RACISMO

Racismo contra a maioria. Por Meraldo Zisman

RACISMO CONTRA A MAIORIA?
  (racismo de cor e de origem)  

     MERALDO ZISMAN

As injustiças raciais são parte das causas da sensação de medo, ansiedade, depressão — podem incrementá-las.

Em pleno século XXI existem milhares de pessoas morrendo de fome ou vivendo em situação de miséria absoluta. No Brasil de hoje, parece que a discriminação se restringe aos descendentes de escravos oriundos da África que aqui fazem parte das etnias “pouco midiáticas”, conceito que tenta esconder o preconceito presente, camuflado, ou ainda por ser politicamente incorreto mencionar preconceitos.

As estatísticas no nosso país são precárias e confundem preconceito social com camadas de baixa renda, tentando como sempre dissimulá-lo, a ponto de alguns dos nossos sociólogos hipocritamente inventarem a expressão “escravidão branda” (Gilberto Freyre) quando comparada ao tratamento dado aos escravos nos Estados Unidos.

A mídia global exploram os acontecimentos do verão no hemisfério norte, mencionando o assassinato de negros americanos pela polícia, as disparidades na saúde, os protestos e conversas em torno do racismo sistêmico. As estatísticas daquele país mostram que 76% dos entrevistados concordaram fortemente ou até certo ponto quanto à influência do racismo sistêmico sobre a saúde mental dos americanos, especialmente a saúde mental das pessoas de cor. Além disso, 83% dos americanos negros, 78% dos americanos latinos ou hispânicos e 74% dos brancos concordaram com a seguinte afirmação: A discriminação racial aumenta a ansiedade e a depressão.

Mais da metade de todos os entrevistados citaram o racismo sistêmico como algo que afeta fortemente, ou de alguma forma, sua própria saúde mental. Declararam esse distúrbio mental 68% dos negros americanos, 65% dos latinos ou hispano-americanos, 56% dos descendentes asiáticos e 51% dos brancos caucasoides. E 57% de todos os consultados disseram que a forma atual de aplicação das leis afetou fortemente ou de alguma forma sua saúde mental.

“O impacto das desigualdades na saúde mental da comunidade negra é de longo alcance, e cada um de nós, como profissionais da saúde, tem um papel vital a exercer no enfrentamento dessas questões. Em um nível básico, devemos continuar a nos esforçar para diversificar nossas afirmações”, afirma Jeffrey Geller, atual presidente da APA (American Psychiatric Association). Traduzo para o português falado no Brasil palavras ditas por ele em inglês:

“É normal se sentir assim em tempos de estresse e muitas pessoas enfrentarão esta ansiedade com consequências graves para a sua saúde mental. Por outro lado, na medida em que a comunidade negra continua a sofrer desproporcionalmente com a COVID-19, os efeitos adicionais do racismo e do trauma racial em curso estão causando outro impacto significativo na sua saúde física e mental”.

Vale salientar que um preconceito, mesmo não sendo explicável, leva a outro, como uma comorbidade psicológica ou como um complexo de discriminação irracional.

As perturbações psicológicas e toda a psicopatologia conduzem a uma lógica incompreensível.

A combinação de preconceitos seguramente aumenta a insegurança em todo o mundo.

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Meraldo Zisman Médico, psicoterapeuta. É um dos primeiros neonatologistas brasileiros. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha). Vive no Recife (PE). Imortal, pela Academia Recifense de Letras, da Cadeira de número 20, cujo patrono é o escritor Álvaro Ferraz.

 

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