Berlim, 1936

Berlim, 1936

Nosso porta-bandeira em Berlim. Por Laurete Godoy

… O porta-bandeira dos Jogos Olímpicos de Berlim foi Antônio Pereira Lyra, e não Sylvio de Magalhães Padilha, como está sendo divulgado. E uma réplica do famoso sino da “Olimpíada de Hitler” está exposta no Museu do Desporto do Exército, que pode ser visitado…

JOGOS OLÍMPICOS – 1936 – BERLIM

Jogos Olímpicos de 1932 – Uma festa realizada no Fluminense Football Club do Rio de Janeiro assinalou a despedida da delegação brasileira que participaria dos Jogos de Los Angeles. O arremessador de peso Antônio Pereira Lyra, oficial do Exército Brasileiro, segurou garbosamente a bandeira nacional enquanto dois atletas que o ladeavam proferiam o Juramento Olímpico. O escritor Coelho Neto, “príncipe dos prosadores brasileiros”, proferiu o discurso de despedida aos competidores e concluiu-o dizendo:

(…) pela Bandeira do Brasil, por nós todos, pelos nossos brios e a nossa glória, o vosso combate. Não esqueçais não, rapazes, que é o Brasil, que é a Pátria, que são mais de quatro séculos de energia, de amor, de aventura, que é o Brasil que levais nos músculos.

A Cerimônia de Abertura dos jogos ocorreu no Estádio Coliseu, e no desfile inaugural, à frente da delegação, conduzindo a bandeira brasileira, estava Antônio Pereira Lyra.

Desde o embarque no navio Itaquicê até o retorno ao Brasil, um atleta anotou diariamente todos os fatos que ocorreram, elaborando o único documento escrito sobre a participação brasileira nos Jogos Olímpicos de 1932. O autor dessa preciosidade é Sylvio de Magalhães Padilha.

Jogos Olímpicos de 1936 – A Cerimônia de Abertura dos Jogos de Berlim ocorreu no Estádio Olímpico, que tinha capacidade para abrigar 100 mil espectadores. Na entrada foi fixado um sino fundido em aço eslavo, que pesava dez toneladas e tinha a gravação de uma águia, símbolo da soberania, sustentando os cinco anéis entrelaçados. Na base estava gravada a frase “Eu convoco a juventude do mundo”. O badalar do sino marcou o início da cerimônia.

No desfile das delegações, dois participantes chamaram a atenção: o único representante costa-riquenho abaixou a bandeira até o chão e Antônio Pereira Lyra não abateu a bandeira brasileira quando passou pela Tribuna de Honra, pois, por força de legislação governamental, a bandeira do Brasil “nunca se abate em continência”.

Para poupar a musculatura, um atleta brasileiro não participou da Cerimônia de Abertura, mas retornou consagrado dos Jogos de Berlim. Sylvio de Magalhães Padilha eliminou da final dos 400 metros com barreiras um campeão europeu forte candidato ao título e transformou-se no primeiro brasileiro a disputar uma final olímpica.

O tempo foi passando…

O atleta porta-bandeira do Brasil em duas Olimpíadas consecutivas, teve uma brilhante carreira. Entre janeiro de 1957 e maio de 1961, o Coronel Antônio Pereira Lyra foi Comandante da Escola de Educação Física do Exército, EsEFEx, estabelecimento que deu formação a diversos profissionais que deixaram seus nomes escritos com letras de ouro no esporte brasileiro e internacional.

O Major Sylvio de Magalhães Padilha cursou a EsEFEx, foi Chefe de Missão em cinco Jogos Olímpicos (1948 a 1964), presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, da Organização Desportiva Panamericana e Vice-Presidente do Comitê Olímpico Internacional.

Julho de 2021–Desta vez quatro pessoas se uniram para desfraldar a bandeira da verdade.

Alberto Murray Neto entrou em contato comigo perguntando sobre o atleta condutor da bandeira brasileira nos Jogos de 1932. Também comentou que está sendo divulgado que seu avô, Sylvio de Magalhães Padilha, foi quem a conduziu na Olimpíada de Berlim, e essa informação não é verdadeira. Beto, que teve o privilégio de conviver diuturnamente com o avô, “carro-mestre do esporte amador no Brasil” e Presidente de Honra do COB, ouviu-o sempre dizer que não havia desfilado em Berlim para se poupar. A Cerimônia de Abertura foi realizada no dia 1º, e ele deveria competir nos dias 3 e 4 de agosto de 1936. Além disso, o fato de não existir guardada pelo avô nenhuma foto do desfile inaugural comprova que Sylvio de Magalhães Padilha não foi o porta-bandeira nacional.

Depois da conversa com o Beto sobre 1932, recorri aos conhecimentos do dirigente filatélico Geraldo de Andrade Ribeiro Júnior. Ele me encaminhou fotos de uma publicação sobre os Jogos de Los Angeles, e vimos que a honra de conduzir a bandeira do Brasil coube a Antônio Pereira Lyra.

Efetuando uma pesquisa mais cuidadosa, descobri que a EsEFEx teve um comandante homônimo. Pedi ajuda à Taís, que enviou mensagem para o Coronel Joel F. Correa, diretor do Museu do Desporto do Exército, perguntando e transmitindo minhas informações sobre os desfiles de Los Angeles e Berlim. Ele informou o período em que o Coronel Lyra foi comandante da EsEFEx e acrescentou que todas as delegações participantes dos jogos de 1936 receberam uma réplica, em miniatura (36,5 cm de altura e 29 cm de diâmetro), do sino que soou no Estádio Olímpico, “convocando a juventude do mundo” para a cerimônia inaugural dos Jogos de Berlim. A peça oferecida à delegação brasileira encontra-seno Museu do Desporto do Exército (MDEx).

Diante dessa troca de informações, nós quatro – Alberto Murray, Geraldo Ribeiro, Joel Correa e eu – chegamos às conclusões que tornamos públicas neste momento:

O porta-bandeira dos Jogos Olímpicos de Berlim foi Antônio Pereira Lyra, e não Sylvio de Magalhães Padilha, como está sendo divulgado. E uma réplica do famoso sino da “Olimpíada de Hitler” está exposta no Museu do Desporto do Exército, que pode ser visitado.

Concluindo, a Lyra o que é de Lyra.

Respeitando o sobrenome como era escrito em ortografia da época…

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Leia também:

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Carta aberta a Pierre de Coubertin. Por Laurete Godoy

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Laurete Godoy e o Aniversário de Santos=Dumont - Revista PaulistaLaurete Godoy  – panathleta, pesquisadora e escritora

 

Observação: Parte do que aqui foi colocado se baseia em textos do Blog Alberto Murray Olímpico, acervo de Geraldo A. Ribeiro Jr., Site do Museu do Desporto do Exército e no livro OS OLIMPIÔNICOS – Heróis e Jogos Modernos, de minha autoria.

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