cuervos

Cria Cuervos. Por Edmilson Siqueira

… E, pior, o corvo tanto está comendo os olhos dos brasileiros que eles, cegos, tendem a eleger o criador do corvo para substituí-lo, iniciando novamente o processo de desgraças previstas e preparando o Brasil para a volta de outro corvo para comer os olhos que restarem…

cuervos
“Cria cuervos que te sacarán los ojos”

(ditado espanhol)

Quem ficou indignado quando Lula, em julho de 2005, disse que o escândalo do Mensalão havia sido simplesmente “caixa 2”, um crime menor que não cassava ninguém, mesmo sabendo que a roubalheira que ali se iniciava não tinha nada de caixa 2 e sim corrupção pura e simples? Provavelmente poucos se indignaram e muitos adotaram o discurso lulista mesmo sabendo da descarada mentira.

Depois veio o julgamento do crime e retomo a pergunta: quantos se indignaram quando Lula, o chefe de tudo, como se provaria a posteriori, ficou livre do julgamento do STF, por manobras de bastidores e por jogar às feras antigos companheiros como José Dirceu, o todo poderoso chefe da Casa Civil, que articulava tudo que acontecia no governo, mancomunado com o chefe e com alguns ministros e parlamentares?

Talvez poucos consideraram que Lula estava traindo os amigos para se manter no poder. E continuaram endeusando o chefe, como manda a boa nomenclatura stalinista, sem se indignar.

E, ao fim do julgamento, volto a perguntar: quanto se indignaram quando viram o ministro do STF, Ricardo Lewandowski, considerar que o crime de formação de quadrilha não se aplicava à quadrilha formada para subtrair do erário recursos para comprar votos no Congresso e conseguiu tirar essa acusação do capanga mór de Lula, José Dirceu, diminuindo-lhe consideravelmente a pena a ser aplicada e evitando que ele fosse imediatamente para a cadeia?

Acho que muitos até vibraram com o golpe do ministro escolhido a dedo por Lula num boteco do ABC para ser, na corte suprema, um petista de carteirinha.

Antes que o próximo escândalo, que talvez seja o maior de todos os tempos, viesse à tona, Lula e seu governo trataram de cimentar uma base com o dinheiro público. Depois de um equívoco chamado “Fome Zero”, um programa tipicamente soviético que não tinha chances de progredir, alguém teve a ideia de juntar os programas sociais do governo de Fernando Henrique, dar-lhes um nome diferente (Bolsa Família) e manter o objetivo: comprar milhões de famílias miseráveis com dinheiro público, mas suficiente apenas para tirá-las da miséria, mantendo-as na pobreza e condicionando o benefício ao voto na urna. Alguém se indignou com essa fraude eleitoral travestida de benefício social? Até hoje ela mantém os resultados: Lula conseguiu se reeleger e Dilma se eleger e reeleger às custas dos votos comprados pelo programa.

Mas então veio o Petrolão e é impossível não fazer a pergunta novamente: quem se indignou a ponto de jamais votar no PT novamente depois da descoberta do maior escândalo da história do Brasil e, talvez, do mundo? Um escândalo que envolvia cobrança de propina das empreiteiras, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e superfaturamentos de obras contratadas para abastecer os cofres de partidos, funcionários da estatal e políticos? Tudo isso ficou claro, levou muitos à cadeia, inclusive o chefão, mas Dilma foi eleita e reeleita, com o voto dos pobres e dos miseráveis (sim, eles continuaram existindo), que digitam o 13 na urna eletrônica raciocinando com o estômago (a maioria deles) e com a conhecida desonestidade (muitos outros) que consideram que um governo corrupto dá chances pra qualquer um roubar também.

O clima dividiu o Brasil ao fim do governo Dilma que, mercê uma política econômica equivocada desde o primeiro dia do governo Lula e da roubalheira desenfreada, não tinha mais dinheiro para nada e passou a cometer o crime que foi apelidado de pedaladas fiscais: toma-se empréstimo de bancos estatais para pagar contas previstas no orçamento, o que é proibido por lei.

As pedaladas levaram à cassação de Dilma, e, para tanto, seu vice, Michel Temer, soube compor com o Centrão e com os poucos políticos que realmente estavam indignados com o esculacho petista que já durava 14 anos.

O povo que se indignou, uma minoria, acabou se juntando, na eleição seguinte, aos que estavam ávidos por um salvador da Pátria à direita e, juntos, indignados e extremistas de direita, se agarraram no que havia disponível: um obscuro ex-capitão do Exército, de quem se sabia pouco e que prometia acabar com a corrupção e fazer um governo liberal na economia. O esperto ex-capitão soube capitalizar (sem trocadilho) a indignação de uns poucos com a necessidade de sangue contra o PT de outros: estava formada uma maioria para derrubar o castelo de esquerda que Lula havia construído.

O que se viu após a eleição de Jair Bolsonaro foi, talvez, o pior governo que esse país já teve, mas acho que poucos percebem que a quase destruição do Brasil nos 14 anos do PT e a falta de indignação da maioria, que ratificava seu voto no partido, levou à eleição deste corvo que agora nos come os olhos.

E, pior, o corvo tanto está comendo os olhos dos brasileiros que eles, cegos, tendem a eleger o criador do corvo para substituí-lo, iniciando novamente o processo de desgraças previstas e preparando o Brasil para a volta de outro corvo para comer os olhos que restarem.

Nesse cenário árido de ideias e pobre de indignação, criador e criatura tendem a se revezar no poder, confundindo-se entre si e confundindo a todos, ficando cada vez mais parecidos um com o outro, numa tétrica osmose cuja sobra é um chorume fétido do qual a pobreza física e mental da maioria dos brasileiros se alimenta.

Até quando? Não faço a menor ideia.

__________________________

Edmilson Siqueira é jornalista

________________________________________________

 

4 thoughts on “Cria Cuervos. Por Edmilson Siqueira

  1. Sr. Edmilson:
    Bom dia! O senhor listou, com riqueza de detalhes até, quase todas as falcatruas perpetradas por Lula e pelo PT contra o país.
    Por favor, faça O MESMO com as falcatruas perpetradas por Bolsonaro.
    Vai parecer que sou bolsonarista. Não sou, mas pouco me importa o rótulo com que vão me carimbar.
    Apenas fico indignado com essa cruzada histórica com que a maioria da imprensa, do judiciário, da cultura e outros segmentos procura esmagar um homem: é a coisa mais COVARDE que presenciei em 70 anos de vida. Não bastava fazer oposição? Civilizada?
    Lamento que o sr. tenha se alistado nesse exército. Outros jornalistas até entendo que o façam pra manter os empregos: afinal precisam alimentar a si e à família.
    Não há como colocar lado a lado, para medir honra e caráter, Bolsonaro e Lula. Não há critérios comuns aos dois.
    Repito, pra terminar: parece que sou bolsonarista mas, acredite, não sou! Mas lhe envio um PIX se o senhor fizer a lista que lhe solicitei.
    Abraço,
    A.
    P.S.: e não vou diminuir minha admiração pelo que o sr. escreve por questões de posicionamento político.

  2. Parabéns Edmilson! Seu texto está perfeito. A indignação fez parte de meu cotidiano desde a eleição de Lula. Para ambos não existem propostas para tirar o país de uma situação de “bananeiro”, apenas o medíocre interesse pessoal de poder e dinheiro. A maioria dos brasileiros é cúmplice (por ignorância ou esperteza) do mais rasteiro culto à personalidade destes seres abjetos.
    Sr. A.
    Sua frase foi: “Não há como colocar lado a lado, para medir honra e caráter, Bolsonaro e Lula. Não há critérios comuns aos dois.”
    Eu diria: não há porque não colocá-los lado a lado, pois um único e simples critério os une – são criminosos da pior espécie, insensíveis ao sofrimento de quem quer que seja – são idênticos.
    Pobre Brasil!!

    1. Sr. M.:
      Não há porque iniciar ou continuar uma polêmica que não terá fim, porque opinião é opinião, cada um tem a sua e não vai mudar porque assim é o desejo do outro. Mas chamar Bolsonaro de criminoso – e repito, NÃO SOU bolsonarista – é uma ignomínia: qual é a condenação que ele tem? O outro foi CONDENADO e Bolsonaro não chegou sequer a ser JULGADO. Se isso ocorrer no futuro, será um assunto do futuro e não de hoje, 2/8/2022.

    2. P.S.:
      Sr. M.: é um direito seu, quem entra na chuva é pra se molhar, o espaço é igualmente livre pra todos mas, por favor, comente os artigos e evite comentar comentários. Agradeço!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine a nossa newsletter