Chumbo Gordo

O Midas invertido. Por Edmilson Siqueira

O MIDAS INVERTIDO

EDMILSON SIQUEIRA

…Bolsonaro está prestes a conseguir, com apenas um ato e em apenas alguns dias, provocar fuga de investimentos no Brasil, aumentar consideravelmente o dólar com reflexos negativos em toda a economia, fazer a Bolsa de Valores acusar uma queda que não via há um bom tempo, provocar uma perda de valor na Petrobras que ela não via desde os tempos tenebrosos  do Mensalão. Feito um Midas invertido…

É assim ó: as emissoras que adoram dinheiro público e vendem até a mãe por uma publicidade oficial – SBT, Record, Band, Rede Vida e outras, inclusive rádios – pedem dinheiro a Bolsonaro pra continuar com o noticiário favorável. O presidente, que só quer ver noticiário favorável, embora seja difícil sair notícia boa desse energúmeno, ordena à Petrobras que faça publicidade nessas emissoras, gastando 100 milhões de reais não previstos no orçamento da empresa. Como a Petrobras atualmente é dirigida por um homem sério, que vem recuperando a empresa que sofreu a pior crise de sua história nas mãos dos governos petistas, ele recusa a fugir do orçamento e despejar essa fortuna só para as emissoras publicarem apenas notícias boas do governo.

Diante da recusa, Bolsonaro resolve demitir o presidente da Petrobras, usando o poder de sócio controlador do governo. E inventa uma desculpa qualquer, que não havia afinidade entre eles, que ele estava em home office desde o começo da pandemia, sem tocar no ponto que a Petrobras estava passando por uma recuperação espetacular. Usando, como sempre, sua ignorância, sem dar bola às consequência na economia, Bolsonaro anuncia o nome do substituto, mais um general, já que ele é louco por fardados, como revelou Ruy Castro na sua coluna  na Folha.

Só que a demissão do presidente de uma empresa pública de capital aberto é mais complicado do que demitir um ministro. Primeiro que precisa passar pelo conselho da empresa o nome do novo presidente. Para tanto, foi necessário o ministro Paulo Gudes, que de economista liberal virou um estafeta do capitão, se reunir com conselheiros e diretores para amenizar o clima de raios e trovoadas que começou a pairar sobre a Petrobras. Mas Guedes já não consegue acalmar o mercado só com palavras faz tempo.

O dólar, esse rebelde, bateu nos R$ 5,6  na manhã desta segunda-feira, depois abaixou um pouco, mas, sem interferência do BC, vai subir muito. Com interferência subirá um pouco menos. E nas Bolsas de Valores, daqui e dos EUA, onde as ações da petrolífera também são negociadas, o tombo beirou os 20%. Ou seja, um papel promissor até há 15 dias, pode virar um mico. Basta o general da hora resolver fazer a “política” de Bolsonaro na empresa.

Ah, mas ações se recuperam, o mercado é como um rebanho eletrônico, disse um meio desesperado Hamilton Mourão, vice-presidente e bombeiro dos incêndios bolsonaristas nas horas vagas. Sim, ações se recuperam, mas antes disso dão um prejuízo danado e não só aos acionistas.

Por exemplo: quem estava pronto pra investir em petróleo no Brasil e via com bons olhos a administração da Petrobras, vai segurar seu rico dinheirinho para mais tarde ou, pior, jogar em outro país, onde não se brinca com coisa séria e o presidente não é um psicopata. A brecada nesses investimentos significará, na outra ponta, menos empregos, no mínimo.

E tem o dólar. Com ele mais caro, as exportações ficam mais sedutoras. Com isso, o mercado interno pode ter oferta reduzida que fará com o que valor aumente. Soja, por exemplo. Exportar mais dará muito mais lucro. E pro mercado interno compensar, o preço sobe. E quem paga? Sim, todos nós, consumidores.

A soja é apenas um exemplo, porque há uma cadeia enorme de produtos que aumentam de preço na esteira do dólar, inclusive combustíveis que, na boa política implantada pela Petrobras pra não ter prejuízo, seguem os preços no exterior.

Quando escrevia esse artigo, o índice Bovespa despencava mais de 5% e as ações da Petrobras estavam rumo ao abismo, com 22% de queda.

Resumindo: Bolsonaro está prestes a conseguir, com apenas um ato e em apenas alguns dias, provocar fuga de investimentos no Brasil, aumentar consideravelmente o dólar com reflexos negativos em toda a economia, fazer a Bolsa de Valores acusar uma queda que não via há um bom tempo, provocar uma perda de valor na Petrobras que ela não via desde os tempos tenebrosos  do Mensalão. Feito um Midas invertido, o que ele toca vira m… Sem falar no fino trato que ele e seu governo estão dando à pandemia e às vacinas. O segundo lugar em número de mortes, sendo o país o sexto em população no mundo, diz mais que qualquer coisa.

E pra completar o circo de horrores, revelou-se, na esteira da crise provocada, que Bolsonaro quer comprar, definitivamente, a consciência crítica jornalística (se é que tiveram um dia) da TV Record, do SBT, da TV Bandeirantes e de todos os outros veículos dispostos a se venderem pelos 30 dinheiros bolsonaristas, como já tinha se vendido, há pouco tempo, pelos 30 dinheiros dos governos petistas. A Globo, sempre criticada pelo rebanho bovino-bolsonarista, esteve fora das benesses dos dois governos, ou, se recebeu propaganda, não foi a troco da venda do departamento de Jornalismo para a Assessoria de Imprensa da Presidência.

Assim, com Bolsonaro no poder, o Brasil continuará sua jornada com destino ao caos. É o que mais interessa a ele, que, com certeza, está apostando num golpe assim que considerar possível. Se não nos livrarmos, constitucionalmente, dessa praga que se instalou em Brasília, corremos o risco de ver sangue jorrar antes ou imediatamente após 2022.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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