Todo político é corrupto? Por Meraldo Zisman
… tornou-se comum ouvir que “todo político é corrupto”. A frase parece forte, indignada, até moralmente superior. Mas, quando repetida sem reflexão, pode revelar não apenas revolta, mas também uma forma perigosa de conformismo.

Em tempos de redes sociais, frases prontas e julgamentos apressados, tornou-se comum ouvir que “todo político é corrupto”. A frase parece forte, indignada, até moralmente superior. Mas, quando repetida sem reflexão, pode revelar não apenas revolta, mas também uma forma perigosa de conformismo.
A psicanálise nos ensina que o narcisismo nasce quando o indivíduo se prende demasiadamente à própria imagem. Narciso, personagem da mitologia grega, apaixonou-se por seu reflexo no lago e esqueceu o mundo ao redor. Morreu preso à contemplação de si mesmo. Hoje, talvez Narciso não estivesse apenas diante de um lago, mas diante de uma tela iluminada, admirando suas certezas, seus discursos e sua falsa superioridade moral.
Um certo grau de amor próprio é necessário. Sem autoestima, ninguém se sustenta. O problema começa quando o “eu” se transforma em medida de todas as coisas. Quando alguém passa a acreditar que apenas ele é honesto, lúcido e correto, enquanto todos os outros são corruptos, ignorantes ou vendidos, nasce uma forma moderna de narcisismo social.
É nesse ponto que a frase “todo político é corrupto” precisa ser examinada com cuidado. É evidente que a corrupção existe, fere a sociedade, destrói serviços públicos, envergonha instituições e rouba esperança. Mas transformar todos os políticos em uma massa única de culpados pode ser tão cômodo quanto inútil. Generalizar é mais fácil do que fiscalizar. Reclamar é mais simples do que participar. Desprezar a política pode parecer atitude de pureza, mas muitas vezes abre espaço para os piores aventureiros.
A democracia exige vigilância, mas também exige discernimento. Nem todo homem público é ladrão. Nem toda mulher pública é oportunista. Há pessoas sérias na política, assim como há pessoas desonestas fora dela. A corrupção não nasce apenas no palácio, no parlamento ou na prefeitura. Ela também se manifesta no pequeno favor indevido, na vantagem escondida, no jeitinho aceito, na mentira tolerada quando favorece os nossos interesses.
O perigo maior está em desistir. Quando o cidadão passa a dizer que “ninguém presta”, ele entrega a cidade, o Estado e o país justamente aos que não prestam. O conformismo é uma forma silenciosa de colaboração com aquilo que se condena.
Portanto, mais do que repetir frases de indignação, é preciso votar melhor, acompanhar mandatos, cobrar transparência, defender instituições e não transformar a política em território exclusivo dos oportunistas. A democracia é imperfeita, às vezes lenta, muitas vezes decepcionante. Mas ainda é o melhor caminho para corrigirmos os erros sem destruir a liberdade.
Nem todo político é corrupto. Mas toda sociedade que desiste da política acaba sendo governada por aqueles que mais se beneficiam da desistência dos outros.
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Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.
Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

