apresentação da delegação dos refugiados. Gestos de constrangimento, como o do judoca egípcio Islam El Shehaby (+100kg) , recusando-se a cumprimentar israelense Or Sasson.

Gestos de indignidade , caso de Ryan Lochte, nadador norte-americano, que quase compromete a imagem dos Jogos, ao relatar um falso assalto. Gestos anti-esportivos no futebol. Gestos de esperteza no vôlei, desmascarados pelos “desafios eletrônicos”. Gestos de quebras de supremacias, como o de Izaquias no salto com vara ou o do adolescente nadador Joseph Schooling batendo  Michael Phelps, seu ídolo, nos 100 metros. Gestos de despedida: Serginho, Isinbayeva, Bolt, Phelps, Gebrselassie .  Gestos irônicos  do alemão Robert Bauer, após a derrota para a seleção olímpica brasileira, mostrando para a à platéia os 7 a 1 na Copa de 2014. Depois pediu desculpas.

A coragem e a obstinação como valores pode ser entendidos também nos acidentes com o halterofilista armênio  Andranik Karapetyan, com o ginasta francês Samir Ait Said, com a atleta holandesa Annemiek van Vleuten  , na prova dos 40 km do ciclismo de estrada, e o do ciclista coreano Sanghoon Park . Cenas de superação, como a do francês Yohann Diniz, da marcha olímpica, que, recuperado na pista,  continuou a caminhada dos 50 km.

Os russos deram a volta por cima no drama do dopping que levou à perda de muitos medalhistas. Não faltaram cenas bizarras como a do atleta aposentado  Sergei Lukyanov , que deixou  São Petersburgo, na Rússia, à pé, no dia 1º de abril de 2015, e  percorreu uma distância de 18,2 mil km, em 496 dias, para vir assistir à Rio 2016.

Acabou por estabelecer um novo recorde mundial para o Guiness. As ocorrências policiais ficaram longe do que se esperava: alguns assaltos comuns e a prisão antecipada dos doze supostos conspiradores. A marca constrangedora mesmo ficou por conta da morte, do soldado da Força Nacional, Hélio Andrade,  ao entrar, sem perceber, em área comandada por traficantes.

O público foi também muito criticado por não saber a hora de calar- se. Mas, os próprios atletas pediam manifestações das plateias antes das provas. Cultuado pela mídia, Usain Bolt, que sempre era atendido no pedido de silêncio, declarou-se cidadão do Rio de Janeiro. Novak Djokovic, tenista sérvio nº 1 do mundo, saiu chorando da quadra emocionado com o apoio da torcida.

O choro serviu também de desabafo para o aguerrido time de vôlei masculino da Argentina , ao perder para o Brasil; e para o vôlei feminino do Brasil, ao ser eliminado pelo Canadá. O atleta medalhista de ouro em Londres no salto com vara , Renaud Lavillenie,  não conseguiu sufocar as lágrimas, ao ver-se superado (5m98) pelo brasileiro  Thiago Braz (6m03).

Aplausos, vaias e lágrimas incluíram ganhadores e perdedores com suas histórias de vida. O publico sonha com grandes narrativas, com heróis, vilões, conflitos  e surpresas. Foi assim no Rio de Janeiro como em Pequim e Londres. No final alguns choram de tristeza e frustração , outros de alegria.

As torcidas foram se adaptando ao espírito olímpico, fazendo a festa com os vencedores e comovendo-se com os perdedores.

Apanhou-se muito, aprendeu-se mais e o Brasil teve aparentemente restaurado o seu conceito global. Não ficou entre os Top Ten, como queria o Comitê Olímpico Brasileiro, mas fortaleceu a sua  posição  , subindo vários degraus na classificação geral: 19 medalhas, 7 de ouro,  13º lugar no ranking.

O Rio encantou os 5 bilhões que assistiram os Jogos pela TV no mundo e restabeleceu sua imagem  como uma das cidades mais bonitas do planeta. O “povo cordial” tem tudo para  retomar seu lugar, conforme declarou Michael Phelps, maior medalhista Olímpico. Foram lições para o brasileiro nunca irão esquecer.

Não foram momentos revolucionários, mas nem assim deixaram de ser transformadores. Foram pedagógicos : uma revolução de alegria.  No rastro dos Jogos Olímpicos, é preciso encontrar formas de superar a violência e aprofundar a educação pública .

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Aylê-Salassié F. Quintão* – Jornalista, professor, doutor em História Cultural

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