Geraldo Menucci - rodapé

Maestro Geraldo Menucci

Só um rodapé. Por José Paulo Cavalcanti Filho

Geraldo Menucci, maestro

Liga Janete Costa, querida, para dizer que a Polícia Federal havia entrado na casa do maestro Geraldo Menucci, quase madrugada, em busca de drogas. Quebrou objetos, não achou nada e ameaçou voltar. Estava apavorado. Tínhamos acabado de chegar no Ministério da Justiça (março de 1985) e aquela gente continuava acreditando ainda estar na Ditadura. Liguei para o Superintendente de Pernambuco. E a ele disse que terceiros, fingindo ser a PF (quis ser elegante), invadiram uma casa sem mandado judicial. E isso não podia mais acontecer. Pedi que assumisse o caso. Dia seguinte, voltou Janete a ligar. Dizendo que o Superintendente foi, ele próprio, falar com Menucci. Ofereceu proteção. E deixou cartão com telefones (inclusive pessoais), para o caso de algo acontecer. Acabou tudo bem.

Assim o conheci. E logo nos tornamos amigos. Veio do Sul para se integrar ao Movimento da Cultura Popular, nos tempos de Arraes prefeito. Aqui, foi maestro assistente da Sinfônica do Recife, primeiro regente de nossa Banda Sinfônica e responsável pela criação do Coral Bach, do Centro de Criatividade Musical de Olinda e da Orquestra Pés Descalços. Virtuoso, tocava flauta doce e violino. No Ministério da Justiça, montamos com ele um programa de ressocialização, nas penitenciárias, ensinando presos a tocar instrumentos. Permitindo que pudessem aprender um ofício e, ao sair, com ele se manter. Funcionando ainda como estímulo para outros apenados. Um case de sucesso.

Sábado 20/06, na coluna Voz do Leitor do JC, certo Antônio José dá conta de que perdemos Mennuci para o Covid. Lamento. Dante, na sua divina Comédia, pergunta “O que é a glória?”. E, num diálogo com um amigo de San Gimignano (Toscana), Guido Cavalcanti (até dizem que os Cavalcanti no Brasil vieram dele), fala na fórmula Pater Sancte: sic transit gloria mundi! ‒ usada (até 1963), pelos papas, na sua primeira caminhada pela Praça de São Pedro.

Três vezes se ajoelhavam e, três vezes, repetiam a frase, as glórias do mundo passam. Sei disso. Passam. Mas choro por ele. Schubert compôs, em 1822, apenas os dois primeiros movimentos de uma bela Sinfonia em si menor (Alegro Moderato, Andante com Moto). E parou por ai, sem que se conheçam as razões. A obra é conhecida como Sinfonia Inacabada.  Pensei no compositor austríaco ao ler a notícia de agora. Porque a trajetória inacabada de Menucci, grandiosa, merecia mais que só um rodapé. É injusto. Mas segue a vida, para o amigo Pessoa (Reflexões) só “o lado de fora da morte”.  


José Paulo Cavalcanti FilhoÉ advogado e um dos maiores conhecedores da obra de Fernando Pessoa. Integrou a Comissão da Verdade. Vive no Recife.

jp@jpc.com.br

2 thoughts on “Só um rodapé. Por José Paulo Cavalcanti Filho

  1. Jurista Dr. José Paulo, o senhor não me conhece, mas, conheceu bem o meu pai, o médico Dr. José Maria Faria. Sei que ele, como eu, sentiríamos juntos, a vida ceifada pelo COVID do grande Maestro Menucci! O meu pai amava música e, dele, herdei o talento musical. Perdemos um Maestro, ele, eu e, todos os amantes da excelência musical.

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