Chumbo Gordo

A inimiga comum de Lula e Bolsonaro. Por Edmilson Siqueira

INIMIGA

A INIMIGA COMUM DE LULA E BOLSONARO

EDMILSON SIQUEIRA

…Bolsonaro, embora não tenha perfil de cachaceiro, é muito mais bravateiro que Lula. Ambos, desde o início dos respectivos governos, elegeram a Rede Globo de Televisão como “inimiga a ser derrotada”. Coincidência?…

 

Lula presidente era bravateiro, principalmente quando discursava sob efeitos de umas canas. Bolsonaro, embora não tenha perfil de cachaceiro, é muito mais bravateiro que Lula. Ambos, desde o início dos respectivos governos, elegeram a Rede Globo de Televisão como “inimiga a ser derrotada”. Coincidência?

Não é novidade que governos corruptos e/ou com vocação para ditaduras, ataquem a imprensa. E, se se transformam em ditadores, acabam com ela fisicamente. Os ataques às vezes são genéricos, mas no caso de ambos, corruptos e pretensos ditadores, os ataques à emissora tiveram duas razões, ambas próprias de políticos inomináveis: criavam um “inimigo” perene, muito útil a governos autoritários, como muito bem nos mostrou George Orwell em “1984”, e davam motivo para alianças com outras redes de tevê que sempre estão à disposição do poder para aumentar seus lucros e cujos donos têm o mesmo caráter desses governantes.

O petista, assim que pôde, investiu pesado numa concorrente da Globo no campo da TV paga, a Record News. Esteve na inauguração ao lado do honestíssimo Edir Macedo, deve ter discursado e botou o governo à disposição da emissora. O canal, uma cópia mal acabada de outros dedicados apenas às notícias, não trazia novidade alguma, fazia um jornalismo medroso e chapa branca (quando as notícias do governo são dadas como elas chegam dos assessores de imprensa do governo que, por determinação do cargo, não podem escrever nada contra o patrão). Rigoroso e audaz a Record news só ficava quando inventava ou requentava notícias com algum conteúdo contra Rede Globo. Era uma forma de agradar ao governo e de tentar desbancar a líder absoluta de audiência no Brasil inteiro.

O governo petista, por sua vez, respondia ao agrado e ao projeto de minimizar a importância da emissora dos irmãos Marinho. Gordas verbas publicitárias eram despejadas na sacolinha do bispo. Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Petrobras, Eletrobras e BNDES, entre outros,  faziam fila nos intervalos comerciais e nos patrocínios das atrações.

Outra rede de televisão também entrou na ciranda do governo petista. Foi o SBT, cujo dono, Silvio Santos, considera que todo governo é seu patrão e não tem a mínima vergonha na cara de influenciar no jornalismo da emissora no sentido de que ele seja o mais chapa branca possível. O SBT chegou a produzir inúmeras matérias favoráveis a Lula e ao governo em geral. E apontou canhões contra José Serra, candidato rival do PT e que ia ao segundo turno com chances reais de ganhar. Claro que não foi só por isso que perdeu, mas o SBT ajudou. E tudo isso aconteceu depois de uma viagem urgente de Silvio Santos a Brasília e de uma conversa dele com Lula. Assunto da conversa? A iminente falência do banco Panamericano de Silvio Santo. A falência se devia à, digamos, má gestão da diretoria. Pois não é que a Caixa Econômica Federal comprou o Panamericano, para surpresa do mercado? O site “Quero Ficar Rico”, de Rafael Seabra, assim comentou a compra do Panamericano pela Caixa: “A Caixa Econômica Federal comprou em dezembro de 2009, por R$ 739,2 milhões, 49% do capital votante e 35% do capital total do Panamericano. A Caixa diz que a operação foi feita “adotando as melhores práticas do mercado”, mas fica a pergunta: por que o rombo não foi detectado nas auditorias feitas antes da compra? Alguém se habilita a respondê-la?” O rombo a que se refere o autor do site foi de “apenas” R$ 2,5 bilhões.

Por essas e outras, jamais se ouviu do governo Lula ou daquela mulher que o sucedeu, qualquer crítica à Record ou ao SBT.

No governo Bolsonaro, nos primeiros dias após a posse, ele desautorizou um de seus ministros que têm gabinete no Palácio do Planalto por ter marcado um encontro com o diretor da Globo que trata de relações com o governo. “Ele quer receber nosso inimigo aqui? De jeito nenhum!” esbravejou o bravateiro, dando a senha para que seu rebanho passasse a atacar mais ainda a Globo e oficializando o primeiro dos muitos inimigos que ele e seus filhos iriam criar dali pra frente. O negócio era passar a impressão de que o governo era ruim porque “eles não nos deixam em paz para governar.” Não deu certo, claro, mas eles continuam tentando.

Aquilo que Bolsonaro pensa ser o ataque mais duro contra a Rede Globo de Televisão, já aconteceu duas vezes, pelo menos publicamente: é berrar que não vai renovar a concessão da emissora, que vence em 2022.

Demonstrando um já costumeiro total desconhecimento do assunto que fala, Bolsonaro pensa que, com um simples decreto ou com a negativa de assinar uma renovação, pode causar o fim da emissora que pertence a um grupo que fatura mais de 14 bilhões de reais por ano (2019), “é assistida por mais de 200 milhões de pessoas diariamente, sejam elas no Brasil ou no exterior, é a segunda maior rede de televisão comercial do mundo, atrás apenas da norte-americana American Broadcasting Company (ABC) e alcança 98,56% do território brasileiro, cobrindo 5.490 municípios e cerca de 99,55% do total da população brasileira.” (Wikipédia).

Para conseguir tal façanha, ele precisa, primeiro, que o Ministério incumbido de analisar a renovação da concessão encontre motivos técnicos ou financeiros para sugerir ao presidente que não assine a concessão. Como dificilmente encontrará e se, mesmo assim Bolsonaro negar, a renovação da concessão segue para o Congresso. Ali, a negativa de Bolsonaro terá de ser aprovada por dois quintos (algo em torno de 240 votos) dos deputados e senadores. E, se por acaso, a concessão não for renovada, cabe recurso à Justiça para verificar se a decisão não foi política e sim baseada em critérios técnicos. Trata-se de um processo que, caso Bolsonaro cumpra essa bravata, não deve terminar em 2022. Ou seja, só terminará no seu mandato se ele for reeleito.

Como se vê, é muito difícil cassar a concessão de uma emissora de TV sem motivos técnicos que embasem a medida. Na verdade, Bolsonaro, como Lula, odeia não só a Rede Globo, mas todo veículo que insista em fazer jornalismo como deve ser feito. Os ataques à Folha, ao Estadão e ao Antagonista (site e revista) mostram que o problema desse governo é o querer ser bajulado por todos enquanto desfila sua gigantesca incompetência.

Ao contrário dos governos petistas que se encalacraram na ideologia com validade vencida que nada produzia e na fantástica corrupção, o governo Bolsonaro mostra mesmo total incapacidade de governar, poucos ali sabem sequer o que é ideologia e têm vaga noção do conservadorismo que pensam estar pregando ou fazendo.

Enfim, Bolsonaro odeia a Rede Globo e o jornalismo sério do Brasil porque odeia que falem verdades que escancaram suas mazelas e incompetências. Principalmente quando essas verdades chegam a quase todos os 210 milhões de brasileiros todos os dias.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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