ÓDIOS

Os ódios não podem prevalecer. Por Charles Mady

ódios
PUBLICADO ORIGINALMENTE NO JORNAL DA USP, EDIÇÃO DE 15 DE JULHO DE 2021

Muito providencial, pelo momento tenso que se encontra o Oriente Médio, o artigo do professor Dennis Lerrer Rosenfeld em coluna do Estadão, “Hamas e o terror”, de 24 de maio último. Em seguida, a Folha de S. Paulo publica artigo intitulado “Hamas faz guerra contra acordos de paz de Israel com países árabes”, de Jaime Spitzcovsky, no dia 29 de maio. O tema é muito delicado, por estar extremamente polarizado, com altas doses de paixão e sentimentos de ódio e vingança, que cegam a visão dos interessados na questão. Aí reside o perigo, pois de forma consciente, ou inconsciente, a razão é abandonada, dificultando sua solução.

Ao invés de evoluirmos humanamente para uma subsistência pacífica, migramos para o antissemitismo, o antiarabismo e a islamofobia, todas reações demonstrando o que há de pior no ser humano. Poucos opinam, por justificados temores, e quando ideias construtivas surgem, logo são atacadas e demonizadas por elementos radicais que, infelizmente, são muitos. Basta ler os comentários de leitores da imprensa internacional, e principalmente local, e receber informações altamente racistas, sectárias e xenófobas, indignas de seres humanos tidos como educados, e civilizados.

Os autores partem de duas premissas. Uma, utilizando o termo paz, considerando com total razão, o que quase todos pensam, e querem, que é a aceitação e realização do Estado da Palestina, reconhecido pela ONU, ao lado, e em paz, com o Estado de Israel, com total respeito aos direitos humanos. Não permitir que mitos históricos, religiosos e nacionalistas, que todos os povos têm, ou já tiveram, guiem as soluções. Já vivemos imperialismos deletérios, baseados em pretensos direitos geográficos, raciais, religiosos, movidos por interesses políticos e econômicos, que tiveram consequências desastrosas para a humanidade. E os paradigmas preconceituosos são facilmente aceitos como sendo verdadeiros e incutidos em mentes desinformadas, tal e qual a forma de propaganda de Goebbels, que tanto ódio e destruição deixou de legado. Muitos se enfraquecem pela falta de lógica histórica, geográfica e religiosa. São pensamentos criados por mentes doentias, e educados para assim pensar, e odiar, e procurar vinganças, que nunca terminam.

Infelizmente, encontram terreno fértil para isso, em função de más informações, consequentes a interpretações sectárias e racistas das Escrituras. Um mínimo de informação, de diálogo, de respeito pelo outro atenuaria os preconceitos. Quantos leram, e interpretaram de forma adequada, o Alcorão, a Torah e a Bíblia? O cinema “educou” mais que os livros. Essa “educação” é levada para escolas, e crianças, que são altamente suscetíveis, tornam-se crentes de falsas verdades, e futuros fanáticos. O real ensino das lições de pensadores humanistas, de Sócrates a Paulo Freire, transmite que o debate de diferentes opiniões ensina, esclarece, enfim, educa. O diálogo pressupõe construção, e não destruição. O terrorista é um idealista frustrado e fundamentalista, que conclui que sua visão unilateral é a verdadeira. É melhor destruir o oponente, a entendê-lo.

O Oriente Médio foi por mim utilizado como exemplo do que se passa no mundo. A realidade de nosso país é semelhante. Deste ponto, vamos comentar a segunda premissa dos autores, que unilateralmente acham um culpado. É muito fácil culpar um lado, pois ambos têm erros. É só apontá-los. Ao julgarmos, e justificarmos nossos erros pelos erros dos outros, pode-se falsamente aceitar e admitir os erros como “normais”, necessários para se atingir um determinado fim, conveniente para um lado, mas não para o outro, ferindo o que entendemos como ética e moral. Por ser de interesse de um lado, passa a ser aceitável, e justificável. O injustificável passa a ser justificável, de acordo com a catequese de Goebbels, como lembra muito bem o primeiro autor, demonizando o oponente. Essa forma de propaganda, que tem um poder imenso, é muito utilizada, gerando guerras de informação. Quantas tragédias a humanidade assistiu, graças a essa amoralidade? Os fatos pregressos negativos são utilizados para culpar o outro lado. Demonizar um lado não leva à compreensão, e bloqueia qualquer iniciativa construtiva. O Hamas é culpado? O Bibi é culpado? Quem é o maior culpado? E o ódio não para de aumentar. É a “arqueologia do ódio”, que chega até Abrão. Matam-se, sem se conhecerem, simplesmente por terem outras opiniões, ou por vestirem camisas com outras cores. E os corporativismos radicais aumentam assustadoramente, perpetuando suas escolas malignas.

Como disse alguém, à beira da morte, pendurado em uma cruz. “Eles não sabem o que fazem.”

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–  Charles Mady,  Professor associado do Instituto do Coração (Incor) e da Faculdade de Medicina da USP

Diretor
Unidade Clínica de Miocardiopatias e Doenças da Aorta
InCor – HCFMUSP

charles.mady@incor.usp.br

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