pinto pequeno

O problema de se ter pinto pequeno. Por Myrthes Suplicy Vieira

… Melhor dizendo, para nós é fundamental que vocês entendam que o prazer feminino tem uma natureza essencialmente diferente do de vocês. Nem todas se excitam visualmente, por exemplo. Não temos (majoritariamente) o hábito de conferir o formato da bunda dos homens que passam por nós na rua, o tamanho do bíceps, das coxas, a largura do peitoral, nem o volume da mala frontal ainda em repouso…

Pinto

Muitos homens, especialmente aqueles que têm mais de 40 anos, acreditam piamente que as mulheres valorizam, se preocupam ou dão total prioridade ao tamanho de seus pênis, em detrimento de sua performance na cama.

Com exceção das atrizes pornô e prostitutas mais inexperientes – e, é claro, de alguns casos em que o membro masculino pode ser cientificamente enquadrado como infantil ou disfuncional –, receio que eles não tenham entendido muito bem o recado da natureza. O que as mulheres verdadeiramente apreciam, caros senhores, é que vocês elejam como centro de sua atenção durante a transa as múltiplas maneiras de dar prazer à mulher (que não sejam apenas relativas à penetração) e sejam capazes de se desapegar das preocupações doentias com sua estrutura corporal. Melhor dizendo, para nós é fundamental que vocês entendam que o prazer feminino tem uma natureza essencialmente diferente do de vocês.

Nem todas se excitam visualmente, por exemplo. Não temos (majoritariamente) o hábito de conferir o formato da bunda dos homens que passam por nós na rua, o tamanho do bíceps, das coxas, a largura do peitoral, nem o volume da mala frontal ainda em repouso. Embora seja verdade que as mulheres escolhem para procriação os homens com base em seu presumido melhor patrimônio genético, a imensa maioria não vai para a cama com um macho alfa com o intuito de engravidar, muito pelo contrário, aliás. Seria enriquecedor também para o aprimoramento do desempenho sexual masculino que os homens se informassem mais a respeito do papel dos feromônios na espécie humana.

A mania de assistir a filmes pornôs como preliminar para as mulheres se inspirarem para o sexo é mais recente e, provavelmente, só se instalou como forma de deferência ao parceiro, uma vez que elas sabem muito bem que para alguns isso pode ser vital. Da mesma forma, o voyeurismo contido no acompanhamento dos amassos por debaixo do edredom ou as transas explícitas que constituem o cerne de tantos ‘reality shows’ que infestam a tevê brasileira o ano todo parece não ser a melhor forma de garantir a excitação feminina.

Já um olhar sedutor, um sorriso ingênuo e terno, um ar ‘aloof’ [de não estar nem aí para o interesse despertado nelas] ou um perfume cítrico, de lavanda ou amadeirado têm o poder de despertar a imaginação feminina e fazê-las entrar em transe, antevendo os muitos prazeres de desfrutar de uma doce intimidade com os corpos de seus donos.

Também costumamos prestar muita atenção à habilidade masculina de determinar um ritmo confortável para ambos no sexo. Nada de pressa, de afobação para provar que você é capaz de levar sua parceira às nuvens em menos de 10 segundos. Como cantava magnificamente Leonard Cohen, o rito amoroso é uma dança, na qual o papel central da mulher é o de ajudar seu partner a atravessar os momentos de pânico da coreografia até que ele esteja em condições de se juntar a ela “no final do amor”. Aprendam, por favor, que as curvas de excitação de homens e mulheres são distintas e não precisam necessariamente coincidir para que o orgasmo aconteça.

Um antigo colega de trabalho dizia sempre em meio a muito riso dos ouvintes que há uma importante diferença entre eficácia e eficiência no desempenho sexual masculino. Segundo ele, eficiência é “dar três e a mulher gozar uma”, enquanto eficácia é “dar uma e a mulher gozar três”. Talvez essa possa funcionar como uma orientação relevante para os homens que ainda se sentem inseguros quanto a seu poder de fogo no emprego de outras táticas.

Mas, você pode estar se perguntando, por qual razão abordo esse tema agora? Simplesmente porque estou exausta de tomar conhecimento dos inúmeros e nojentos casos de assédio sexual perpetrados por parlamentares, assessores, ministros e presidentes de empresas estatais tão frequentes no atual governo brasileiro. Tenham certeza: a virilidade tóxica dessa gente é certamente causada pela insegurança quanto às dimensões adequadas de seu falo. Acreditem, quem tem (ou imagina ter) pinto pequeno passa a vida toda tentando compensar essa fantasiada deficiência. Ao alcançarem cargos de poder, imaginam que nenhuma mulher ousará dali em diante opor resistência aos seus apelos e desejos. Pressentem que é chegada a hora da vingança de tantas ‘tábuas’ anteriores e se espojam nos comportamentos mais esdrúxulos e reprováveis de subjugação do desejo feminino.

Tivessem eles um pouco menos de preocupação com seus egos inflados e uma mentalidade um pouco menos tacanha, saberiam que ser pinçada como companheira preferencial de uma figura de poder pode, sim, ser algo almejado como forma de status e ascensão social, mas não é sinônimo de consentimento permanente para investidas sexuais fora de hora. Como restou demonstrado à exaustão recentemente no episódio de Arthur do Val (que associou a “facilidade” de sedução das mulheres à sua vulnerabilidade financeira) e, dias atrás, também no caso do presidente da Caixa, o mais provável é que as mulheres pobres ou subordinadas a figuras de alto poder sintam mais propriamente repulsa diante de sua baixa estatura moral e falta de controle para darem vazão a seus instintos predatórios em qualquer tempo e espaço.

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 Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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