perfume francês

De perfume francês. Por Antonio Contente

     — Não, meu, uma mulher lindíssima. Incrível. Uma deusa. Que, naturalmente, ao me ver, mostrou certo embaraço.  

— E você, certamente, também embaraçado estava…

         — Muito. A dona olha para a fechadura, olha pra mim; por fim, pede desculpas, já com o ambiente inundado pelo aroma de um maravilhoso perfume francês.

PERFUME
PERFUME

         Na minha última ida a São Paulo eu o encontrei na avenida São João. Naquela do nem sei por que, perguntei se ainda continuava morando num hotelzinho, em prédio bem antigo, dos que aceitam hóspedes e mensalistas, para os lados do Largo do Arouche. Ao responder que não, percebi certa sombra passar pelas feições do meu amigo. Após alguma vacilação, ele murmurou:

         — Na verdade, foi muito bom; enquanto durou…

         — Dois anos, não é isso? E recordo que até o mês retrasado você ainda me garantiu que não havia nada melhor do que morar em hotel.

         — Pois é… Mas sempre pinta um dia em que as coisas têm que mudar.

         — Afinal – resolvo especular – por que você demorou tanto tempo para descobrir que o hotel não te servia?

         — Bom – ele coça a cabeça – foi num sábado.

         — Num sábado?

         — Exatamente, foi num sábado que tudo começou. Ali entre oito e oito e meia.

         — Da manhã?

      — Não, da noite. Eu estava no meu quarto, posto em sossego, lendo um livro, quando escuto aquilo.

         — Não me venha com histórias de fantasmas.

         — Quem falou em fantasmas? O que escutei foi o rumor de algo na fechadura.

         — Da porta?

         — É, da porta. Alguém enfiava uma chave. Primeiro fiquei indeciso; depois, concluí o óbvio.

         — Que óbvio?

         — Imaginei que algum hóspede errara de quarto. Só que, nem acabei de pensar, a porta se abre e eu vi.

         — Um fantasma? – Volto a arriscar.

         — Não, meu, uma mulher lindíssima. Incrível. Uma deusa. Que, naturalmente, ao me ver, mostrou certo embaraço.

         — E você, certamente, também embaraçado estava…

         — Muito. A dona olha para a fechadura, olha pra mim; por fim, pede desculpas, já com o ambiente inundado pelo aroma de um maravilhoso perfume francês.

         — Mas – junto as mãos – e a chave? Como é que ela estava com a gazua da tua porta?

         — Pois é… Mas veja, a chave que ela usou não era da minha porta, mas da porta dela. Do aposento que ocupava, ao lado do meu.

         — OK – tento ordenar a confusão mental que começava a se armar – se não era a chave da tua porta, como é que abriu?

         — Abriu porque – só descobrimos isso depois – o hotel fica num prédio muito antigo, havia algumas fechaduras ainda da época da inauguração, e uma mesma chave podia abrir mais de uma porta.

         — Muito bem – coço a ponta do nariz – mas você não vai querer me dizer que mudou só por causa deste, digamos assim, mínimo, até singelo incidente, né?

         — Não, e estou vendo que você não prestou atenção num detalhe.

         — Qual?

         — Conforme te disse, a dona que surgiu à minha frente era uma verdadeira maravilha.

         — Boa mesmo?

         — Boa? Pelo amor de Deus, cara, era uma divindade. E daí, diante daquilo, eu joguei.

         — Jogou? O que?

         — Uma cascata, é claro. E combinamos um jantar para o dia seguinte.

         — Tudo bem — eu já estava envolvido pelo suspense – e você não poderia ter sido mais objetivo?

         — Objetivo como? Você nunca ouviu falar que o apressado come cru? Marcando encontro para o outro dia haveria tempo de eu planejar uma tática.

         — Que tática?

         — A óbvia: se a chave dela abria minha porta, a minha, é claro, abriria a dela. Como eu tinha uns troços pra cuidar na tarde seguinte, faria o teste no começo da noite.

         — Santo Deus! Mas, afinal, por que você deixou o hotel?

         — Bom, deixei porque, ao chegar da rua, no outro dia, fui direto ao quarto dela, e a porta de fato se abriu. Só que dei de cara com um homem.

         — Marido?

         — Não, outro hóspede. A beldade tinha ido embora.

         — E você mudou só por isso?

         — Absolutamente. Mudei porque, ao chegar no meu quarto, descobri que ela lá esteve e levou quatro notas de cem dólares, algumas outras no mesmo valor em reais, um binóculo, duas máquinas fotográficas digitais, um celular, um notebook, um relógio, um anel de formatura e um pacote de fumo pra cachimbo. Inglês…

         — E como você sabe que foi ela?

         — Porque ficou, no ar, um maravilhoso e irresistível aroma de perfume francês…

   __________

Antonio ContenteANTÔNIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

 

 


 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Assine a nossa newsletter