beijo na foto

Beijo na foto. Por Francisco de Paula Horta Manzano (*)

… uma melhor amiga de trabalho lhe deu uma fotografia que alguém tirou na noite anterior, na qual se podia vê-la dançando abraçada (e bem abraçada) com o seu príncipe feiínho, que estava mais para sapo mesmo, à espera de um beijo para se transformar em algo melhor…

beijo na foto

Lá com os seus trinta anos, ainda virgem, (procurem no Aurelião para saber ao certo o que vem a ser uma mulher virgem, é coisa que ainda existe em dicionários), continuava a agir como se fosse uma adolescente. Para tudo pedia permissão. Para sair, para entrar e, quando ficava indecisa, pedia permissão para pensar se queria entrar ou sair.

Sempre se lembrava das histórias ouvidas quando criança, sobre os príncipes encantados, cuja maior qualidade é a de serem bonitos. Príncipe encantado que se preze não precisa ser trabalhador, nem honesto, tampouco carinhoso ou inteligente. Basta ser príncipe e bonito. Já repararam como todos os príncipes de conto de fadas têm apenas essa qualidade? São bonitos. E só com essa qualidade são capazes de fazer uma donzela feliz para sempre. É o que garantem todos os contos de fadas.

Assim cresceu a Durvalina, sempre esperando por um príncipe que fosse bonito. Não sonhava com alguém inteligente, preocupado com a vida em si, com o mundo. Assim como nas histórias ouvidas, queria achar um homem que fosse bonito e que a fizesse feliz para sempre, como num passe de mágica. Também não era necessário ser um príncipe, pois isto lhe diminuiria muito as chances de sucesso na busca. Só desejava que não fosse preciso beijar um sapo. Queria um príncipe prontinho. E bonito.

Como não costumava se expor indo a festas ou mesmo frequentando barzinhos da moda, afinal isso iria contra todos os princípios morais que aprendera desde pequena, ia do serviço para casa e de casa para o serviço renovando a cada dia a esperança de encontrar, nesse percurso tão igual, um sapo, quer dizer, um belo príncipe que a quisesse.

Um dia, após muita insistência, aceitou o convite do pessoal do serviço para ir a um baile. Afinal, aquilo poderia ser uma grande oportunidade para se divertir e quem sabe um bom lugar para sair de lá acompanhada de um sapo já transformado em príncipe. E bonito.

Pensou até em já ir com um vestido branco, parecido com o de uma noiva, caso precisasse de um para a ocasião. Em sua ingenuidade juvenil ela ainda acreditava que hoje em dia as moças ainda se casam. E de branco.

Sentou-se à mesa e sentiu-se tentada a experimentar um pouquinho do uísque que todos tomavam. Pela primeira vez na vida tomava uma bebida alcoólica. Estava longe dos pais e aproveitou-se da ausência deles para fazer uma incursão no mundo etílico. Mesmo porque, eles não estando por perto, não tinha a quem pedir permissão.

Tomou os primeiros goles e gostou. Repetiu numa segunda dose quando começou a sentir que tudo já era tão natural para ela naquele lugar, que tudo era divertido, e aceitou o convite para dançar. Dançou como nunca havia experimentado na vida. Rodopiou, levou, foi levada pela pista e em intervalos voltava à mesa para reabastecer-se com um pouco mais do aditivo que a ajudava a viver tudo aquilo.

O acompanhante, bem, não se pode dizer que era exatamente um príncipe. Rapaz simpático, mas sem o principal requisito para ser visto como um príncipe: não era muito bonito não. Mais se parecia com um sapo mesmo, só não era verde, mas naquela altura do campeonato, depois do terceiro uísque, para quem não estava acostumada àquelas coisas, era o homem ideal! Ao menos foi o primeiro que em sua vida se aproximou o suficiente para sentir o calor de seu corpo e de quem ela pudera sentir o perfume.

No dia seguinte descobriu que a bebida servida não era das melhores, quando acordou com todos os sintomas de uma memorável ressaca. Estava se martirizando com tamanha dor de cabeça, quando sua melhor amiga de trabalho lhe deu uma fotografia que alguém tirou na noite anterior, na qual se podia vê-la dançando abraçada (e bem abraçada) com o seu príncipe feiínho, que estava mais para sapo mesmo, à espera de um beijo para se transformar em algo melhor.

Alguma coisa a enterneceu e fez vibrar seu inexperiente coração. Era só uma foto, mas lá estava ela, nos braços de um homem que já lhe parecia o ideal, apesar da nota baixa no quesito beleza.

Tá certo, não se lembrava do nome dele nem de como fazer para encontrar-se com ele novamente, mas a foto se salvara naquela falta de lembrança de todos os acontecimentos da noite anterior. Era uma prova de que ela finalmente havia sido tocada e abraçada por um homem. Ela, a Durvalina, quem diria!

Sua amiga, numa tentativa de animá-la, disse que provavelmente o moço viria atrás dela sim, que logo haveria de aparecer. E que então poderiam dar continuidade ao que haviam iniciado naquela noite. Ainda que ninguém soubesse ao certo o que havia se passado.

Mas isso não lhe pareceu tão importante assim. O mais importante era a existência daquela fotografia, que passou a guardar sempre embaixo do travesseiro e na qual, antes de apagar a luz, dava um beijo e tornava a guardar. Sonhava com anjos. E príncipes.

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(*) Francisco de Paula Horta Manzano (1951-2006) – escritor, cronista e articulista.

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