SEMANA

Uma semana tenebrosa. Por Edmilson Siqueira

… Assim, teremos uma semana que, além de ser eivada de recordes tenebrosos da pandemia de covid-19, deverá ser totalmente infectada pelo vírus da péssima política que se pratica no Brasil.

A conversa entre o senador Jorge Kajuru e o presidente Jair Bolsonaro é apenas mais um capítulo – horroroso capítulo, diga-se – da política – horrorosa política, diga-se – desse Brasil profundo, que raramente sobe à superfície e se torna público.

E o que vemos ali? Um senador que ao notar que sua base – que é a base do presidente também – não gostou de sua atuação que acabou provocando a obrigatoriedade da abertura de uma CPI contra o presidente, telefona para o presidente e se coloca a seus pés para que todos saibam que ele continua fiel ao governo e lambedor do saco presidencial. O senador grava a conversa e depois a divulga como um troféu.

Só que a conversa vai muito além disso. Ao ajoelhar-se aos ditames presidenciais, o senador não só mostra sua vassalagem explícita como faz o presidente cometer crimes de interferência em outros poderes e de responsabilidade.

A publicação da conversa, primeiro nas redes sociais e depois em todos os veículos de imprensa que perceberam todo seu potencial explosivo, foi apenas mais um passo em direção à total ausência de ética do senador, pois, ao mesmo tempo em que ganha elogios do “mito” – que ele deverá exibir aos seguidores que entortaram o nariz pelo pedido feito ao ministro do Supremo, Roberto Barroso, ela exibe também a sanha autoritária de Bolsonaro que parece induzido, facilmente, a cometer crimes de interferência em outros poderes e a provocar a ira do Supremo, que deverá reagir em bloco, reação essa cujas consequência são, por ora, imprevisíveis.

Ao mesmo tempo, complica bastante a situação de todos os senadores que, se atenderem ao pedido presidencial de “melar” a CPI, estarão rebaixando o Senado a um anexo do Palácio do Planalto.

Faltou inteligência tanto a Kajuru quanto a Bolsonaro, o que, convenhamos, não vem a ser uma novidade. Porque a investigação ampliada a governadores e prefeitos viria naturalmente sem mexer no escopo do pedido de CPI.

Ora, se as condutas no combate à pandemia vão ser investigadas, é normal que os senadores acompanhem o dinheiro que o governo federal destinou aos estados e municípios – e não foi pouco – e como foi usado esse dinheiro. Os defensores de Bolsonaro na comissão farão questão de saber como e onde foi empregada a verba toda que saiu dos cofres federais, até para tentar isentar o presidente de acusações mais duras.

Assim, o que se esbraveja hoje por aí em relação a estados e municípios, nem precisaria de uma conversa escandalosa para acontecer. A CPI, se for séria, caminhará naturalmente para todos os lados onde verbas federais aterrizaram e verificará suas aplicações.

Mas acredito que a parte da conversa que pode complicar mais ainda o já complicado governo Bolsonaro, é quando ele insiste na abertura de CPIs para investigar os membros do STF. Não que não mereçam a investigação. Alguns que estão ali deveriam responder a inquéritos criminais até. Mas um presidente não pode vir a público atiçando um senador contra ministros do STF para ele próprio se livrar de uma CPI. É uma chantagem descarada.

Essa demonstração de ignorância presidencial – que também não surpreende – deverá causar uma ira conjunta no STF, talvez apenas com a defecção do poste bolsonarista ali colocado, o ministro Kassio Marques. Com isso, a decisão de Barroso deverá ser aprovada por 10 a 1, caso Kassio Marques não vote a favor dela também, pois já que seu voto não valerá nada, ele pode pedir licença a seu chefe para dar uma demonstração, ainda que de mentirinha, de independência.

No Senado, o clima que nunca foi bom, piorou. A oposição ganhou mais combustível para atacar o “ditador genocida” e a situação ficou ainda mais enrolada para defender o presidente que, a cada dia que passa, se torna mais e mais indefensável. Os debates, que já começaram hoje pelas redes sociais, devem ganhar corpo a partir desta terça-feira, com a primeira sessão da semana. Sessão essa que não deverá ter a leitura do pedido de CPI, já que o presidente da Casa, Rodrigo Pacheco, foi aconselhado a aguardar a sessão do Supremo de quarta-feira que analisará a decisão de Barroso. Será apenas mais um dia, pois já se sabe que dificilmente Barroso será derrotado nessa. As poucas chances de derrotas foram todas por água abaixo depois da divulgação da conversa entre Kajuru e Bolsonaro.

E, para encerrar, Bolsonaro esbravejou não pela divulgação da conversa, mas pelo fato de ter sido gravado pelo senador. Ora, se não fosse gravado, não poderia ser divulgado, certo? Essa a ira bolsonarista, longe de diminuir o teor explosivo da conversa, pode derrubar a alegria de Kajuru. Ele que tanto insistiu no elogio presidencial para se ver bem com sua base, pode sofrer um efeito bumerangue com a divulgação: o gabinete do ódio deve acionar seu rebanho para chamá-lo de traidor. No mínimo.

Assim, teremos uma semana que, além de ser eivada de recordes tenebrosos da pandemia de covid-19, deverá ser totalmente infectada pelo vírus da péssima política que se pratica no Brasil.

Ouça o áudio pavoroso dessa conversa:

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Edmilson Siqueira é jornalista

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