corrupção

Quem mais matou foi a corrupção. Por Edmilson Siqueira

…Só que quando se trata de corrupção, o povo pode morrer à vontade desde que a parte do corrupto esteja garantida. Esse é o pensamento vigente entre os dois grupos e entre qualquer grupo de corruptos que se apresente como tal…

Corrupcão

A crise instalada no governo de Jair Bolsonaro, mais precisamente no Ministério da Saúde, não começou, obviamente, com a CPI da Covid. Ela já existia antes, não na forma da crise a que estamos assistindo agora, mas sim de luta interna entre um grupo do Centrão e um grupo de milicos. A briga entre eles era, vejam só, por vacina.

Sim, ambos os grupos queriam ter prioridade na compra dos imunizantes. Mas quem pensa que ambos estavam imbuídos da nobre missão de livrar o mais rapidamente possível o povo brasileiro da pandemia que já matou mais de meio milhão de pessoas (a maior tragédia sanitária da história do Brasil), se engana. Os dois grupos estavam lutando pelo velho e indecente objetivo de ganhar dinheiro, muito dinheiro de forma totalmente ilegal. Em suma: são dois grupos corruptos lutando para ver quem fica com a chave do cofre, cofre esse recheado com dinheiro retirado do povo brasileiro na forma de impostos e que se destina a ser devolvido a esse povo em forma de benefícios.

Só que quando se trata de corrupção, o povo pode morrer à vontade desde que a parte do corrupto esteja garantida. Esse é o pensamento vigente entre os dois grupos e entre qualquer grupo de corruptos que se apresente como tal.

Para eles, jamais importarão outras consequências de seus atos, desde que o único objetivo seja alcançado: aquela montanha de dinheiro, de preferência em notas de dólares, esteja garantida ao final do processo.

Assim, os dois grupos, ambos com total aval do destrambelhado presidente, passaram a agir. O que o presidente não sabia – e nem poderia saber já que sua capacidade de pensar com mais de duas alternativas não é lá muito boa – é que eles entrariam em confronto. E seriam denunciados por um servidor público que se recusou a fazer parte da tramoia.

Do lado dos políticos do Centrão, que tomaram de assalto alguns postos chaves do ministério da Saúde, o insuspeito Ricardo Barros comandava um esquema que poderia render uns 45 milhões de dólares para o grupo com a compra de uma vacina que não seria entregue. O esquema já foi aplicado quando ele era ministro da Saúde, como é público e notório. E é simples: faz-se uma compra, emite-se uma nota fiscal com condições diferentes das do contrato, essa nota passa por pessoas do esquema que, fingem não perceber o golpe em andamento e autorizam o pagamento antecipado. Aí o governo paga e quando vai cobrar a entrega da mercadoria começam os problemas do tipo “falta matéria-prima”, “a burocracia do país de origem é complicada”, “a empresa teve problemas na África” etc. e tal. Até que surge a cereja do bolo do golpe: o governo entra na Justiça cobrando a entrega do produto já pago. É tudo que os corruptos desejam. Como a grana que entrou é muito alta, uns dez por cento dela é destinada a contratar um bom escritório de advogados, desses acostumados com os trâmites forenses da capital e peritos em embargos auriculares.

No caso específico da tal invoice de 45 milhões de dólares, imagine o que um bom escritório desses não fariam com 4,5 milhões de dólares. Poderiam atrasar o processo indefinidamente ou até conseguir uma sentença favorável com nossos prestativos juízes. Exemplos não faltam.

Enquanto o grupo de políticos, com alguns milicos aliados, batalhavam nesse esquema, outros milicos, espalhados pelo ministério e fora dele, tentavam outros caminhos, envolvendo uma empresa norte-americana que vende de tudo menos vacina, um religioso que fundou um negócio que tem nome de repartição pública e que adora se envolver em falcatruas com o serviço público, alguns picaretas de baixo escalão e encontros “fortuitos” em restaurantes para tratar de vendas que chegam a 200 milhões de doses de vacinas.

…Conclui-se, pois, que se tratou de um caso pensado. As mortes foram provocadas pela corrupção. E os corruptos todos nós sabemos quem são…

Vacinas que não existem, diga-se, porque todas os fabricantes vivem emitindo comunicados afirmando que só negociam diretamente com os governos e esses “negociantes”, embora tenham relações com o governo – alguns são funcionários públicos – tratam de tudo nas sombras, inclusive com a entrada de empresas offshore que, por lei, nem poderiam entrar no negócio se ele fosse legal.

O trágico mesmo dessa tramoia toda é que ele vem ocorrendo desde o início da pandemia. E foi ela, a tramoia, que impediu que o Brasil comprasse vacinas dos grandes fabricantes quando das primeiras ofertas. Essas compras, caso tivessem sido realizadas, teriam provido o Brasil de imunizantes suficientes para que a campanha de vacinação não sofresse interrupções e hoje, mantido o ritmo de 2,5 milhões de aplicações diárias (ritmo esse que o Brasil tem condições de imprimir) estaríamos hoje com a quase totalidade da população vacinada com a segunda dose. Com a vacinação parando a cada semana por falta de vacinas, ainda não vacinamos nem 15% da população com duas doses e o vírus, com suas variantes mais fortes e mais contaminantes, continua se espalhando, lotando hospitais e matando brasileiros ainda em números muitos mais elevados do que nos países que compraram as vacinas desde os primeiros momentos.

E, claro, a participação, do genocida presidente nisso tudo é notória: enquanto desdenhava vacinas criticando suas origens, enquanto politizava a pandemia, enquanto espalhava fake news zombando da ciência, por trás de sua péssima atuação, corriam esquemas de corrupção para negociatas com outras empresas que renderiam a ele e suas quadrilhas, montanhas de dólares sujos com o sangue dos milhões de brasileiros que lotavam hospitais e cemitérios.

O que a CPI está constatando é isso: Jair Bolsonaro esteve, esse tempo todo, à frente de um esquema de corrupção aliado ao Centrão e a militares que, por interesses escusos, desdenhou a vida dos brasileiros, a ponto de colocar o Brasil como o segundo país do mundo onde a covid 19 mais matou, embora sejamos a sexta população mundial.  Conclui-se, pois, que se tratou de um caso pensado. As mortes foram provocadas pela corrupção. E os corruptos todos nós sabemos quem são.

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Edmilson Siqueira é jornalista

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1 thought on “Quem mais matou foi a corrupção. Por Edmilson Siqueira

  1. Chama a atenção que não há uma única alma neste país, de políticos a jornalistas, para desmentir o presidente cada vez que ele enche a boca para dizer que não houve um só real gasto nessa compra de vacinas, nem uma única vacina recebida – e, portanto, zero de corrupção -, como se o mérito disso fosse todo do governo! Ninguém “lembra” Bolsonaro de que se não houve pagamento foi por obra e graça de um funcionário público que NÃO deu a autorização necessária para que tal ocorresse!
    O que deveria servir como dedo acusatório contra o governo, passa a ser seu crédito!
    E ninguém desmente a criatura!

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