TRAGÉDIA

A próxima tragédia. Por Edmilson Siqueira

A PRÓXIMA TRAGÉDIA

EDMILSON SIQUEIRA

…o implicado na Lava Jato por corrupção, Artur Lira, iniciou sua campanha para a presidência da Câmara, Jair Bolsonaro publicou um decreto isentando de imposto a importação de revólveres e pistolas. Como disse O Antagonista, “quem esperava uma vacina importada vai ter que se contentar com uma Beretta”…

TRAGÉDIA

No mesmo dia em que o implicado na Lava Jato por corrupção, Artur Lira, iniciou sua campanha para a presidência da Câmara, Jair Bolsonaro publicou um decreto isentando de imposto a importação de revólveres e pistolas. Como disse O Antagonista, “quem esperava uma vacina importada vai ter que se contentar com uma Beretta”.

Arthur Lira, um dos poderosos chefões do Centrão é o candidato de Bolsonaro, que já há algum tempo não esconde o desejo de fazer parte da dessa quadrilha, aquela mesma com a qual o general Heleno, uma espécie rara de general que lambe a bota de um ex-capitão, fez paródia numa reunião do partido, mudando a letra de conhecido samba. Ele até cantou: “Se gritar pega ladrão, não fica um no Centrão” ou algo parecido, para delírio da plateia. Eram tempos em que o paladino da Justiça ia derrotar todos os corruptos do poder. Ainda não se sabia que ele próprio e sua família, haviam enriquecido roubando dinheiro público do salário de seus empregados. Não enriqueceram tanto roubando do erário quanto um Sarney ou um Lula, mas viviam muito bem com todas as contas pagas pelo que roubavam dos vencimentos dos empregados em seus gabinetes de deputados ou vereadores.

A campanha de Lira já se escancarou por aí, com cartaz bem feito por profissionais. E ele mesmo é um profissional, naquele sentido em que o saudoso Tom Jobim se referiu em frase famosa. Pois Lira foi ao PT em busca de votos para sua eleição. E prometeu não só mudar a lei da Ficha Limpa como também buscar uma nova forma de financiamento dos sindicatos. PT e CUT salivaram ao ouvir tão doces propostas.

A lei da Ficha Limpa é aquela que impede Lula – e outros corruptos da mesma laia, condenados como ele – de concorrer em qualquer eleição. A mudança prometida por Lira não se sabe qual é, mas pode ser um casuísmo qualquer que viria ao encontro dos desejos do PT e de Bolsonaro. O quê? Bolsonaro vai ajudar a limpar a ficha suja de Lula para ele concorrer à presidência da República? Simples: com a penca de candidatos de centro se viabilizando por aí, nada melhor que ressuscitar a guerra dos extremos (direita e esquerda) e reviver a briga de 2018. Aí Bolsonaro aparecerá como o único que pode derrotar o PT num segundo turno. Um raciocínio rasteiro e fácil, próprio das pequenas mentes que hoje estão no poder. Mas faz sentido e deve ser com isso que Bolsonaro sonha para 2022: enfrentar um Lula cheio de telhados de vidro, já perto dos 80 anos e com a esquerda dividida, pois ninguém mais aguenta a ditadura lulopetista.

Já o arranjo para financiar os sindicatos significa simplesmente tirar dinheiro do nosso bolso para dar vida boa às milhares de entidades de “trabalhadores” espalhadas pelo Brasil e seus vagabundos dirigentes. Todas essas entidades, como se sabe, são abrigadas em outrora gigantescas centrais sindicais e que ajudam a financiar partidos de esquerda, embora haja lei proibindo tal prática. O gigantismo das centrais se devia justamente aos bilhões de reais surrupiados de todos os trabalhadores, fossem sindicalizados ou não, que eram entregues aos dirigentes dessas entidades. Lula se incumbiu de criar uma lei que liberou as centrais de prestar contas desse dinheiro tomado via imposto sindical. Ou seja: a lei absolvia de antemão os dirigentes, pois todo dinheiro público encaminhado a qualquer entidade tem que ter, posteriormente, minucioso relatório de prestação de contas. Sem precisar prestar contas sobre o que faziam com os bilhões de reais, a festa ficou completa: dirigentes cada vez mais ricos e partidos de esquerda cada vez com mais recursos para suas campanhas e também enriquecimento de seus presidentes.

Só esses dois passos do candidato de Bolsonaro à presidência da Câmara já são mostra suficiente do que nos aguarda por aí caso o moço seja eleito. Voltaremos a ter um PT com Lula à frente em campanha para a presidência e tudo que isso pode significar de ruim para o Brasil. E com centrais sindicais fortes, financiando a campanha eleitoral dessa gente.

É isso que Bolsonaro quer proporcionar ao Brasil em sua reta final de governo. Claro que nem vou entrar na guerra das vacinas, uma episódio que nos remete à Idade Média e nos envergonha perante o mundo. A guerra pela presidência da Câmara, no seu primeiro dia, já nos enche de temor pelo futuro próximo. Num país com mais de 6 milhões de casos de covid-19, com quase 180 mil mortos, com hospitais voltando a lotar leitos comuns e de CTI e UTI, a desgraça de um membro do Centrão, apoiado por Bolsonaro, abocanhar um dos cargos mais importantes do Brasil, é mais uma enorme tragédia que nos espera na próxima esquina.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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