O crime mais que perfeito. Por Antonio Contente
Crime… Tudo começou numa conversa de fim de noite quando um alto executivo, bastante, muito rico estava de papo com um meu colega de profissão; que, com o tempo, virou conhecido cronista social.

Francamente, não sei como anda ou sequer se ainda existe a Baiúca, uma esplendida casa noturna que ficava na praça Roosevelt, nos meus tempos de São Paulo. Ia muito lá após as lides no jornal, curtir bons drinques, bater papo com os amigos e até jantar. Na época em que aconteceu o caso que vou contar hoje era um dos melhores points da cidade. Isso sem falar que tinha também a Marisa Gata Mansa, Moacir Peixoto, Claudete e Sabá. Sem falar dos esplêndidos pinguços que frequentavam o pedaço. Magníficos biriteiros como hoje em dia não existem mais.
Tudo começou numa conversa de fim de noite quando um alto executivo, bastante, muito rico estava de papo com um meu colega de profissão; que, com o tempo, virou conhecido cronista social.
— Sabe? – O milionário suspira – Vou me abrir com você.
— Claro – o então repórter bate a cinza do cigarro – os amigos são para essas coisas.
— Só que tem um troço.
— O quê?
— O que vou te contar não pode sair daqui. Tem que ficar entre nós dois e estas quatro paredes.
— Sou um túmulo.
— Ótimo – o fulano dá o vigésimo gole no uísque trinta anos – pois o problema envolve a minha mulher.
— Tua mulher?
— Exatamente, a minha mulher. Gostaria de me livrar dela.
— Ora – o outro não poderia ser mais simples – se você quer se livrar dela, saia de casa e depois peça o desquite, enquanto o divórcio, que tá pra sair, não vem.
–— Não, você não entendeu.
— Você não acabou de dizer que gostaria de se livrar da sua mulher?
— Claro. Só que quando falo em me livrar é livrar mesmo. Gostaria de matá-la.
— Calma lá – o jornalista se espanta – se você está com alguma ideia de jerico na cabeça, acho melhor fazer uma reciclagem. A gente não pode se livrar de nossas mulheres na base da eliminação sumária. O que ela fez de tão grave?
— O óbvio, né? Me passou para trás. Plantou, na minha pobre testa, um tremendo par de chifres.
— Ora, ora – o confidente estala uma gargalhada – se todo mundo que for traído matar a adúltera, não haverá cemitério que chegue em São Paulo.
— O problema não é este – o corneado geme – o problema é que ela tem me trocado por um cara que é um bosta. Se fosse, pelo menos, alguém de nível…
— Será que você não está exagerando? O que faz o galã?
— É o instrutor da autoescola na qual ela está.
— Diabo, mas só agora tua mulher resolveu aprender a dirigir?
— Na verdade ela se interessou primeiro pelo instrutor do que por automóveis. É uma barbeira completa. Nunca vai aprender.
— Olha – o jornalista junta as mãos – eu acho que com esta história de matar você está exagerando.
— Não, não estou não, queria matá-la mesmo. Só que precisaria praticar um crime perfeito. Você, que como homem de jornal lida com casos policiais talvez pudesse me dar alguma boa ideia…
— Meu Deus do céu – outro levanta as mãos – então você acha que sou expert em crimes para te sugerir algo do tipo?
— Bom, tua experiência até com coisas do submundo…
— Engano seu.
— Quer dizer que você não tem nenhuma sugestão?
Meu colega para, no tempo e no espaço. Dá alguns goles na bebida, olhando para a parede. Por fim, arfa:
— Eu, se fosse você, daria para ela um jaguar.
— Puxa – o milionário se ergue – maravilhosa ideia! Você é mesmo um gênio. Nem sei como te agradecer.
Esse papo, relativamente exótico, aconteceu num dia de começo de semana. Quando foi na sexta-feira, de volta à Baiúca, o jornalista permanecia no seu canto abraçado ao drinque de sempre, quando o ricaço chega. Dizendo logo:
— Por Deus do céu, que ideia. Que ideia aquela sua.
— Ideia minha? Qual?
— Ora, qual… Eu dei o Jaguar pra minha mulher, como você sugeriu, e ela o usou para fugir com o instrutor. Você certamente imaginava que, saindo com o carrão importado, barbeira do jeito que sempre foi, acabaria esmigalhada ao enfiar a máquina em algum poste. Seria o crime perfeito, não é?
— Errado.
— Como errado? Você não sugeriu, aqui mesmo nesta mesa, que eu desse um Jaguar para ela?
— Sim, meu querido, mas o jaguar de que eu falava era um carnívoro da família dos felídeos. Uma onça, uma pantera, meio parenta dos leões e dos tigres. Caso a fera jantasse tua mulher, isso sim seria o crime perfeito.
Daí levantou e, batendo a cinza do cigarro, saiu.
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ANTONIO CONTENTE – Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.
