não se deve mexer com quem está quieto

Não se deve mexer com quem está quieto. Blog do Mário Marinho

não se deve mexer com quem está quieto

O jogo na Vila Belmiro, no sábado, seguia normalmente e o primeiro tempo terminou empatado: Santos 0 x 0 Flamengo.

Na saída dos jogadores rumo ao vestiário, dirigentes do Santos que estavam nas cadeiras resolveram provocar o atacante rubro-negro Gabigol, jogador revelado nas categorias de base santistas.

Não se sabe direito o que eles falaram, mas Gabigol não gostou e revidou da forma que sabe: marcou três gols na goleada de 4 a 0.

E depois desabafou:

Calharam bem esses três golzinhos na Vila, onde gosto muito de jogar. Tenho 10 anos de Santos. Meus pais moram aqui, eu também moro aqui, apesar de jogar no Rio. Aqui é minha cidade. Até comentei antes do jogo que estava muito feliz de vir aqui, o Santos é o clube que me projetou, sempre vejo jogos do Santos, meu pai é santista desde pequenininho. Acho que têm que respeitar minha história no clube, no último título do Santos eu estava aqui. Eles me xingaram não sei de onde, na imprensa só vai sair que eu provoquei, mas mexeram com a pessoa errada, voltei para o segundo tempo e fiz três gols.

E terminou com uma sentença:

– Mexeram com a pessoa errada.

Veja os gols na Vila:

Não, não se deve mexer

Com quem está quieto.

Em 1964, o Santos jogou contra o Botafogo (de Ribeirão Preto) na Vila Belmiro e venceu por 11 a 0.

Pelé fez 8 gols, seu recorde em um só jogo.

É bom frisar que o goleiro do Botafogo foi considerado o melhor jogador em campo. Portanto, se não fosse ele, a goleada poderia ter sido bem maior.

Veja os gols:

Depois desse jogo, o Santos foi jogar contra o Comercial, lá em Ribeirão Preto.

A rivalidade entre os dois times, Comercial e Botafogo é tamanha que o clássico local, justamente chamado de ComeFogo, sempre tem policiamento e providências especiais.

É claro que depois da escandalosa goleada, torcedores e dirigentes do Comercial encararam o jogo contra o Santos com cuidados especiais.

A meta primeira era perder de pouco. Em segundo lugar, se possível, vencer para zoar ainda mais os adversários.

Para tal façanha resolveram contratar um técnico vivido, matreiro: João Avelino.

Mineiro de Andradas, onde nasceu em 1929 (morreu em São Paulo, em 2006), Avelino havia começado sua carreira cedo, no Atlético Mineiro.

Passou por diversos times carregando a mística de Feiticeiro, de Milagreiro, livrando times do rebaixamento e sempre carregando o apelido de 71.

Seu apelido já era motivo de folclore, pois eram diversas as versões de sua origem.

Uma das versões dizia que que ele repetia sempre que 1971 seria o seu ano. Versão sem credibilidade.

Outra, que me foi contada pelo respeitado Sérgio Barklanos, jornalista que trabalhou comigo durante muito tempo nos bons tempos do Jornal da Tarde, me jurou que o apelido era em função de João Avelino ter devorado 71 esfihas em um dia. Também não dava para acreditar.

A verdadeira razão, menos prosaica, me foi contada pelo próprio João Avelino: ele serviu Exército, o chamado Tiro de Guerra, em sua cidade natal, Andradas, onde, como soldado, recebeu o número 71. Número que o acompanhou pela vida toda.

A história que se segue me foi contada pelo próprio João Avelino.

Fui contratado praticamente na véspera do jogo. A ordem do presidente do Clube foi clara: não podemos levar goleada. Perder de pouco tá bom. Se der para empatar, ótimo. Vencer então é coisa fabulosa.

Não dava pra fazer muita coisa. Escalei o time bem defensivo.

Pouco antes do jogo começar, o presidente me chamou de lado e falou:

– João, pra te ajudar, contratei um Pai de Santo pra fazer um trabalho especial.

Não sou muito ligado em Pai de Santo, mas, se é para ajudar, concordei. Além disso, não ia discordar do presidente.

O primeiro tempo foi tranquilo, com os dois times atacando e se defendendo bem. Terminou sem gols.

No caminho para o vestiário, passei em frente o vestiário do Santos e vi que havia forte discussão lá dentro. Aos berros.

Quando entrei no nosso vestiário, o presidente veio me cumprimentar.

– Tá ótimo, João. Você segurou bem o Pelé.

Nisso, o Pai de Santo aparece. E sem o menor pudor, a menor vergonha, chamou para si o sucesso:

– Presidente, eu fiz o trabalho. E o meu trabalho não foi em cima do Pelé, foi em cima do Zito. Quem é o grande líder do Santos? É o Zito. Fiz um trabalho em cima dele. Ele está uma pilha de nervos. Passei pela porta do vestiário do Santos e escutei os berros dele com o Pelé. Provoquei a briga dos dois, tirei a harmonia do Santos. Agora, é só ganhar o jogo.

Mas, acho que o Pai de Santo se esqueceu de combinar com Pelé. O cara resolveu jogar no segundo tempo: marcou três gols, perdemos por 4 a 0.

Nessa noite, caímos eu e o Pai de Santo.”

O que se soube depois, é que no vestiário, Zito, que era realmente o grande líder do time, passou um sabão em Pelé, que já era o rei do futebol, bicampeão mundial, mas naquela noite não estava fazendo nada.

Quem ouviu, contou depois que a coisa foi feia, mais ou menos assim:

– Escuta aqui, negão. Trate de jogar futebol. Cê tá achando que é o quê. Rei do futebol? Cê é rei pra suas negas, trata de jogar futebol, não fique chupando o sangue de seus companheiros. Pra mim, cê é um tremendo perna de pau. Vê se joga futebol!

Isso entremeado por inúmeros e cabeludos palavrões.

Provocado, Pelé resolveu jogar futebol.

E a cada gol que marcava, depois de dar o tradicional soco no ar, corria para o Zito e dizia:

– E aí Chulé, eu não jogo nada?

Chulé era o apelido do Zito.

Não, não se deve mexer com quem está quieto.

Veja os gols do Brasileirão

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Mário Marinho – É jornalista. É mineiro. Especializado em jornalismo esportivo, foi FOTO SOFIA MARINHOdurante muitos anos Editor de Esportes do Jornal da Tarde. Entre outros locais, Marinho trabalhou também no Estadão, em revistas da Editora Abril, nas rádios e TVs Gazeta e Record, na TV Bandeirantes, na TV Cultura, além de participação em inúmeros livros e revistas do setor esportivo.

(DUAS VEZES POR SEMANA E SEMPRE QUE TIVER MAIS
 NOVIDADE OU COISA BOA DE COMENTAR)
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