TRÊS DAMAS MEMORÁVEIS

Três damas memoráveis. Que semana… Por Wladimir Weltman

TRÊS DAMAS MEMORÁVEIS
Ilka Soares
TRÊS DAMAS MEMORÁVEIS
Maria Lucia Dahl
Maria Luiza Spingarn

Minha sincera opinião sobre os políticos e sua arena cotidiana é a pior possível. A maioria deles tem egos gigantescos, que ocupam boa parte do seus cérebros limitados, deixando muito pouco espaço para a decência, a empatia e qualquer outra forma de talento que não seja a capacidade de armar esquemas, montar mutretas e pensar em estratagemas para se manter no poder. Dito isso, esta semana que acabou merece que eu deixe meu total desprezo por essa categoria e comente algo.

Enquanto a nação discute a temível possibilidade de reencaminhar ao Planalto essa aberração que temos em Brasília, esse indivíduo sem o mínimo de luz, que gosta de dizer que “Não empregaria (homens e mulheres) com o mesmo salário. Mas tem muita mulher que é competente” e que fraquejou na sua prole por ter tido uma filha mulher, depois de 4 machos (lamentáveis); ou ainda quando disse a deputada Maria do Rosário, que não a violaria, por ela não merecer. Como se fazer sexo forçada com um energúmeno desses fosse favor, ou mesmo permitido por lei.

Pois nesse momento crucial, o país perdeu três mulheres que eu admirava e gostava. Duas delas marcaram sua passagem de forma bacana no cenário artístico nacional e a terceira, de forma bem mais modesta, no âmbito familiar. Essas mulheres maravilhosas são Ilka Soares, Maria Lucia Dahl e Maria Luiza Spingarn.

Ilka Soares estava com câncer de pulmão e tinha 89 anos. Nasceu em 1932 no Rio de Janeiro. Em 1947 participou do concurso de Miss Brasil e se tornou modelo da mais loja de moda mais chique da cidade, a Casa Canadá. Em seguida os estúdios de cinema Vera Cruz a contrataram para atuar em filmes como “Écharpe de Seda” (1950), “Katucha” (1950), “Modelo 19” (1950), “Três Vagabundos” (1952), “Esquina de Ilusão” (1953), “Floradas na Serra” (1954), “Carnaval em Marte” (1955), “Sonho de Outono” (1955) e “Depois Eu Conto” (1956). Nas filmagens de “Maior que o Ódio” (1951), Ilka Soares conheceu o ator Anselmo Duarte. Eles se casaram no ano seguinte e tiveram dois filhos, Lydia e Anselmo Duarte Jr.

A partir de 1957, Ilka passou a atuar também na televisão; apresentou os programas NOITE DE GALA, RIO HIT PARADE e O CÉU É O LIMITE.

A partir dos anos 70 ingressou no elenco de diversas novelas como O CAFONA, BANDEIRA 2, ANJO MAU, LOCOMOTIVAS, TE CONTEI?, CHAMPAGNE, CORPO A CORPO, MANDALA, RAINHA DA SUCATA. PECADO CAPITAL, JOGO DO AMOR, NOVO AMOR e recentemente no seriado da HBO, MANDRAKE.

No cinema, ainda apareceu em “Pintando o Sete” (1960), “Brasa Adormecida” (1987), “Copacabana” (2001), “Gatão da Meia Idade” (2006) e “Vendo ou Alugo” (2013).

Além de Anselmo Duarte, Ilka casou-se com o diretor e produtor de TV Walter Clark, com quem teve uma filha, Luciana. E, depois com o empresário Nelson Fiuza Filho.

Cresci vendo Ilka Soares na TV ou no cinema. Sempre a achei uma mulher de beleza especial e com uma aura extremamente positiva. Aquele tipo de pessoa, que apesar de ser artista e de ter se casado mais de uma vez, nada de mal podia se dizer ou fazer. Sua reputação era revestida de teflon. Nada ruim grudava nela. Certamente uma pessoa do bem.

A outra musa falecida esta semana foi a minha querida Maria Lucia Dahl, alguém que conhecia pessoalmente e muito admirava. Pela beleza e pela inteligência. Maria Lucia era amiga de meu pai e frequentei a sua bela casa de vila em Botafogo. Ela também foi colega de redação na TV Globo, apesar de nunca termos trabalhado juntos.

Para mim é impossível separar Maria Lucia de sua imagem de musa do cinema brasileiro. Como atriz de cinema seu currículo é extenso – “Menino de Engenho”, “A Grande Cidade”, “Mar Corrente”, “O Levante das Saias”, “O Bravo Guerreiro”, ”Macunaíma”, “Guerra Conjugal”, “Um Homem Célebre”, “Motel”, “Ipanema, Adeus”, “Gordos e Magros”, “Noites Em Chamas”, “A Arvore dos Sexos”, “Deixa, Amorzinho… Deixa”, “Tem Alguém na Minha Cama”, “Revólver de Brinquedo”, “Noite em Chamas”, “Gente Fina é Outra Coisa”, “Os Sensuais”, “O Bom Marido”, “Eu Matei Lúcio Flávio”, “Os Noivos”, “Terror e Êxtase”, “O Gosto do Pecado”, “Giselle”, “Fruto do Amor”, “Eu Te Amo”, “Mulher Objeto”, “Idolatrada”, “Os Bigodes da Aranha”, “Veja Esta Canção”, “Quem Matou Pixote?”, “A Terceira Morte de Joaquim Bolívar”, “Histórias do Olhar”, “Mais uma Vez Amor” e “O Gerente”.

Na TV participou de inúmeras novelas e seriados – O ESPIGÃO, GABRIELA, ESPELHO MÁGICO, DANCIN’ DAYS, CIRANDA CIRANDINHA, AMIZADE COLORIDA, VOLTEI PRA VOCÊ, TI TI TI, ANOS DOURADOS, BAMBOLÊ, O PRIMO BASÍLIO, OLHO POR OLHO, O FANTASMA DA ÓPERA, ANOS REBELDES, SALSA E MERENGUE, VELAS DE SANGUE, TORRE DE BABEL, COBRAS & LAGARTOS e AQUELE BEIJO.

Mas também atuou no teatro em peças como “Se Correr o Bicho Pega, se Ficar o Bicho Come”, “O Avarento” (ao lado de Procópio Ferreira) e “Trair e Coçar É Só Começar”.

Maria Lucia foi atriz, cronista, escritora e roteirista. Foi aluna do emblemático Colégio Sion de Laranjeiras. E apesar de ter o perfil de uma típica garota de Ipanema dos anos 60, cresceu na luxuosa Avenida Atlântica, o que faz dela uma autentica garota de Copacabana.

Estudou Filosofia e foi dona da butique antes de abraçar a carreira artística. Sua irmã continuou no mundo da moda. Trata-se da famosa figurinista Marília Carneiro.

Maria Lucia conheceu seu primeiro marido, o diretor de cinema Gustavo Dahl, em Roma. Também casou-se com Marcos Medeiros, pai de sua única filha, a atriz Joana Medeiros, que lhe deu dois netos.

Maria Lúcia Dahl morreu aos 80 anos no Rio de Janeiro. Nos últimos dois anos morava no Retiro dos Artistas e sofria de Alzheimer.

A terceira mulher, que quero mencionar nesse texto, em que busco homenagear essas mulheres brasileiras, seres humanos que durante tempo demais foram relegadas a segundo plano e cujas realizações em vida apenas confirmam o quanto são importantes em nossa sociedade e deveriam ser mais valorizadas nesse nosso mundo infelizmente comandado por homens de sensibilidade questionável e agendas lamentáveis…

Essa terceira mulher não tem um currículo impressionante quanto o de Maria Lucia Dahl ou Ilka Soares, assim mesmo merecem todo o nosso apreço e comemoração.

Ela era apenas uma dona de casa, mãe atenciosa e esposa amada. É minha tia Maria Luiza Spingarn, mãe do meu amigo de infância Luiz Henrique Spingarn e esposa do falecido artista plástico, arquiteto, engenheiro e professor Zenon Spingarn, sobrevivente polonês de um campo de concentração onde perdeu todos seus parentes.

Maria Luiza e sua  família eram nossos vizinhos no Edificio Libano, em Copacabana, no Rio de Janeiro. Eles era amigos dos meus pais e eu e Luiz passamos a infância como dois irmãos. Na adolescência os pais de Luiz mudaram-se para Mogi das Cruzes, onde seu Zenon foi lecionar na universidade. Deixamos de nos ver com frequência. Mas o carinho e o afeto nunca deixou de existir. Era sempre um prazer rever Maria Luiza, quando vinha ao Rio.

Meus pais se foram, assim como seu Zenon. Ela ficou. Até esta semana, quando aos 98 anos de idade, também partiu. Partiu, mas deixou na lembrança toda uma geração de mulheres maravilhosas, que no seu jeito modesto, silencioso e constante, nos mostram que se pode atravessar esse vale de lágrimas e alegrias que é a vida sob um olhar doce de perseverança e suporte constante, o papel feminino ao longo dos tempos.

Já dizia o poeta Gilberto Gil: “Um dia, vivi a ilusão de que ser homem bastaria / Que o mundo masculino tudo me daria / Do que eu quisesse ter / Que nada / Minha porção mulher que até então se resguardara / É a porção melhor que trago em mim agora / É a que me faz viver / Quem dera pudesse todo homem / Compreender, ó mãe quem dera/ Ser o verão no apogeu da primavera / E só por ela ser / Quem sabe o super-homem / Venha nos restituir a glória / Mudando como um deus o curso da história / Por causa da mulher”.

Como todo o pai imprime uma marca indelével na formação de toda a filha, toda mãe presenteia o filho com essa ”porção mulher”. Somente quando os homens entenderem e abraçarem sem medo a sua “feminilidade interior”, nosso mundo, nossa sociedade será melhor.

O Brasil, no momento precisa muito disso. Triste perder essas mulheres logo agora, quando o país parece mergulhado no lado mais obscuro e imbecil da masculinidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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WLADIMIR WELTMAN – é jornalista, roteirista de cinema e TV e diretor de TV. Cobre Hollywood, de onde informa tudo para o Chumbo Gordo

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(DIRETO DE LOS ANGELES)

3 thoughts on “Três damas memoráveis. Que semana… Por Wladimir Weltman

  1. Fiquei sentido com seu texto carinhoso em relação à essas mulheres maravilhosas , e que permanecerão em nossas memórias! Que Deus receba com muita luz e amor ! Um grande abraço.

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