O estetoscópio de pano e o velho tensiômetro. Por Meraldo Zisman
… entreguei-lhe o velho tensiômetro e o estetoscópio de pano. “Leve. A borracha já rachou. A flanela já desbotou. O manômetro talvez não tenha mais a precisão dos aparelhos modernos. Mas esse conjunto ainda ensina uma coisa que nenhuma tecnologia deve apagar: ajoelhar-se diante de quem sofre.”…

Formei-me na Faculdade de Medicina do Recife, hoje UFPE, em 1958. Naquele tempo, o estetoscópio não era símbolo de prestígio. Era instrumento de trabalho. O meu era simples, de borracha preta, dessas que endureciam no frio de agosto, quando o vento do mar atravessava a Praça do Derby, onde hoje está o Memorial da Medicina. A borracha rachava. O frio subia pelo tubo e chegava aos ouvidos.
Minha mãe, vendo meu desconforto, pegou um retalho de flanela xadrez e costurou em volta do tubo. O estetoscópio ganhou um pequeno agasalho. Os colegas riam: “Olha o Zisman com estetoscópio de padre.” Eu não ligava. Com aquele estetoscópio de pano, eu ouvia o mundo sem congelar a alma.
Para medir pressão, usávamos o velho tensiômetro, acompanhado do estetoscópio. Ajoelhávamos no chão de cimento do Hospital Pedro II, colocávamos a braçadeira no braço do doente, inflávamos a pera de borracha e escutávamos com atenção. Primeira vinha o calor da pele. Depois, o cheiro de álcool, suor e pobreza. Por fim, lá no fundo, surgia o som da vida: tum-tum, tum-tum. O tensiômetro apertava o braço. O estetoscópio escutava o coração.
Hoje fui ao prédio do consultório. A jovem médica colocou uma braçadeira eletrônica no meu braço, apertou um botão e virou as costas para anotar. A máquina apitou: 14 por 9. “Está ótimo para o senhor.” Eu respondi: “Minha pressão está. Minha saudade, não.” Ela não ouviu. A máquina também não.
Máquina escuta número. Não escuta silêncio. Ontem, soube que a bateria do novo medidor havia falhado. A máquina apagou; o silêncio, de repente, voltou a pedir ouvido humano. A jovem médica plantonista olhou para aquele instrumento sem vida e se inquietou: “E agora, doutor?” Abri minha velha caixa de charutos. De dentro dela, tirei o antigo conjunto: o tensiômetro gasto, a pera de borracha cansada, o manômetro envelhecido e o estetoscópio de pano, com a flanela xadrez já desbotada. Ajoelhei-me no chão e, por um instante, voltei ao velho Hospital Pedro II: medi a pressão no ouvido, no toque, na paciência e no instinto aprendido em 1958.
Quando a bateria foi substituída, a jovem médica me olhou de outro modo. “O senhor me ensina, doutor?” Eu respondi: “Primeiro, esqueça o bip. Depois, aprenda a escutar. A máquina informa. O médico compreende.” Ela encostou o estetoscópio no meu peito. Ficou um minuto calada. Depois falou baixo: “Está acelerado.” Sorri.
“Está. Coração de velho acelera quando é escutado com respeito.”
Na saída, entreguei-lhe o velho tensiômetro e o estetoscópio de pano. “Leve. A borracha já rachou. A flanela já desbotou. O manômetro talvez não tenha mais a precisão dos aparelhos modernos. Mas esse conjunto ainda ensina uma coisa que nenhuma tecnologia deve apagar: ajoelhar-se diante de quem sofre.”
Aquele velho conjunto não mede apenas pressão. Mede presença. Mede humildade. Mede decência. Mede se o médico continua ali quando o bip se cala. Naquele tempo, havia poucas faculdades, e nós auscultávamos com fome de gente. Hoje há muitas, mas alguns auscultam com fome de aparelho. O preconceito de 1958 era não ter dinheiro para trocar a borracha. O risco de hoje é ter tecnologia demais e esquecer que o doente tem pele, frio, medo e coração.
E coração, meus amigos, ainda não se escuta de longe.
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Meraldo Zisman – Médico, psicoterapeuta. É um dos maiores e pioneiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Alvaro Ferraz.
Relançou – “Nordeste Pigmeu”. Pela Amazon: paradoxum.org/nordestepigmeu

