Desafio às eleições. Por Aylê-Salassié Filgueiras Quintão
Desafio às eleições: ninguém vai ter a vida fácil neste 2026
… Não tem nada de poético aí. O brasileiro está diante de um desafio, de uma narrativa ou de um grande blefe histórico. Por isso, preocupa…

“Olha bem a cara dele!”…Essa foi a introdução feita pelo Presidente da República, em Minas Gerais, do novo ministro da Fazenda, aquele que vai gerir a economia brasileira no ano das eleições. Essas mesmo que Lula promete, explicitamente, não deixar a direita ganhar, e que o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, sacramentou, com a expressão genérica: “Está feito”. Não satisfeito, o Presidente completou: “A direita nunca mais vai voltar ao Poder no Brasil”. Só mesmo um filósofo da linguagem como Mikhail Bakhtin (1895–1975), com o seu “dialogismo”, para explicar o que se está querendo dizer.
Parece um poema, mas não é. Não tem nada de poético aí. O brasileiro está diante de um desafio, de uma narrativa ou de um grande blefe histórico. Por isso, preocupa.
Lula tenta amenizar os efeitos de sua fala, observando: “Estou tranquilo”. Essa sua suposta tranquilidade não chega, contudo, ao cidadão comum. Ele vem acumulando frustrações seguidas, engolindo pacificamente as atitudes do governo ante os grandes escândalos financeiros envolvendo o aparelho de Estado e políticos em exercício, acompanhados da alta da inflação, das taxas de juros e do endividamento público.
Dario Durigan, como ex-Secretário Executivo do Ministério da Fazenda, e agora substituto de Fernando Haddad como titular é um tecno burocrata, no velho estilo da governança ditatorial. Vinha sendo um dos principais responsáveis pelos aumentos de impostos da gestão passada. Como ministro, promete rever os benefícios tributários, punir os “devedores contumazes” e, paradoxalmente, encena que “o equilíbrio fiscal será fundamental”. Haddad não conseguiu, ao enfrentar o mantra de Lula de que não se pode prejudicar o desenvolvimento brasileiro em nome de modelos burocráticos (contábeis). Por antecipação, já admite que será muito difícil no ano eleitoral, resguarda-se.
O empresariado anda desconfiado. Sente-se impactado não apenas com os sinais prévios das eleições, mas, e sobretudo, com as sobretaxas impostas por Donald Trump, dos Estados Unidos, aos produtos siderúrgicos, sucos, outros industrializados e matérias primas do Brasil.
Durigan é um advogado graduado pela USP, com poucas tintas na área da política, da teoria econômica, da macroeconomia e com ligações escassas no ambiente econômico internacional. Encena uma retórica sobre reequilíbrio das contas públicas baseada numa política fiscal cheia de buracos. Promete um corte linear de 10% nas despesas do Governo representadas por isenções, reduções de alíquotas, deduções, anistias e regimes especiais. Para os cidadãos, os descontos, no Imposto de Renda, das despesas médicas/educação, e o Simples Nacional, aprovados pelo Congresso Nacional para 2026, e que funciona como uma alternativa aos gastos públicos diretos, podem cair devido ao impacto da ordem de R$ 500 bilhões nos gastos públicos, segundo avaliação dos próprios governantes.
Para tentar conter o déficit nas contas públicas, Durigan alimenta-se ainda da imaginária receita do Governo Federal com os tributos sobre os combustíveis, devido aos aumentos preços do petróleo, que, com a guerra saltaram, de 70 a 80 dólares o barril, para US$110. A produção interna alcançou 3,77 milhões de barris/dia em 2025, mas o País depende de importação de derivados – diesel, gasolina e outros para a indústria petroquímica e energética. Petróleo caro e o dólar elevado (R$ 5,3) oneram os preços dos combustíveis, que incidem sobre os transportes para o abastecimento internos, feito por caminhoneiros. O óleo diesel já acumula reajustes de 20% no preço nos postos.
Desse mato, um coelho com cara de eleição está tentando deixar a toca. O Governo Federal alardeia que vai subsidiar 50% do aumento do preço do diesel. Mas não diz de onde esse dinheiro vai sair. O consumidor é que fique esperto. Existe aqui uma “pegadinha”. Essa promessa vem acompanhada da recomendação aos estados para promover a isenção do ICMS, sua principal fonte de arrecadação fiscal. Em ano eleitoral tudo é possível, mas é preciso “combinar antes com o Feola”. O Governo Federal não está com esse prestígio todo com os governadores, mesmo fazendo acenos de renegociação de dívidas, como fez agora em Minas Gerais. A artimanha é muito próxima da isenção do imposto de renda para quem ganha até R$5.000. Não haverá desconto para os que ganham daqui para cima. Eles pagarão a diferença de todos.
Manuseiam-se as brechas, as contradições confiantes ainda no desconhecimento da legislação pelos cidadãos.
O Tesouro Nacional vai ser submetido a muitos desafios neste 2026. O principal deles é ganhar as eleições. O novo ministro vai precisar não apenas ser mais flexível, como controlar a inflação, os juros, a produção e as exportações. Advogado, não é economista, e nem político. As pressões virão de prefeitos, governadores, deputados, senadores, do exterior e até das donas de casa. Não será jogar uma reza fora, se torcer para que o Trump caia nos Estados Unidos. A afirmação categórica de que não vai deixar a oposição ganhar as eleições revela, entretanto, uma insegurança perigosa. Há quem diga que tudo isso expõe o perigo de uma escolha antecipada nas eleições de 2026. O Tribunal Eleitoral já está testando as novas urnas na região Norte. Ao explicar as seguidas vitórias eleitorais na Venezuela, Maduro afirmou que aprendeu com o Brasil.
Mas, por favor, basta um 8 de janeiro! O País não aguenta mais. O futuro é incerto. Certo mesmo é que ninguém vai ter a vida fácil neste 2026.
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