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O mordomo do general. Por Antonio Contente

… Ao se ver sozinho no palacete em companhia da esperta ave verde, nosso herói começou a redescobrir o quanto odiava o, se assim podemos chamar, patrão. Por instantes teve ímpetos de se atirar sobre o emplumado pássaro para esganá-lo. Entretanto, de repente, como se uma força do imponderável dele se tivesse apossado…

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E então, nos anos brabos da ditadura militar, 1968, aquele general, dos altos escalões, foi convidado, pelo Departamento de Defesa dos EUA, para uma série de visitas, mês e pouco, ao Pentágono e vários escaninhos de Washington. Tal autoridade, da linha mais dura possível (pela impressionante rigidez, seu apelido era “Bochecha de Estátua”), possuía, contudo, um ponto vulnerável, capaz de amolecer completamente seu rígido coração. Tratava-se de um papagaio que trouxe da Amazônia ainda nos tempos de coronel, e que fora por ele criado, desde novinho, como se fosse um filho. Na véspera da viagem ao exterior o bravo cabo-de-guerra chamou um dos ordenanças que funcionava como mordomo da enorme mansão oficial que ocupava na Península dos Ministros, em Brasília. Levantou o indicador, para dizer:

         — Você já sabe, cabo Ferrari: cuide do meu papagaio como de sua própria vida.

         — Pode deixar, general… – A voz saiu fraca.

     — Isso é jeito de falar, rapaz?

         — Pode deixar, general! – O coitado se empertiga, batendo continência.

O importante e estrelado militar, como se estivesse num palco, dá dois passos pra cá, dois pra lá. Por fim se vira, olhos nos olhos do ínfimo subordinado:

         — Escuta aqui – os perdigotos voam – se eu chegar de volta da América e tiver acontecido alguma coisa com meu papagaio, você já sabe!

         — Pois não, excelência! Pois não, excelência! – Isso foi dito seguido de três continências.

Pois muito bem, no dia marcado lá se foi o general para o exterior. Inclusive, no instante em que ia apanhar o carro que o levaria ao aeroporto, tornou a cravar sobre o ordenança o abrasador olhar de ferro e fogo:

         — O papagaio! Cuidado com o meu papagaio!

Ao se ver sozinho no palacete em companhia da esperta ave verde, nosso herói começou a redescobrir o quanto odiava o, se assim podemos chamar, patrão. Por instantes teve ímpetos de se atirar sobre o emplumado pássaro para esganá-lo. Entretanto, de repente, como se uma força do imponderável dele se tivesse apossado, o humilde cabo teve aquilo que os antigos chamavam de ideia luminosa. Apoiando-se no encosto de uma cadeira geme, com sorriso quase diabólico no canto dos lábios:

         — Por Deus, como não pensei nisso antes?!

No dia seguinte, cedo, nosso herói pegou o colorido membro da família dos psitacídeos e o enfiou numa gaiola. Apanhou condução no rumo de Taguatinga, Cidade Satélite de Brasília, até chegar a uma casinha onde moravam vários rapazes e moças. Após conferenciar por mais de uma hora com o pessoal, se mandou, deixando a ave.

À noite, no casarão da autoridade, toca o telefone. A voz brada, do outro lado da linha:

         — E então, cabo Ferrari, queria saber como vai ele.

         — Ele quem? – O ordenança cai na besteira de perguntar.

         — Como ele quem, sua besta?

         — Mas general…

         — Só pode ser o papagaio, não é, imbecil?

          — Ah, sim, o papagaio…

         — Como vai ele? Estou perguntando como vai ele?

         — Está ótimo, general, está uma verdadeira maravilha!

         — Deu comida? Deu mamão papaia?

         — Dei.

         — Deu água?

         — Mineral, como o senhor ordenou; aquela francesa.

         — Ótimo. Mas veja lá, você já sabe, se algo acontecer com meu bichinho mando te fuzilar.

         — Não se preocupe, general.

Ao desligar, o mordomo não apenas tremia. Junto com cada batida mais forte do coração, remoía seu ódio:

         — Ah – grunhe – ele vai ver só. Vai ver o que é bom pra tosse!

Para encurtar a história, se passam as cinco semanas que a autoridade deveria ficar nos States. No dia do regresso, mal desembarcou diante da mansão, foi logo perguntando:

         — E o louro? Como vai o louro?

         — Não poderia estar melhor, meu general.

Largando pacotes e maletas, o fatigado viajante se precipita para o interior do palácio. Ao se plantar, embevecido, diante do seu xodó que estivera durante um mês em Taguatinga num aparelho clandestino de jovens que os milicos chamavam de subversivos, de repente, a um sinal do cabo, o louro começa a bradar:

         — Diretas já! Diretas já! Brizola! Marighella! Lamarca!

Os olhos do recém- chegado, primeiro, se arregalam. Em seguida o milico leva as duas mãos ao peito. Dá impressionante urro, para então cair, babando, fulminado por um enfarte agudo do miocárdio. Como nas velhas histórias policiais de Conan Doyle, o mordomo sorriu, diabólico. Após, passando sobre o cadáver estirado no chão, deu no bico do papagaio um bago de tâmara. Só então foi ao telefone, para ligar pedindo socorro. Isso enquanto no poleiro, à espera de outra guloseima, o emplumado gritava:

         — Lamarca! Marighela!


Antonio ContenteANTONIO CONTENTE –

Jornalista, cronista, escritor, várias obras publicadas. Entre elas, O Lobisomem Cantador, Um Doido no Quarteirão. Natural de Belém do Pará, vive em Campinas, SP, onde colabora com o Correio Popular, entre outros veículos.

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