METAMORFOSE

Metamorfose ambulante (“Eu prefiro ser”). Por Edmilson Siqueira

METAMORFOSE AMBULANTE

(“EU PREFIRO SER…”)

EDMILSON SIQUEIRA

… Continuando com sua metamorfose ambulante – nada a ver com a simpática música do roqueiro que, se vivo fosse, seria uma mosca na sopa do bolsonarismo – os inacreditáveis ataques ao meio ambiente podem render ao Brasil uma reprimenda mundial e, pior, o desvio de bilhões de dólares que deixarão de entrar no país em represália à destruição da natureza por aqui…

METAMORFOSE

O governo do presidente Jair Bolsonaro vai, aos trancos e barrancos, se transformando na mais completa tradução de um desastre. De um Ministério 50% competente – o que no Brasil é uma raridade – temos agora um deserto de ideias e ações. Ninguém se entende, todos preferem bajular o chefe ao invés de tentar ajudar aquela anta, há disputas por projetos ruins, há ideias obsoletas e brigas por cargos e aparições em “lives”, que se tornaram uma marca registrada da mediocridade geral.

O último ministro a virar suco foi Paulo Guedes. Defensor de uma agenda liberal radical, o economista foi cedendo à ignorância vigente e, pressionado pelas novas aliança do chefe, virou um fantoche nas mãos de militares que têm poder até de lhe calar a boca em público. Hoje, Guedes, uma sombra do entusiasmado ministro do início do governo, defende mais impostos para cobrir rombos, não fala mais em privatizações, faz palestras que são desmentidas horas depois pelo presidente ou por um milico do palácio e deve estar vendo a diminuição flagrante de convites para encontros com entidade representativas do PIB nacional, já que o que ele fala não tem mais tanta importância.

Importante, para Bolsonaro, é a nova base aliada com seus projetos “milagrosos” para a economia, e seus auxiliares empenhados em impedir punições para corruptos. A primeira turma é o famoso Centrão, aliado dos governos desde que Portugal dividiu o Brasil em capitanias hereditárias. São especialistas em saltos de vara para elevar a inflação e em corridas rasas para enriquecimento ilícito, sem barreiras.

Já do segundo grupo fazem parte a AGU e a PGR, cujas funções são exatamente contrárias às que vêm praticando, vários ministros do STJ, alguns do STF e a turma aparelhada pela esquerda do CNJ. Juntos, estão destruindo a Lava Jato, transformando-a em ações esporádicas que, vez em quando, deve pegar algum corrupto que terá a vida inteira para se defender, em liberdade, por supuesto, com o dinheiro que roubou. Além de mexer na legislação de modo que ela se transforme em total garantia da impunidade, estão massacrando membros da Lava Jato que se notabilizaram pelo combate à corrupção, usando as máquinas de destruir reputações que, nesses infernais tempos de redes sociais, provocam efeito devastador em pouquíssimo tempo. Dallagnol e Moro, por exemplo, podem se transformar em párias nesse país dos absurdos e perderem a credibilidade dura e honestamente construída.

Continuando com sua metamorfose ambulante – nada a ver com a simpática música do roqueiro que, se vivo fosse, seria uma mosca na sopa do bolsonarismo – os inacreditáveis ataques ao meio ambiente podem render ao Brasil uma reprimenda mundial e, pior, o desvio de bilhões de dólares que deixarão de entrar no país em represália à destruição da natureza por aqui.

O general Mourão, sobre quem recaíam algumas parcas esperanças de substituir o insano presidente com, pelo menos, um pouco de bom senso, virou suco também: guindado à condição de “defensor” da Amazônia, hoje está mais para motosserra, apontando suas afiadas correntes para biomas centenários e diminuindo, só no papel e nas declarações, os incêndios que consomem nossas matas.

A grande metamorfose – embora Bolsonaro nunca tenha sido realmente o que prometeu ser durante a campanha eleitoral – ocorreu quando ele descobriu que podia comprar milhões de votos distribuindo dinheiro para a população mais carente. Ele que sempre foi adepto de outro tipo de distribuição, como comprovam as investigações nos gabinetes de seus filhos e em seus próprios da época de deputado, se viu obrigado, com a pandemia, a sustentar uns 20 milhões de brasileiros. E seus índices de aprovação se elevarem na mesma proporção que as filas nas portas da Caixas Econômicas. Ele gostou, claro.

Ao gozar a delícia da onda da “aprovação de seu mandato” nas pesquisas, simplesmente desconsiderou a terrível situação dos cofres públicos e ordenou ao vassalo Guedes que se virasse para arranjar dinheiro para dar uma esmola maior que a de Lula aos pobres e desvalidos do Brasil. Guedes, obediente, primeiro falou em recriar a CPMF com outro nome, depois, em congelar benefícios de aposentados, depois em tirar dos precatórios e do Fundeb para satisfazer o apetite bolsonarista por aprovação, visando, claro, sua própria reeleição em 2022.

Só que nenhuma das “criativas” soluções do outrora liberal ministro da Economia foram aprovadas. Não que o capitão não quisesse emplacar qualquer uma delas. Foi o mercado e a sociedade minimamente organizada que berrou contra as aberrações. E os juízes que restam estão fazendo o que devem.

Assim, hoje, quando escrevo essas linhas, a única coisa que se sabe é que o tal do Renda Brasil vai ter de ser criado, até mesmo por uma “medida de militar” e serão uns 300 paus mensais para fazer a alegria momentânea dos eleitores de péssima ou nenhuma renda. Como o presidente quer ver sua aceitação crescer e chegar forte em 2022 para se reeleger, vai fazer de tudo para manter esse eleitorado comprado pela barriga, como Lula fez para se reeleger e para eleger e reeleger Dilma.

Só que essa metamorfose ambulante de Bolsonaro e a falta de dinheiro nos cofres e no orçamento podem dar nisso: chegarmos em 2022 com um país estraçalhado, com Bolsonaro sem gente até pra servir cafezinho, com caos econômico, com inflação alta, com dívida pública explosiva, com desinteresse de grandes países em comprar ou investir em quem queima suas florestas todas e um cenário desesperador no horizonte: a esquerda pode se aproveitar disso tudo e eleger outro demagogo populista no lugar dele.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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